“Apesar da crise, jornalismo se abriu a novos formatos”

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“Apesar da crise, jornalismo se abriu a novos formatos”

Pedro Doria, colunista de O Globo e editor do Meio, fala sobre a curadoria feita pelas newsletters

Luiz Gustavo Pacete
27 de novembro de 2017 - 9h15

Na virada de 2014 para 2015, o jornalista Pedro Doria e seu sócio Vitor Conceição perceberam o agravamento da crise das redações brasileiros com cortes, demissões e fechamento de veículos. Na ocasião, os dois se inspiraram em movimentos de fortalecimento do modelo de startups de conteúdo como BuzzFeed, Vox Media, Business Insider e Vice para criarem um projeto no Brasil.

Pedro Doria

“Percebemos que era o momento em que o mercado estava se abrindo a novos formatos e vimos que era a oportunidade de ter uma startup. Há uma crise do modelo de negócios do jornalismo e há uma crise do formato do jornalismo. São duas crises completamente diferentes. E a do formato é mais grave”, diz Doria. A newsletter Meio foi laçada em outubro de 2016 e, desde então, focado em reunir informação digital e distribuir a um público específico.

Ao Meio & Mensagem, Doria, que além de editor do Meio é colunista de O Globo, Estadão e CBN, fala sobre o modelo de negócios da plataforma e algumas referências nacionais e internacionais de inovação em distribuição de conteúdo.

Meio & Mensagem – Como surgiu o projeto Meio e a qual demanda ele atende?
Pedro Doria – Há uma crise do modelo de negócios do jornalismo e há uma crise do formato do jornalismo. São duas crises completamente diferentes. E a do formato é mais grave. Com as mudanças de hábito das pessoas por conta do digital, o informar-se de forma sistematizada desapareceu. Com isso, os aproveitadores de plantão entram. Fakes news para fazer dinheiro, a confusão entre propaganda política e jornalismo — o ‘jornalismo isento’ vira ‘jornalismo que concorda comigo’, além de problemas menores. Já começamos a perceber os resultados disso. Tanto o Brexit quanto Donald Trump são fenômenos eleitorais baseados em mentiras. E surgem em sociedades extremamente ricas e sofisticadas, o que é inacreditável. A solução está no formato: como levar informação sistematizada, com frequência, organizada, para um público com hábitos digitais?

O Meio foi criado em outubro do ano passado

M&M – Qual o principal modelo de negócios da plataforma?
Doria – Publicidade de qualidade, voltada para um público adulto e bem informado. E é pontual. Uma presença de impacto no cabeçalho do Meio por uma semana, ou um post de nossa curadoria patrocinado por um tempo semelhante. Outras newsletters de temas específicos com patrocínios a longo prazo. Nós acreditamos muito na relação entre jornalismo e publicidade na busca de públicos qualificados. Há uma relação de credibilidade aí, que tanto o veículo atribui à marca, quanto, cá entre nós, a marca atribui ao veículo quando o casamento funciona. É um ganho para ambos. Não é que duvidemos do modelo de assinatura, a gente só não o considera ideal. Assim como o jornalismo precisa encontrar novos formatos, isto também é verdade para publicidade. Formatos não intrusivos por um lado, mas não escondidos por outro. Nosso leitor entende que, se uma marca está presente com força em nosso cabeçalho por uma semana, é porque aquela relação funciona, tanto pela relação que ele já tem com a marca, quanto pela ajuda fundamental no financiamento do Meio.

M&M – Quais foram as referências internacionais que você usou para a criação?
Doria – O jogo de newsletters se profissionalizou e cresceu muito rápido, nos EUA, ao longo de três anos. The Skimm é uma referência fundamental. Embora escrita para um nicho — público feminino, urbano, 25 a 35 —, tem a mesma pegada de resumir o dia num envio matutino. E a turma de lá pensa bem os modelos publicitários. O New York Times, este ano, comprou uma participação. Há também o Inside, que pensa bem o conceito de rede de newsletters, assim como gostamos muito da lógica de edição da newsletter do Quartz — que é um website. Mas nossas referências não são apenas newsletters. A lógica da Vox Media, que é baseada na construção de uma plataforma digital que torna o trabalho dos jornalistas mais ágil e que pode se distribuir em inúmeras marcas, para nós é uma referência fundamental. Nos vemos como umastartup de tecnologia. O Meio é um produto que nasce de uma plataforma, de um software, que estamos construindo pensando nas necessidades de um jornalista digital.

A americana The Skimm foi uma das referências do Meio

M&M – Quais formatos semelhantes ao Meio no Brasil que você admira?
Doria – Um dos testes que nos impusemos para compreender se nossa teoria a respeito do momento do mercado estava correta foi o seguinte: se outras startups jornalísticas surgirem, o caminho que estamos trilhando faz sentido. Haverá um ecossistema que sustente o todo. E, de fato, surgiu. Tem algumas que pinçamos pela seriedade e qualidade que percebemos. O Poder360 é uma, que faz um mix de newsletter proprietária sobre cobertura dos poderes em Brasília e um site que, nos parece, tem tanto um modelo de negócios inteligente quanto imensa qualidade jornalística.

Outra é o Nexo. Uma de suas pontas é nossa concorrente — a newsletter Nexo —, mas o site é todo excelente. E há o trabalho de uma tríade de checagem que oferece o que nos parece ser um formato muito adequado ao tempo digital. São agência Lupa, Aos Fatos e o Truco (da ótima agência Pública). O formato é extremamente adequado por dois motivos. Um é que esta se tornou uma pergunta fundamental nos dias de hoje: o que é verdade? E, dois, porque eles geral cápsulas de informação. Tal coisa é verdade? E a resposta. Esta cápsula pode ser distribuída num site, em redes sociais, na TV, pode virar um vídeo. É informação que interessa e muito maleável.

 

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