“Não basta ter acesso, tem que dar suporte”

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“Não basta ter acesso, tem que dar suporte”

Maitê Lourenço, CEO da BlackRocks Startups, fala sobre os desafios da inclusão racial no ecossistema de startups e na tecnologia

Luiz Gustavo Pacete
19 de outubro de 2020 - 14h00

 

Maitê Lourenço, CEO da BlackRocks Startups (Crédito: Arthur Nobre)

“Não basta dar acesso, tem que dar suporte”, esse é o alerta de Maitê Lourenço, CEO da BlackRocks Startups, a qualquer organização que se envolva na igualde racial no ambiente de trabalho ou no empreendedorismo. Em entrevista, Maitê aponta os desafios da inclusão racial na tecnologia e reforça que só será possível falar em diversidade no mundo corporativo, de fato, quando existir um número de CEOs negros que corresponda, proporcionalmente, à realidade da população negra no Brasil.

Criada em 2016, a BlackRocks Startups incentiva empreendedores negros a acessarem o ecossistema de inovação, tecnologia e startups e já foi reconhecida com prêmios como Startup Awards e no Especial Inspiração do programa Caldeirão do Huck, na TV Globo. Recentemente, a BlakRocks fechou uma parceria com o BTG Pactual com programas de fomento a empreendedores negros.

“E quando falamos de capita social hoje, no mundo das startups ou mesmo corporativo, continua sendo masculino e branco. Os mesmos círculos se conectando, jantando junto e indicando uns aos outros”

Meio & Mensagem – Em que momento você sentiu, de fato, a falta de inclusão racial no ecossistema
de inovação?
Maitê Lourenço – Quando comecei a circular pelos eventos de tecnologia, mesmo quando eu ainda nem sabia direito o que era uma startup, encontrei pouquíssimas pessoas negras, muito menos mulheres negras e menos ainda mulheres negras retintas. Cheguei à conclusão de que aquilo não estava certo. Eu não queria estar naquele lugar. Mas eu também comecei a observar esse universo e percebi a quantidade de pessoas que tinha uma ideia, fazia uma apresentação bonita e conseguia investimento para começar seu projeto. Eu pensei na galera periférica que já é criativa e autodidata por natureza. Imagine se eles tivessem acesso a tudo isso? Daí que surgiu meu interesse em trabalhar com startups. Na ocasião, tive o suporte do Michel Porcino, influente no ecossistema de inovação de São Paulo, que hoje está no Sebrae São Paulo, e desenvolve várias ações. Ele criou um grupo no WhatsApp chamado BlacRocks, a partir daí conversei com ele sobre minhas ideias e ele cedeu o nome e me ajudou.

M&M – Quais os principais desafios para quebrar as barreiras de entrada dos negros no ecossistema de startups?
Maitê –
Estamos falando prioritariamente de capital social. Ou seja, pessoas que tenham contato com empresas, acessos e caminhos que se transformem em oportunidades. Quando olhamos para o capital social hoje, ele é mais importante que capital financeiro. Estamos falando de uma relação de 70/30. É nele que eu tenho a relação com as pessoas e é por ele que as portas se abrem. E quando falamos de capita social hoje, no mundo das startups ou mesmo corporativo, continua sendo masculino e branco. Os mesmos círculos se conectando, jantando junto e indicando uns aos outros. Essa estrutura não permite que pessoas diversas, ou da periferia, tenham acesso aos principais eventos que ocorrem na Zona Sul de São Paulo, por exemplo, entre outros espaços. E passada essa fase, temos os outros 30%, que é o capital financeiro, extremamente restrito.

M&M – Existe diferença na realidade do Brasil e do Vale do Silício, que é referência em inovação?
Maitê –
Quando estive lá, aprendi na prática o conceito de gentrificação. Pessoas deixando seu ambiente nativo, onde viveram por 40 anos e tendo que migrar para regiões afastadas por conta da tecnologia. O Vale do Silício foi ocupado por grandes empresas de tecnologia porque era uma região barata. Consequentemente, essa região atraiu desenvolvedores e profissionais de tecnologia que geraram alta demanda e o encarecimento do custo de vida. Antes disso, as pessoas que moravam ali eram pobres, Palo Alto, São Francisco, Oakland, chegaram a ter 30% da população negra nas décadas de 1970 e 1980. Hoje, esse índice não passa de 5%, isso porque São Francisco ainda possui uma prefeita negra. É dicotômico pensar que as pessoas negras tiveram que se afastar enquanto você acaba tendo outro grupo muito forte presente, os “people of color”: coreanos, chineses, indianos e outros que migraram. Na prática, isso se transforma em um círculo que reflete na ausência de nas empresas de tecnologia e nos ecossistemas de startups e inovação.

“Palo Alto, São Francisco, Oakland, chegaram a ter 30% da população negra nas décadas de 1970 e 1980. Hoje, esse índice não passa de 5%”

M&M – Quais os riscos envolvidos quando tecnologias como inteligência artificial, por exemplo, se desenvolvem sem considerar diversidade?
Maitê –
Como psicóloga, eu gostaria muito que as pessoas tivessem a consciência de que racismo é diferente de viés. Quando você fala viés inconsciente, sob uma perspectiva psicossocial, você nega o racismo. Imaginar que um ato racista se justifica por viés inconsciente significa que a culpa nunca será do racista, temos que falar de discriminação racial. A partir deste esclarecimento é importante entender que a tecnologia traz o histórico de grupos que se beneficiam. Que passaram a determinar o que é feio ou o que é bonito. Procure no Google por cabelo ruim e você encontrará cabelos crespos maravilhosos. Ou tente buscar mulher feia e você verá grande maioria de fotos de mulheres negras. Quem treina essa inteligência artificial a ponto de determinar o que é feio ou o que é bonito? Hoje, nossos sistemas de IA pensam como homens brancos. Quem estabelece esse filtro? Será que se os programadores forem negros, trans, nós teríamos esse juízo? Teríamos uma estrutura tão discriminatória?

“Quando olhamos para o marketing, isso já está em uma cartilha, não adianta que eu faça ações relacionadas à inclusão racial ou o combate ao racismo se eu não reflito isso dentro da minha estrutura”

M&M – Como você enxerga o papel do marketing e das marcas nessa discussão, sobretudo em casos como o #vidasnegrasimportam que acabam gerando comoção nas redes sociais?
Maitê –
Infelizmente, tem que morrer uma pessoa para ver o assunto em alta, na onda. Espero que essa onda não acabe. Quando olhamos para o marketing, isso já está em uma cartilha, não adianta que eu faça ações relacionadas à inclusão racial ou o combate ao racismo se eu não reflito isso dentro da minha estrutura. E as pessoas sabem quando aquela empresa está fazendo algo que não vive. Quando faltam ações que concretizem o posicionamento de uma campanha. Ou quando uma marca se posiciona e você vê que nas campanhas dela não existem pessoas negras. O desafio e a pergunta é: como fazer isso de forma integrado e que mostre de dentro para fora? Como a área de marketing pode construir ações com fornecedores e startups que reflitam isso? Quando um statup de um empreendedor negro é contratada ela vai fazer marketing daquela contratação e isso também gera retorno para empresa. Se você não tem pessoas diversas ainda, pode contratar fornecedores que vão contemplar isso.

A íntegra desta entrevista está publicada na edição semanal de Meio & Mensagem, que até o fim do mês pode ser acessada gratuitamente pela plataforma Acervo, onde é possível consultar ainda todas as edições anteriores que circularam nos 42 anos de história da publicação. Também está aberto a todo o público, até o final do mês, gratuitamente, o acesso à versão digital das edições semanais de Meio & Mensagem, no aplicativo mobile, disponível para aparelhos com sistema iOS e Android.

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