“Celulares são feitos para serem viciantes”, diz Aaron Paul
Ator da série Breaking Bad e Kaiwei Tang, criador do Light Phone, debatem os riscos da dependência digital

Laila Harrak, Aaron Paul e Kaiwei Tang no palco do MWC 2026 (Crédito: Amanda Schnaider)
O Mobile World Congress (MWC) 2026 abriu espaço em um de seus palcos principais para uma discussão incomum em sua programação: o excesso de tecnologia no dia a dia das pessoas e como isso pode ser prejudicial no longo prazo.
Laila Harrak, âncora da CNN Internacional, ressaltou que estudos mostram que as pessoas que passam mais do que quatro horas por dia diante de telas relatam sentimentos de ansiedade, depressão e solidão.
Inclusive, um dos públicos mais afetados são as crianças. Um estudo recente feito pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indicou que 72% das crianças avaliadas tiveram o aumento da depressão associado ao uso de telas.
Apesar disso, em depoimento durante um julgamento sobre plataformas adotarem um design que causa vício e danos à saúde mental de jovens, o CEO do Instagram, Adam Mosseri, alegou que o uso da rede social por várias horas não deve ser clinicamente considerado um vício, mas um “uso problemático”.
Por falar em efeitos viciante, Aaron Paul traçou um paralelo entre seu personagem em Breaking Bad, Jesse Pinkman, um viciado em drogas, com o vício moderno em smartphones. “Jesse definitivamente se identificaria. Os celulares são feitos para ser viciantes”. Na sua visão, a grande questão é como amenizar esse vício. “Não sou contra a tecnologia. Só não quero me afogar nela”.
Paul revelou, ainda, que vive de forma “muito analógica”, uma vez que não possui computador há 15 anos após ter o seu roubado e perceber que com isso acabou ganhando tempo. Ele ainda salientou o choque ao ver familiares à mesa de jantar com silêncio imperando por estarem todos em seus dispositivos móveis.
Com o objetivo de irromper essa lógica viciante dos smartphones, Kaiwei Tang, CEO e cofundador da Light, se uniu à Joe Hollier para lançar o Light Phone, em 2017. Ele se trata de um dispositivo básico, com acesso ao 5G, que foi pensado para ser usado o mínimo possível.
Apesar de simples, o aparelho tem uma câmera de 50 megapixels, bateria substituível e um chip NFC para pagamentos. “Desenvolvemos todas as ferramentas nós mesmos, garantindo que não haja entretenimento nem coleta de dados para fins lucrativos”, destacou o executivo.
Tang garantiu que no Light Phone não tem anúncios e feeds infinitos, uma vez que toda ação do usuário tem um fim claro. “Não estou dizendo para voltar a usar um celular básico antigo. Estou dizendo que você pode ter todas as ferramentas modernas e usá-las quando precisar. Mas nenhuma delas é desenhada para capturar seu tempo, sua atenção ou seus dados”, comentou Tang.
O executivo também criticou o modelo de negócios de grandes empresas de tecnologia que priorizam o engajamento a qualquer custo. “Quero tecnologia que funcione como um martelo ou uma chave de fenda”, enfatizou. “Quando preciso pregar um prego, pego o martelo, faço o que tenho que fazer, guardo de volta. Não fico deslizando o dedo no meu martelo por cinco horas para que a empresa que o fabrica possa ganhar dinheiro”, cutucou.
Criada sob a mesma lógica
Ao longo da conversa, ambos expressaram preocupações com o avanço da inteligência artificial generativa. “Sinto que todos os meus amigos estão usando o ChatGPT ou algum outro chatbot a todo momento, o que é muito estranho. Isso nem existia há um ou dois anos, e agora virou algo do dia a dia. A geração mais jovem já está criando relações pessoais com seus chatbots”, alertou Paul, que tem um Light Phone, além de um smartphone. “Não acham isso um pouco perigoso?”, indagou.
Para Tang, o problema com a IA é que ela foi criada da mesma forma que as redes sociais e smartphones, sem levar em consideração a lógica por trás de como funcionam. “Parece que estamos caindo na mesma armadilha: todo mundo criando ferramentas sem realmente parar para entender como elas funcionam, como explicar isso para os filhos, qual é o impacto para a humanidade”, alertou.
Apesar de reticentes em relação ao excesso de telas e ao vício envolvendo os dispositivos móveis na sociedade atual, tanto Paul quanto Tang não condenam a tecnologia. “Não sou contra a tecnologia. Nem diria que sou cético. O que estou tentando dizer é que a tecnologia é uma ferramenta”, disse o fundador do Light Phone. “Não conseguimos aceitar nem um momento de tédio. E o tédio é ótimo. É nele que a criatividade nasce de forma saudável”, complementou.
Por fim, ambos ressaltaram a importância de reduzir a dependência digital e deram algumas dicas para a plateia, como deixar o celular em casa em algumas ocasiões, não dormir com o celular perto da cama e priorizar conexões humanas. “A coisa mais valiosa que temos como espécie é o tempo”, afirmou Paul. “Devemos proteger nosso tempo e desfrutar das companhias, deixando os aparelhos na mesa por um momento”, completou.