Jornais: era de transformação no impresso e no digital

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Jornais: era de transformação no impresso e no digital

Em cenário de queda dos impressos e avanço da circulação digital, Pedro Silva, presidente do IVC, aponta os desafios de monetização dos veículos

Bárbara Sacchitiello
11 de fevereiro de 2022 - 6h03

(Crédito: kaboompics com/pexels)

A transformação dos hábitos de consumo de conteúdo, que já vinha afetando os jornais do Brasil – e de todo o mundo – na última década, teve uma aceleração durante a pandemia de Covid-19. Nos últimos dois anos, as medidas de redução de circulação e a crise econômica agravada pela pandemia fez com que a circulação dos jornais impressos no Brasil, que já vinham em uma curva de queda, caísse ainda mais.

Dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) mostraram que, em 2021, os dez maiores jornais do País perderam circulação impressa em comparação com o ano anterior.

Alguns tiveram queda mais expressiva, como o Super Notícia, que viu sua circulação cair 22,5% em 2021; o Zero Hora, que perdeu 16% de circulação de sua versão impressa, e o Correio, que viu sua circulação média diminuir 19,7% no ano.

A diminuição da circulação dos jornais impressos não foi causada pela pandemia – pois era um movimento que já vinha se desenhando há alguns anos – mas foi fortemente agravada por ela. Essa é a opinião de Pedro Silva, presidente do IVC. “A queda do impresso e o aumento da circulação digital já acontecem há muito. De qualquer forma, o processo da pandemia, com restrição à circulação das pessoas e à locomoção, acelerou uma série de tendências que já estavam acontecendo. As mudanças que esperávamos que levariam alguns anos aconteceram de uma vez”, resume.

Silva faz uma comparação entre a alteração dos hábitos de consumo de notícias com a aceleração do comportamento digital, que acabou fazendo com que mais pessoas começassem a fazer compras online, acessar serviços de streaming, participar de vídeo chamadas e ter atividades cotidianas no ambiente virtual. Segundo o presidente do IVC, essa aceleração fez com que as pessoas que já vinham transformando seu hábito de leitura de jornais podem, portanto, ter antecipado o cancelamento das assinaturas de impressos e migrado totalmente para as versões digitais.
Embora exista uma tendência global de digitalização dos jornais, Pedro Silva não acredita que o ano de 2022 registrará o mesmo ritmo de queda de 2021. Segundo ele, é natural que mais pessoas assinem – e consumam – versões impressas de jornais e que, por outro lado, as bases de assinaturas de impresso diminuam. Mas isso não deve acontecer em um ritmo tão acelerado quanto nesse período de pandemia. “Já houve uma mudança no ponto de equilíbrio entre as circulações impressa e digital. Esse processo deu um salto e não voltaremos aos patamares de antes. A queda do impresso deve ser menor do que a de 2021. Talvez, tenhamos até uma estabilidade”, prevê o presidente do IVC.

Longe da compensação
Outro ponto alertado por Pedro Silva no cenário dos jornais é de que o aumento da circulação digital (dos dez maiores jornais do Brasil, oito registraram aumento nas assinaturas digitais no ano passado) ainda não é suficiente para compensar o declínio do impresso. “Podemos entender que as pessoas estão lendo mais jornais no ambiente digital, mas que vem fazendo isso por outros formatos. Elas podem estar lendo o site, os aplicativos, ouvindo podcasts, mas não estão, necessariamente, assinando as edições digitais dos jornais. Existe uma migração para formatos de leitura mais leves e percebemos que as pessoas querem ter acesso à informação, mas não querem, muitas vezes, consumi-la no ambiente digital no mesmo formato que faziam no impresso”, alerta.

Esse cenário, naturalmente, traz aos publishers também o desafio da monetização. Embora esteja crescendo nos gráficos do IVC, a circulação digital – e, mais do que isso, o consumo de notícias nos ambientes online – ainda não é monetizado da mesma forma que os impressos. Pedro Silva vê que já vê uma evolução, com a publicidade ganhando mais importância nas plataformas digitais e com a oferta de soluções, para os anunciantes, que envolvem especificamente os produtos impressos. Para que isso aconteça de uma forma mais ampla e se reverta em receitas maiores, contudo, Silva alerta que seria importante que todo o conteúdo do veículo, sobretudo os produtos digitais – além dos eventos e ações de experiência – fossem contabilizados na audiência geral, tal como os índices de circulação, para que os anunciantes tenham a dimensão real dos impactos que podem ter ao vincularem suas marcas a esses publishers.

O presidente do IVC acredita que o mercado está em fase de evolução desses conceitos e que, com o tempo, a tendência é que os anunciantes percebam as vantagens e os retornos ao patrocinarem produtos digitais específicos dos jornais. “Um evento, por exemplo, pode ser algo até mais estratégico para um anunciante, dependendo do público que ele impacta”, sugere.

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