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Metaverso: o que fica para a indústria após o hype?

Longe da popularidade dos anos anteriores, ideia tecnológica ainda segue viva nas experiências imersivas mais calcadas na realidade, segundo especialistas

i 11 de fevereiro de 2026 - 6h01

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(Crédito: Shutterstock)

No início dá década de 2020, quando o mundo ainda vivia os efeitos reais da pandemia de Covid-19, um termo começou a ganhar visibilidade, inicialmente no mundo corporativo. Posteriormente, a palavra adentrou à programação dos mais importantes eventos de tecnologia, criatividade e negócios do mundo.

Até que, no ano seguinte, em 2021, uma das maiores big techs do planeta decidiu até alterar seu nome para mostrar que aquele termo seria seu futuro. Foi assim que, em outubro daquele ano, o Facebook passou a se chamar Meta, como forma de lembrar que o centro de seus objetivos estaria calcado no metaverso.

Mais de meia década depois da popularização, o metaverso não tem a mesma visibilidade nem o mesmo tratamento de antes. Grandes eventos internacionais praticamente deixaram de lado a abordagem sobre a realidade tecnológica e as atenções gerais parecem ter se voltado totalmente à inteligência artificial e seus feitos para a vida prática das pessoas.

Em relação aos negócios, o metaverso também não desfruta do mesmo prestígio. Em janeiro, a imprensa internacional noticiou que a Meta cortou cerca de 10% dos funcionários de sua divisão Reality Labs, criada para ancorar as estratégias relacionadas ao metaverso. Analistas estimam que esses cortes podem, em breve, chegar a 30%.

Porém, esses cortes e redução da empolgação em torno do termo não significam que o metaverso “morreu”. A ideia de aproveitar o ambiente virtual para criar experiências para as pessoas segue mais viva do que nunca, na visão de especialistas em realidade imersiva ouvidos pela reportagem.

“Para mim, quando o hype passa, fica a parte mais interessante: o que realmente se integra à vida”, resume Catarina Papa, cofundadora da empresa de experiências imersivas Rito.cc.

Segundo ela, o problema das leituras que colocam fim à proposta do metaverso é que elas tratam a tecnologia como se ela houvesse sido criada para ser algo fechado e estável.

“Acho que o desafio agora, com toda essa velocidade da curva da tecnologia, é aprendermos a pensar o futuro. É olhar para esse caso do metaverso e perceber que talvez a forma como pensamos o futuro não é a forma que aproxima este futuro. É menos sobre buscar manchetes que tentam prever o que vem pela frente, e mais observar sinais de mudança que já estão acontecendo e perceber como aquilo pode te convidar a desenhar e criar um futuro desejável seu. É aí que o futuro começa a ganhar consistência”, diz.

Novas realidades

A opinião de Catarina é compartilhada por outros profissionais que também trabalham na área de realidade aumentada, como Paulo Blassioli, CEO e fundador da produtora Not so Impossible, que pontua que afirmar que o metaverso é um insucesso total é um grande equívoco.

Blassioli vê como os movimentos de redução de investimentos da Meta e de outras empresas como um ajuste de foco. “O conceito da realidade virtual ainda está em evolução. O metaverso não se extinguiu, o foco é que mudou para o uso de outras ferramentas. Até mais interessantes, a meu ver. A coisa vai continuar evoluindo, junto com uma série de outros avanços que hoje estão mais em evidência: a AI, robótica autônoma avançada, computação quântica. No fim, para mim, interessa menos a ferramenta em si, e mais o impacto positivo que ela pode ter nas pessoas”, analisa.

“O hype realmente passou, mas o negócio ficou”, corrobora Fabio Costa, fundador e CEO da Agência Casa Mais, também especializada em tecnologias virtuais e imersivas. Ele admite que o termo “metaverso” possa ter perdido força, mas realidade virtual, aumentada e mista seguem ativas no dia a dia das empresas.

“Desde 2011 trabalhamos com projetos concretos, com aplicação prática e retorno claro. No fim, o nome muda, a tecnologia evolui, mas a demanda das marcas por soluções mais imersivas e eficientes continua muito real. O ponto é parar de tratar a experiência imersiva como algo futurista e começar a enxergar como ferramenta prática, que melhora a vida das pessoas”, destaca Costa.

Em vez de metaverso, um termo melhor para definir a combinação de realidades que a tecnologia nos oferece seria “computação espacial”, na opinião de Byron Mendes, CEO da Metaverse Agency. Segundo ele, a ideia de usar o espaço físico como interface, colocando camadas digitais no mundo real com contexto, utilidade e menos fricção, segue em alta.

“Para marcas e empresas, o caminho mais forte é aplicar isso onde resolve problemas concretos: treinamento e simulação, demonstração de produto, showrooms e varejo, ativações em eventos, educação e cultura. E, na prática, a porta de entrada mais escalável hoje tende a ser realidade aumentada no smartphone e, cada vez mais, wearables, porque exige muito menos mudança de comportamento do que realidade virtual. O próximo ciclo não é um universo paralelo para todo mundo. É computação espacial como infraestrutura de experiência, integrada ao dia a dia e com valor mensurável”, projeta.