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Guilherme Briggs: “A voz não é somente o som”

Dublador fala sobre a importância da voz em projetos de naturezas diversas e avalia impacto da IA

i 4 de fevereiro de 2026 - 6h03

A familiaridade no som é uma das especialidades da dublagem. E vozes como a de Guilherme Briggs estão vivas no imaginário brasileiro.

Ao longo de mais de 30 anos de carreira, o dublador já deu vida à personagens que vão desde animações à super-heróis.

De fato, seu currículo conta com Mickey Mouse e Buzz Lightyear, ambos da Disney; Grinch; Yoda e Han Solo, da franquia Star Wars; e o Super Homem, entre outros.

Guilherme Briggs

Guilherme Briggs: “Voz é intenção, é pausa, é respiração, vivência” (Crédito: Arte M&M)

Em projeto recente, Briggs empresta a voz à série Think Big, novo projeto de Meio & Mensagem, em parceria com a Agência California, que relembra e celebra grandes ideias da indústria criativa que ressoam na cultura mundial.

O dublador comenta sua participação no projeto, reflete sobre a importância da dublagem e analisa os impactos da tecnologia sobre a profissão, entre outros temas.

Guilerme Briggs e o projeto Thin Big

Meio & Mensagem – Como classifica o convite para ser a voz do projeto Think Big?
Guilherme Briggs – Recebi esse convite com muita alegria porque o Think Big fala exatamente sobre ideias que mudam rotas, ideias que começam pequenas, mas têm visão, coragem e impacto. Emprestar voz para esse tipo de projeto não é somente narrar uma história, é ajudar a conduzir para uma reflexão. É dar ritmo, peso, emoção a ideias que inspiram outras pessoas a pensarem maior.

M&M – Qual é o papel da dublagem na construção da identidade de uma série de marca, sobretudo narrando grandes feitos da indústria?
Briggs – A voz ajuda a criar a identidade, dar unidade e criar memória. Quando falamos de grandes feitos da indústria, não basta apenas informar, é preciso envolver. A dublagem transforma os vários dados e informações em narrativa, transforma em história envolvente e que fixa na mente das pessoas e, consequentemente, nas emoções.

Engajamento na economia da atenção

M&M – Vozes familiares contribuem para o engajamento de conteúdo, especialmente em meio à economia da atenção?
Briggs – Contribuem muito. Vivemos uma disputa constante pela atenção. Tudo é rápido, tudo é excesso. Então, uma voz familiar cria reconhecimento imediato, cria conforto e confiança. É quase um convite dizendo: “Fica aqui um pouquinho mais. Pera aí, eu tenho mais uma história para te contar”. E os seres humanos são movidos por histórias. Somos contadores e ouvintes de histórias, principalmente se ensinam entretendo. É o melhor dos mundos.

M&M – O que a dublagem exige de um profissional em projetos diferentes, no caso de ficção e não ficção, por exemplo? A preparação varia de alguma forma?
Briggs – Muda bastante. Na ficção, o foco está no personagem, na emoção, no subtexto, na intenção. Já na ficção, o desafio é outro. É mais na clareza, no ritmo, na credibilidade. Mas, nos dois casos, o preparo é essencial. Tem que entender o texto, o contexto e respeitar profundamente o conteúdo.

A IA na dublagem

M&M – Como enxerga a interferência da inteligência artificial (IA) sobre a dublagem ?
Briggs – A IA é uma ferramenta poderosa. Isso é inegável. Mas voz não é somente o som. Voz é intenção, pausa, respiração, vivência. A IA pode apoiar processos, pode ajudar tecnicamente, mas a interpretação, a ética humana e a conexão emocional ainda são humanas. Não acredito que uma IA vá conseguir envolver um ser humano tão profundamente quanto um ser humano consegue fazer com o outro. É preciso DNA, ossos, vivência, anos de experiência, sangue, suor e lágrimas e, claro, o bom e velho humor das pessoas que nenhuma IA vai conseguir recriar.