David Droga: “Somos ferozes e casca grossa”

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David Droga: “Somos ferozes e casca grossa”

Para chairman e fundador da Droga5, Accenture apoia crescimento da agência e união visa impacto no futuro da indústria


13 de agosto de 2019 - 6h00

Em entrevista ao Ad Age, David Droga afirmou sentir certo incômodo diante do fato de que não existem tantas personalidades de peso na publicidade quanto outrora. Ogilvy, Burnett e Bernbach são alguns exemplos de nomes grandiloquentes que citou. Mas ele tem feito sua parte para tentar chacoalhar a indústria.

No primeiro semestre, vendeu a própria agência, a Droga5, à Accenture Interactive. Passados alguns meses, a notícia deixou para trás, naturalmente, seu teor bombástico para dar lugar à curiosidade geral sobre como (e se) funcionará a ex-agência independente dentro da maior consultoria do mundo. Droga afirma que nos próximos 12 meses o público poderá ver os frutos da Droga5 dentro da Accenture Interactive, que incluem negócios que, segundo ele, a agência nunca poderia ter conquistado antes da aquisição.

Leia os principais trechos da entrevista a Brian Braiker, editor do Ad Age, na qual o criativo comenta os passos seguintes ao acordo:

 

David Droga, chairman da Droga5 (Crédito: Celina Filgueiras)

Ad Age – Você tem cerca de 600 funcionários em ambos lados do Atlântico. A Accenture tem 459 mil pessoas. É mais provável que isso mude você ao invés de você mudá-los.
David Droga – Penso muito sobre isso. Foi um período tão devagar e longo de três anos. Não houve urgência para fazer as coisas. Passamos mais tempo falando sobre como reter nossas culturas porque eles têm sua própria cultura também, quais seriam as ambições compartilhadas e como estávamos nervosos em sobre essa pergunta que você fez. Eles sabem quem somos e isso não significa que somos uma florzinha preciosa e delicada. Somos uma entidade feroz e casca grossa. Queremos crescer. Não acho que eles nos destruiriam. Não será como em Ratos e Homens (livro de John Steinbeck), em que Lenny toca as coisas até matá-las de tanto que as ama.

Há cinco anos você vendeu ações minoritárias à WME, agora Endeavor. Você levou consigo alguma lição quando tomou a decisão de fazer o acordo com a Accenture?
De forma indireta, provavelmente. São empresas muito diferentes com ambições diferentes, são duas forças da natureza, cada qual à sua maneira. Encontrei a Accenture pela primeira vez no lugar mais improvável: em um pitch de uma conta grande do governo. Então pude vê-los no habitat natural deles e eles também nos viram com o mesmo olhar, sem amarras. Pude ver como apresentavam as ideias, o pensamento e a infraestrutura que trouxeram – e fiquei abismado. Esse foi o prelúdio do início de nossas conversas.

O que, além de escala, você está ganhando deles?
Bom, a profundidade e o escopo de habilidades deles não é segredo para ninguém. Eles podem construir e gerir sistemas. Nenhuma agência tem o ouvido dos CEOs e dos CTOs como a Accenture tem. Acho que todo mundo estava um pouco intimidado no começo, mas eles podem fazer coisas que nem ao menos podíamos sonhar em fazer.

As pessoas que me conhecem sabem que se estivesse procurando por uma saída, teria vendido anos atrás. Não sou o tipo da pessoa que se aposenta

Como o quê?
Eles estão fazendo um dispositivo médico que vai consertar operações cardiológicas. Eles fazem efeitos especiais para Game of Thrones, podem criar sistemas para cruzeiros no Carnaval onde construirão coisas capazes de revolucionar toda a experiência de passagens e do consumidor. Imagine poder pegar nosso pensamento, nossas ideias e ambição, mas ter dez mil especialistas em código e engenheiros que podem construir isso de fato.

O que você pensa quando ouve as pessoas dizerem: “Ah, você está apenas procurando uma saída” ou “Você está se vendendo”. Você liga para isso?
Não dou a mínima para isso, na verdade, porque as pessoas que me conhecem sabem que se estivesse procurando por uma saída, teria vendido anos atrás. Não sou o tipo da pessoa que se aposenta. Os dois lados do espectro eram: a) é a morte da criatividade, e b) é o futuro da indústria. Meu único impacto possível é a tentativa de provar a segunda afirmação.

Muitas agências estão muito ligadas à identidade de seus fundadores e a sua é uma delas. Como garantir que a Droga5 continue sendo Droga5 quando Droga não estiver mais lá?
Bom, esta é uma das formas. E isso não quer dizer que estou indo embora, mas certamente é um dos caminhos porque significa que a agência será conhecida por muito mais do que somente pelo nome do fundador. Também sou muito sortudo por ter alguns parceiros espetaculares e líderes criativos. Mas quando for a hora de eu ir, não serei um desses fundadores que diz: “espero que esse lugar queime quando for embora”. Sou o oposto disso.

Ano passado foi desafiador para você. Ted Royer, então chief creative officer da agência, foi acusado de má conduta e vocês se separaram. Você também encerrou a relação com Pizza Hut, Ancestry e passou por um declínio na receita. Como você saiu deste período?
Foi um ano traumático. A situação com o Ted foi um golpe emocional muito forte na agência. Ele também era um amigo de longa data meu e éramos muito profissionais sobre isso. Foi algo lamentável. Tive a sorte pelo fato de que há uma cultura muito forte na empresa. Do lado dos negócios, tivemos que dispensar pessoas pela primeira vez em nossa história, o que foi devastador. Mas aí, ironicamente, a segunda metade do ano foi espetacular. Acho que ganhamos nove concorrências na sequência.

Existe grande poder em ser pequeno. Você tem a tenacidade e a loucura para fazer o que julga ser certo. Em agências maiores, há mais pessoas responsáveis e espertas posicionadas para te impedir de fazer coisas ótimas

Qual o papel do ego para você? Você tem a reputação de ser confiante.
Gosto de pensar que tenho um equilíbrio muito saudável entre ego enorme e insegurança enorme. Uma vez que se tem esse balanço, pode fazer coisas com ele. Mas sim, você tem de conquistar sua confiança e sou inseguro o bastante para perceber quão frágil isso é. Mas tudo que me importa é o trabalho que fazemos e como tratamos nossa equipe.

Então durante aquele ano conturbado, a primeira metade de 2018, você já estava tendo conversas com a Accenture?
Na verdade, já vínhamos falando antes disso. De novo, nada havia sido formalizado. De fato, durante aqueles seis meses turbulentos, eu disse: “Não quero falar com vocês”. Disse: “De jeito nenhum vou falar com alguém quando estamos cautelosos. Não somos assim”.

O Datacenter do Ad Age calculou que a Accenture pagou US$ 475 milhões pela Droga5. Alguma chance de você confirmar isso? Pisca duas vezes?
Posso dizer que não é verdade. Tudo que digo é: “norte”.

Você começou como uma agência pequena, mas não é mais uma agência pequena. Tem dicas para agências pequenas perseguirem esse crescimento?
Existe grande poder em ser pequeno. Você tem a tenacidade e a loucura para fazer o que julga ser certo. Em agências maiores, há mais pessoas responsáveis e espertas posicionadas para te impedir de fazer coisas ótimas.

Qual o maior erro que já cometeu?
Presumir que a cultura toca todo mundo e que todos estão tendo a mesma experiência que você. Acho que quando você é menor, tem essa oportunidade, mas quando se torna uma agência grande, apenas supõe que todos estão na mesma página.

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