SXSW

Como a saúde social saiu das margens e virou mainstream

Cientista social Kasley Killam explica como a conexão humana está moldando uma indústria trilionária

i 12 de março de 2026 - 21h41

Responsável por abrir o South by Southwest em 2025, a cientista social e autora do livro The Art and Science of Connection, Kasley Killam, voltou ao festival — desta vez, encerrando as atividades do primeiro dia de evento no Hilton Grand Ballroom, que deve receber algumas das atrações mais esperadas do SXSW.

Kasley Killiam

Kasley Killam, no South by Southwest 2026 (Crédito: Reprodução)

Ainda na apresentação do painel, o time de programação do South by Southwest reforçou que a presença da cientista marca a crença do próprio festival na importância da saúde social em meio à escalada tecnológica.

Para Killam, a saúde está dividida em três pilares: a saúde física, a saúde mental e a saúde social. Esses três pilares funcionam de maneira interconectada.

Dentro do universo da saúde social, estaria a capacidade de interagir regularmente com pessoas em diferentes âmbitos, sejam amigos ou desconhecidos; nutrir relações satisfatórias com familiares e amigos; ter senso de comunidade e pertencimento; e, ainda, manter uma relação de conexão consigo mesmo.

No ano passado, Killam projetou que, em 10 anos, a saúde social deve alcançar um reconhecimento similar ao da saúde mental atualmente. Desta vez, a cientista subiu ao palco para dividir os indicadores e sinais que comprovariam essa tese.

“O que estou observando é que a saúde social, como conceito, está em ascensão. Está saindo das margens para o mainstream”, apontou a especialista. Entre os dados trazidos para corroborar com essa tese estão desde a ascensão das pesquisas no Google sobre saúde social até o reconhecimento da Organização Mundial da Saúde.

Killam ainda citou o estudo The Future 100, da VML, que indica que o próximo passo da indústria trilionária do bem-estar será construído entorno do conceito de conexão.

“O que isso nos diz é que estamos mudando a nossa linguagem. Houve tanto alvoroço nos últimos anos sobre a solidão ser uma ‘epidemia’ — e eu geralmente tento evitar esse termo porque é um tanto debatido se realmente existe uma epidemia. Mas, independentemente disso, estamos vendo que há uma mudança em curso na linguagem que está sendo usada, indo em direção a esse conceito fortalecedor e crescente de saúde social”, apontou.

Ainda assim, de acordo com a OMS, uma em cada seis pessoas no mundo diz se sentir sozinha. A cientista também pondera que ter a conexão como a bala de prata da indústria do bem-estar traz não só oportunidades, mas perigos.

“No meu keynote do ano passado, previ que todos os setores seriam impactados pela inovação em saúde social e eu mantenho essa posição. Neste exato momento, estamos vendo isso começar a acontecer. Estamos presenciando a arquitetura inicial desta nova categoria de mercado que irá influenciar a hospitalidade, o ambiente de trabalho, a tecnologia, o consumo, os serviços de saúde, o design e até os impostos. Mas precisamos conduzir essa transformação com responsabilidade.”

As oportunidades da saúde social

Mais do que mercados, Killam apontou necessidades e oportunidades envolvendo a saúde social. A primeira delas estaria nas escolas. Para a cientista, uma vez que as gerações mais jovens lideram os índices de solidão é preciso repensar o ambiente escolar para desenvolver habilidades sociais e de conexão nos alunos.

Na sequência, a saúde social também precisa ser encarada como parte da cultura organizacional no trabalho. “O que as pesquisas mostram é que funcionários conectados têm sete vezes mais chances de estarem engajados. Eles produzem um trabalho de maior qualidade e têm menos probabilidade de pedir demissão, porque estão felizes”, descreve.

A cientista ainda questiona a relação com mundo digital. Para Killam, haveria um grande fluxo de capital e investimento em startups, aplicativos e plataformas que nascem com a premissa de ajudar as pessoas a se conectarem. Ao mesmo tempo, estaríamos vivendo o que ela narra como um “acerto de contas” com as redes sociais.

“Temos a Austrália, que proibiu o acesso para menores de 16 anos; temos outros países seguindo o exemplo. E, enquanto estamos lidando com tudo isso e tentando construir novas ferramentas, surge a IA”, afirmou chamando atenção para as AI companion, modelos desenvolvidos para interagir e simular uma companhia humana.

Segundo dados apresentados pela cientista, nos Estados Unidos, 37% dos jovens da Geração Z conseguem se imaginar apaixonados por uma AI companion. Para ela, o sinal vermelho estaria quando essas tecnologias deixam de facilitar a interação humana e passam a substituí-la.