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A morte do mais do mesmo

Como sobreviver ao "Clock Drift" e ao funeral das tendências

Leonardo Naressi

CEO na DP6 Marketing Analytics 15 de março de 2026 - 13h13

Se o meu objetivo no SXSW 2026 era desaprender, a programação me entregou o desafio definitivo. Em questão de dias, vi mentes brilhantes concordarem em um diagnóstico brutal sobre a decadência dos nossos modelos de planejamento, mas divergirem (felizmente) sobre como devemos agir. No meio disso tudo, surge um paradoxo: estamos sendo engolidos pela velocidade de execução das máquinas e da IA, mas continuamos paralisados por nossa obsessão por insights perfeitos.

Como consultor em Marketing Analytics, confesso que sempre gostei de gráficos, relatórios e estudos completos. Mas, na sessão da futurista Amy Webb este ano, o que a audiência assistiu foi um funeral. Ela subiu ao palco de preto, acompanhada por uma banda marcial, para enterrar oficialmente seu famoso PDF de tendências após 19 anos. Em um mundo de mudanças exponenciais, Webb argumenta que um relatório estático de tendências isoladas já nasce obsoleto; ele atua como uma muleta que nos impede de enxergar as convergências que alteram a realidade subitamente.

Após a “morte” do relatório, ela anunciou seu novo modelo: Convergências. Em seu estudo mais recente, ela conecta sistemas onde forças tecnológicas e econômicas colidem para criar realidades latentes e, por vezes, repentinas.

Essa constatação ecoou na sessão do psicólogo Matt Klein, “Why You’re Culturally Irrelevant (…And How to Change That)”. Em uma pergunta aberta, a maioria da plateia falhou ao tentar classificar grupos de tendências entre os anos de 2018 e 2024. Era uma pegadinha, mas que demonstrou o viés de confirmação nos estudos de tendência e a carência de metodologias mais rigorosas ou visões holísticas.

Klein trouxe um dado desconcertante: a indústria gasta 81 bilhões de dólares por ano em pesquisas de mercado, mas sofre de uma verdadeira paralisia de análise. Na busca por segurança, exigimos dezenas de métricas para “pré-racionalizar” qualquer decisão. O resultado? Criamos marcas e empresas avessas ao risco, que apenas perseguem o hype algorítmico em vez de usar os dados para construir cultura. Ele defende que as melhores ideias em comunidades autênticas são apostas que tomamos agora e “pós-racionalizamos” depois. Matt propôs o que chamou de Previsão como Ativismo: construir ativamente o futuro com autenticidade em vez de apenas seguir estudos e modas. Ambos enterraram o “mais do mesmo” e que na era da IA é replicada sem fim nas respostas das LLMs.

Mas aqui a trama se complica, e entra a pitada nerd que adoro. Se estamos paralisados na sala de reunião esperando o dado perfeito, o que acontece nos computadores das nossas equipes? A resposta veio do futurista Neil Redding, na sessão “Orchestrate or Obsolete: Leading the AI-Powered Near Future.”

Redding apresentou o conceito de Clock Drift: a diferença crescente entre a velocidade de execução da IA nas mãos das equipes e a lentidão arrastada dos comitês corporativos, discussões e aprovações. A IA deixou de ser uma ferramenta que responde a comandos para se tornar uma participante capaz de raciocinar com contexto de longo prazo. Se a sua capacidade de decidir for muito mais lenta que a capacidade da máquina de executar, seu modelo de operação inteiro está vulnerável.

Desaprendi para aprender de novo. A liderança de impacto hoje requer mais orquestração e contexto. A tecnologia só será útil se tiver acesso ao contexto do seu negócio, mas o sucesso não depende de tendências isoladas. Ele depende de uma visão integrada de ecossistemas complexos, onde humanos focam no discernimento ético e a máquina cuida do volume.