Taís Araújo: “Não posso ser a primeira e única negra”

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Taís Araújo: “Não posso ser a primeira e única negra”

Atriz e apresentadora, Taís Araújo fala sobre redes sociais, gestão de carreira e negros na comunicação

Thaís Monteiro
29 de novembro de 2019 - 6h00

Neste semestre, com Aruanas, Taís Araújo estreou sua primeira série original para o VOD da Globo, o Globoplay. Nesta semana, a atriz apresentou ao público Vitória, uma advogada bem-sucedida que tem dificuldades em engravidar, sua personagem na nova novela das 21hs da Globo, Amor de Mãe. Nesse meio tempo, conduz sua segunda temporada como apresentadora do reality Popstar.

Já na publicidade, a atriz figurou em uma campanha de Italac com a companheira de elenco, Adriana Esteves, e foi o rosto de uma campanha do blended scotch, whisky de luxo da Chivas. Segundo a marca, Taís foi a primeira mulher negra a protagonizar uma comunicação de whisky no Brasil.

 

Taís foi eleita para trazer um olhar mais jovem para Chivas e desconstruir estereótipos de que mulheres não bebem whisky (Crédito: Divulgação/Chivas)

Quem faz a conciliação dessas diferentes frentes de negócios é ela mesma. A atriz deixou o escritório São Sebastião, que agenciou sua carreira durante 13 anos, e decidiu ser sua própria empresária. “Eu queria ter um trabalho mais criativo junto às agências e marcas e encontrar empresas cujos valores comungavam com os meus”, justifica. Para ela, é importante estar no controle para compreender quem é seu público, se aproximar dele e firmar uma relação honesta e transparente a fim de entregar sua melhor versão, seja atuando ou apresentando um produto que é adequado ao que ela acredita. “Eu estando junto na criação, a gente vai chegar de uma maneira mais direta no consumidor final. Para mim não interessa só chegar no estúdio, segurar uma caixa de um produto e dar uma risada, entendeu?”, defende.

Esse entendimento do público ela adquiriu, em parte, pela internet. De forma positiva, ela considera que as redes sociais permitiram aos artistas, principalmente os de televisão, ter um acesso imediato e honesto do que o público pensa sobre seu trabalho. A contrapartida da conexão são os protocolos impostos às figuras públicas de emitir posicionamentos, mesmo que sobre assuntos ou pessoas que desconhecem. “Não deve existir um protocolo a seguir. Temos que entender qual é o nosso papel nas redes. Eu tenho muito interesse em levantar debates e não polêmica, estimular diálogo e não briga”, conta.

Já nos anúncios publicitários, a atriz busca estimular debates sobre tabus sociais e cobrar das marcas uma continuidade na contratação de mulheres negras para protagonizar sua comunicação. “Eu não tenho o menor problema em ocupar o lugar de ‘primeira negra’, desde que não seja a primeira e única”, coloca. Ao Meio & Mensagem, Taís Araújo contou seus aprendizados e desafios como empresária e opinou sobre a presença de negros na publicidade.

Meio & Mensagem – Por que você decidiu gerir sua própria carreira e quais são os desafios desse trabalho?
Taís Araújo – Eu decidi por dois motivos principais. Primeiro, porque queria ter um trabalho mais criativo e colaborativo com as marcas e as agências. Segundo porque, para mim, era muito importante trabalhar com marcas que comungavam comigo em valores, para eu entender se me interessava ou não estar com elas. Para mim não interessa se a parceira só agrega valor para a marca ou para mim. Eu acho que tem que comungar, acreditar. O desafio é que a demanda aumenta muito. Você tem que estar muito presente e ter um certo domínio de tudo. Eu delego, obviamente, porque eu não tenho tanto tempo: estou na novela das 21hs, apresentando um programa ao vivo, tenho dois filhos, uma casa para administrar, marido, família. Então, o desafio maior é o tempo e você tem de estar muito ligada porque qualquer vacilo, é com você mesmo.

E quais são os aprendizados dessa decisão?
Aprender a delegar, não 100%, mas saber o que está acontecendo. Os aprendizados vão vindo até de treinamentos do pessoal. Mas isso era uma coisa que eu já vinha querendo há, pelo menos, cinco ano. Sou absolutamente grata pelo escritório São Sebastião, do qual eu fiz parte durante 13 anos. Eles são meus parceiros até hoje. Lá eu já acompanhava muito tudo o que chegava e,  quando recebia uma proposta de orçamento, ia estudando. Eu não dizia apenas “sim” ou “não” para as propostas. Aceitava ou negava em cima de um estudo do orçamento que me mandavam. Isso eu aprendi e estou passando para as pessoas que trabalham comigo.

“A internet tirou o artista do Olimpo, que é um lugar absolutamente chato, antigo e desnecessário de se estar”

De que forma você participa da criação das campanhas que protagoniza?
O meu trabalho hoje é colaborativo, de criação conjunta. Se chegar um roteiro de um remédio que é voltado para o público feminino, por exemplo, eu olho, mexo um pouco nele — sempre respeitando a agência, a criação e o cliente, claro –, mas fazendo com que seja o mais próximo a mim possível, desde as palavras até o pensamento. Eu também acho que a internet trouxe essa minha vontade de estar mais perto. Ela trouxe essa proximidade, tirou o artista do Olimpo, que é um lugar absolutamente chato, antigo e desnecessário de se estar. É diferente da televisão. Com ela, você sabe o que o seu público pensa de verdade e acho que isso cria uma relação mais honesta com o seu público consumidor. E com a publicidade é a mesma coisa: eu quero chegar no público consumidor da marca, mas também ao meu público que vai assistir a campanha, de maneira honesta e transparente.

Há algum tempo temos debatido a presença de negros em campanhas publicitárias. Viu um avanço em relação a isso?
Acho que se fizermos alguma comparação — e não precisa ser profunda não — do que são as propagandas de hoje e do que elas eram dez anos atrás, nós vemos uma mudança significativa e muito importante. E acho que ela tem que ser celebrada. Mas é óbvio que, se fizermos uma comparação proporcional, com a quantidade de negros no País, ela ainda não é igual, mas já melhorou bastante.

De qualquer forma, você ainda é a primeira mulher negra de diversos eventos (protagonista de novela, por exemplo) e agora está sendo anunciada como a primeira mulher negra a fazer uma campanha de whisky. Como você enxerga essa posição de “primeira negra” nos seus trabalhos?
Eu não tenho o menor problema em ocupar o lugar de ser a primeira, desde que não seja a primeira e única. Se eu for a primeira e única, não tem avanço. Avança se eu for a primeira e, depois, se várias outras seguire e isso se tornar uma constante na propaganda, na televisão, na dramaturgia… Enfim, se esse portão for aberto e mais profissionais parecidas comigo, com as minhas características físicas, comecem a trabalhar com personagens e produtos de qualidade, aí sim podemos dizer que tem sim uma mudança significativa na sociedade.

O que falta para as empresas avançarem nesse quesito?
Eu acho que o que falta é o entendimento de que todo o público deve ser contemplado. Muitas empresas já entenderam isso. Tem que fazer uma pesquisa, do tipo “cara, quais são as características das pessoas que consomem os meus produtos?” e essas pessoas têm que ser representadas nas suas campanhas. Acho essa uma conta bem fácil de ser feita.

Quais são os debates que deveriam nortear as questões raciais na mídia e na publicidade hoje?
Eu não sei se a publicidade tem que lançar uma questão racial na mídia. Eu acho que a publicidade tem que respeitar o negro enquanto consumidor. Basicamente é isso. Quem vai anunciar tem que anunciar para ele, porque ele consome e consome muito. Porque, se 54% da população deixar de consumir, as empresas quebram. Os consumidores têm que ser respeitados enquanto consumidores e isso se traduz em eles estarem presentes nas propagandas.

**Crédito da imagem no topo: Reprodução/Brunno Rangel

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