O primeiro sutiã de uma menina trans

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Comunicação

O primeiro sutiã de uma menina trans

Para defender causa de transexuais, Madre Mia Filmes produz remake de icônico comercial criado para Valisère em 1987

Victória Navarro
22 de abril de 2019 - 8h00

Após entrar em seu quarto, uma menina, interpretada pela atriz Patrícia Lucchesi, depara-se com uma caixa rosa em cima da cama. A embalagem contém um sutiã branco, o primeiro da jovem, que, após se maravilhar com o presente, veste a peça delicadamente. A narrativa, responsável por trazer à tona sentimentos da pré-adolescência, integra o filme “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criado em 1987 pela W/GGK — por Camila Franco e Rose Ferraz, com direção de criação de Washington Olivetto e direção de cena de Julio Xavier — para a marca de lingerie Valisère.

Mais de 30 anos depois, a Madre Mia Filmes, do Grupo G8, produz para a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) uma releitura dessa comunicação consagrada com Leão de Ouro no Festival de Cannes. O filme “Meu primeiro sutiã”, lançado nesta segunda-feira, 22, com mídia ROIx Content, além de homenagear o original, aborda o cenário de violência e preconceito com pessoas transexuais.

Para Rafael Damy, diretor de cena da Madre Mia Filmes, a campanha “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, de Valisére, “é um comercial memorável, que vendeu um produto com uma maestria”. “Nada melhor do que nos inspirarmos em um case publicitário conhecido mundialmente. Se para uma menina adolescente que está se conhecendo ganhar um sutiã é um rito de passagem, tem uma importância muito grande, imagine para uma menina trans”, adiciona. O filme, criado para a Antra, é baseado na história real de Hugo Calvan, que aos dez anos alterou em documento seu nome de batismo para Ludmila e, aos 12, ganhou seu primeiro sutiã. A campanha relata a dificuldade de um pai de compreender a realidade de seu filho, uma jovem transexual que está se conhecendo como mulher.

A campanha, criada pela Madre Mia Filmes para a Associação Nacional de Travestis e Transexuais, apesar de trazer a real Ludmila para tela, não é protagonizado pelo pai real da menina. “A procura por um personagem real foi imensa, buscamos no Brasil e fomos além, porque era um caso muito específico, precisávamos de uma menina transgênero que tivesse aproximadamente 12 anos, época em que se ganha um primeiro sutiã”, explica Rafael. Fora do filme, Ludmila, filha de pais separados, mora com a mãe. A campanha conta com atores argentinos e a gravação foi feita no Brasil. “O filme não fala sobre a Ludmila, mas sim do pai. É sobre o pai e as pessoas que tem preconceito, gostaríamos que as pessoas se enxergassem no lugar do pai e sentissem empatia”, fala. O vídeo “Meu primeiro sutiã” ganha veiculação na internet e TV.

 

“Se para uma menina adolescente que está se conhecendo ganhar um sutiã é um rito de passagem, tem uma importância muito grande, imagine para uma menina trans”, diz Rafael Damy, diretor de cena da Madre Mia Filmes (crédito: divulgação)

Desde que foi lançado, em 1987, o comercial “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” foi diversas vezes, segundo Washington Olivetto, citado e parodiado na publicidade e na comunicação. “A primeira vez que isso aconteceu foi no programa humorístico TV Pirata, precursor do Casseta & Planeta, em uma paródia em que a Debora Bloch protagonizava”, conta. Além disso, em 2008, o publicitário lançou o livro O primeiro a gente nunca esquece, com uma coletânea das citações sobre o filme que já apareceram na mídia. “Acho mais do que natural que, nos dias de hoje, quando a opção transgênero saiu do armário na vida e, por consequência, na publicidade, seja feito um filme como esse inspirado no ‘O primeiro sutiã a gente nunca esquece'”, diz.

Não é a primeira vez que o Grupo G8 aborda sexualidade. No Festival de Cannes de 2018, por exemplo, o filme “True Colors”, produzido pela Vapt Filmes — uma das empresas do Grupo G8 — e criado pela agência Propeg, ganhou Leão de Prata na categoria Film. A campanha, responsável por homenagear o Dia dos Pais, é do Grupo Gay da Bahia (GGB) e retrata a história de Cézar Sant’Anna, um pai que comemora pela primeira vez a data com o seu filho. O comercial, além de mostar que o amor não tem gênero, destaca a importância de lutar contra preconceitos.

Confira a campanha “Meu primeiro sutiã”, criado pela Madre Mia para a Associação Nacional de Travestis e Transexuais:

Confira a campanha “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”, criado pela W/GGK para Valisère:

*Crédito da foto no topo: divulgação

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