Marketing

Como as marcas impulsionam o crescimento do cinema nacional?

Com exemplos como O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui, produções brasileiras ganham força no cenário global e entre as marcas

i 11 de fevereiro de 2026 - 6h00

Marcas apoiam O Agente Secreto e impulsionam cinema nacional (Crédito: Victor Juca)

Marcas apoiam O Agente Secreto e impulsionam cinema nacional (Crédito: Victor Juca)

Assim como aconteceu em 2025, com a produção de Walter Salles, Ainda Estou Aqui, neste ano o Brasil tem mais um motivo para acompanhar o Oscar e as outras premiações internacionais: as indicações para o filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.

A produção estrelada por Wagner Moura foi indicada na categoria de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Seleção de Elenco, na principal premiação do cinema mundial.
Embora o número de indicações seja alto, o índice iguala o recorde de Cidade de Deus, que em 2002 foi apontado nas categorias Edição/Montagem, Fotografia, Melhor Diretor e Roteiro Adaptado.

Essas obras, que são marcos para o público brasileiro, têm em comum o fato de elevarem a posição do cinema nacional em um cenário global, que é dominado pelas produções Hollywoodianas. Para que isso aconteça, um dos pontos que ajudam a impulsionar o conteúdo brasileiro são os incentivos financeiros.

A produção de O Agente Secreto contou com investimento de R$ 7,5 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para sua realização, além de R$ 750 mil destinados à etapa de comercialização, de acordo com o Ministério da Cultura. Mas, além dos incentivos públicos, a obra teve o apoio de algumas marcas que estiveram presentes na tela e fora dela.

Nomes como Baterias Moura, Elo, Heineken, Petrobras e outras marcam esse momento de incentivo à produção.

Incentivo à cultura

Além de apoiar as produções nacionais e estarem inseridas em um momento em que o espectador está concentrado, para as marcas, patrocinar um filme é se inserir em aspectos da cultura nacional.

Para a Pitú, por exemplo, estar em O Agente Secreto foi como entrar em uma conversa em um território que domina, além de levar os aspectos culturais de Pernambuco e de outras regiões do Nordeste para diversos lugares no globo.

“Quando recebemos a sinopse e vimos que o filme se passava em Recife, na década de 1970, período em que nosso produto já fazia parte do cotidiano da cidade, ficamos entusiasmados”, comenta Maria Eduarda Ferrer, gerente de marketing da companhia.

Ao longo de sua história, a Pitú esteve presente em outros projetos que tinham como cenário eventos musicais e festas populares no Nordeste, além de estar presente no filme Lisbela e o Prisioneiro. Para Maria Eduarda, poder participar de maneira orgânica de histórias que se conectam com o povo brasileiro tem tudo a ver com a trajetória da marca.

A Baterias Moura, por sua vez, mesmo estando fora de sua área de atuação e investimento, aparece em destaque em uma cena no início da produção. A companhia tinha como objetivo reforçar a presença no cotidiano do brasileiro.

Do ponto de vista de marketing, a intenção da empresa de baterias de carro não era apenas aparecer na obra, mas ser uma apoiadora. Andréa Lyra, diretora de comunicação, marketing e produtos da Baterias Moura, explica que, no caso de uma parceria como essa, é interessante para ambas as partes e carrega consigo um propósito maior dentro de uma oportunidade não programada.

“As marcas funcionam como aceleradoras, alavancadoras. Quando aportam recursos, contribuem tanto para a realização da obra como foi pensada, quanto com a ampliação da visibilidade, ao ajudar a estruturar a distribuição e circulação global”, comenta.

Além das telas

No caso da Elo, a relação com o cinema está em reforçar a sua brasilidade. A companhia acredita que esse é um movimento potente de expressão da identidade.

A empresa aproveitou O Agente Secreto para apresentar a campanha “O que é daqui vale muito”, estrelada por Wagner Moura, que interpreta o protagonista do filme. A comunicação materializa a crença da marca de que o cinema conta as histórias do País e reflete a complexidade do público brasileiro.

E foi justamente com a financeira que o ator voltou à publicidade. Moura estava longe dos sets publicitários havia 13 anos e a campanha, que foi criada pela AlmapBBDO, o traz de volta ressaltando a cultura nacional e a trajetória do ator e tem a direção da atriz Alice Braga.

“Para a Elo, apoiar o cinema nacional é incentivar a cultura brasileira, que é parte do nosso DNA”, comenta Matheus Gonzalez, superintendente de marketing da Elo. O executivo afirma que desde 2024 oferece aos clientes um benefício com a rede Cinemark, em que o ingresso para filme nacional custa apenas R$ 10 reais para quem tem cartão Elo.

“Vejo as marcas como catalisadoras do sentimento popular de celebração da nossa cultura, ajudando a impulsionar a torcida por talentos e produções nacionais”, completa.

Também fora das telas, a Heineken aproveitou a popularidade de Tânia Maria, artesã e costureira, que se descobriu atriz em testes para figurantes com 72 anos e que estrelou Bacurau.

Tânia foi eleita Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago de Compostela, na Espanha, por sua atuação em O Agente Secreto, e além da cervejaria, estrelou campanhas de diversas empresas, como Burger King e da marca nordestina Ala, ao lado de João Gomes.

A Heineken aproveitou o contexto da personagem para se inserir nas conversas. “O olhar estratégico foi entender que aquele momento não era só entretenimento, mas um código cultural vivo. No filme existe uma cena de brinde com a Tânia Maria, e vimos uma oportunidade de recriá-la e homenagear o cinema nacional”, afirma Williane Vieira, gerente de marketing da Heineken no Brasil.

A marca esteve presente na teledramaturgia como patrocinadora da série Senna, da Netflix, do filme F1: O filme e apoiando a coletiva de imprensa da CCXP, que promoveu o filme Marty Supreme, contando com a presença de Timothée Chalamet.

Embora o cinema ainda seja um território no qual a Heineken quer se estabelecer, Vieira acredita que o patrocínio é uma ferramenta estratégica para impulsionar a cultura e a arte em uma visão de longo prazo.

“A Heineken atua como parceira desse ecossistema cultural ao apoiar projetos que valorizam a criatividade e a diversidade de narrativas, não necessariamente ligadas ao cinema, mas à moda e à música, principalmente. No caso de O Agente Secreto, nosso objetivo foi participar da conversa gerada pelo filme de forma legítima e divertida”, diz.

Tânia Maria estrela campanha de Heineken (Crédito: Reprodução)

Tânia Maria estrela campanha de Heineken (Crédito: Reprodução)

Cinema brasileiro cresce

Além das indicações a premiações, a valorização do cinema nacional já se reflete no market share do segmento. De acordo com dados da Agência Nacional do Cinema, o índice cresceu de 3,3%, em 2023, para cerca de 10% no período 2024-2025.

Os 367 filmes brasileiros exibidos no último ano traíram 11,12 milhões de espectadores e geraram renda de R$ 214,99 milhões.

Para O Agente Secreto, especificamente, a agência regulamentadora aponta que a obra superou a marca de 1,2 milhão de espectadores e arrecadou mais de R$ 28 milhões entre a 52ª semana cinematográfica de 2025 e a 2ª semana de 2026. O resultado é inédito para uma produção realizada fora do eixo Sul-Sudeste, reforçando a diversidade territorial do cinema brasileiro.