Começa com um novo jogo em Austin
Aos 40 anos, o festival propõe menos previsibilidade e mais descoberta, com o humano no centro da IA
O dia ainda está começando em Austin, mas o tom da conferência já foi dado por Greg Rosenbaum, SVP de Programação e chair do SXSW 2026. Ao apresentar a edição de 40 anos como uma espécie de “creative village” espalhada pelo centro da cidade, que integra inovação, música e film & TV em um único fluxo, diferente de todos os demais onde a programação era dividida por assuntos , esse ano os assuntos se cruzam e interconectam nos mesmos dias.
Greg sinalizou um festival menos sobre corredores de convenção e mais sobre encontros entre comunidades que raramente dividem o mesmo espaço físico.
Este não é apenas mais um SXSW: é um novo tabuleiro, com novas regras e um jogo diferente para todo mundo que veio até aqui.
Nas falas de abertura, um slide em especial captura o espírito destes próximos dias: “Make a plan, then break it”, acompanhado do convite para “embrace discovery” e reconhecer “o poder da pessoa ao seu lado”. Em um festival que reúne mais de 250 sessões com foco em inteligência artificial, creator economy, marketing e saúde, a pergunta central que atravessa as trilhas é: “como isso impacta os humanos e a humanidade?”.
Atiçou muito a agilista raiz que sou.
Planejar continua essencial, mas passou a ser ponto de partida — não de chegada. Os grandes temas que aparecem nos palcos reforçam essa mudança de foco: humanidade na era da IA, evolução do comportamento do consumidor, fandom e comunidades, renascimento criativo e conexão humana.
Depois de anos de fascínio pelas capacidades das máquinas, a edição de 40 anos marca uma virada de tom: a questão deixou de ser apenas “o que a tecnologia consegue fazer?” e passou a ser “que tipo de experiência humana queremos sustentar com tudo isso?”
Se trocarmos Austin pelos escritórios, lojas, centros de distribuição e squads onde trabalhamos, o paralelo é imediato. Continuamos desenhando roadmaps como se o contexto fosse estável, quando, na prática, vivemos em um festival permanente de mudanças: consumidores reconfiguram comportamentos em semanas, ferramentas de IA redesenham fluxos de trabalho e parceiros de negócio trazem provocações de outros mercados.
“Embrace discoveries” – olha a agilidade aqui outra vez, com mentalidade de design thinking – nesse cenário, deixa de ser um mantra de festival para se tornar uma competência organizacional.
Na prática, abraçar descobertas dentro das empresas significa admitir que nem todas as boas ideias virão do plano anual. Muitas nascerão das bordas: do insight de quem está no atendimento, do olhar do time de operações, da hipótese de alguém em outro país que enxerga um contexto diferente. Isso pede menos apego ao plano perfeito e mais disciplina para testar em escala menor, medir rápido e incorporar o que funciona na próxima sprint. Não é sobre viver no caos, e sim sobre criar estruturas que suportem experimentação contínua sem perder governança – isso se parece muito com a orientação de squads e tribos multidisciplinares focadas em CX e agora Hiperpersonalização acelerada por AI.
O outro ponto do slide — “o poder da pessoa ao seu lado” — traz talvez a lição mais importante para este momento. As grandes disrupções que admiramos dificilmente são obra de um indivíduo isolado; elas nascem de redes de colaboração que combinam capacidades técnicas, sensibilidade humana e leitura fina de contexto.
No SXSW, isso acontece quando você muda de sala porque alguém no corredor recomenda uma sessão; nas empresas, quando tecnologia, negócios, atendimento, dados e jurídico deixam de ser silos para se tornarem um sistema vivo, em que uma pergunta honesta pode mudar o rumo de um produto ou de uma campanha.
Esse mesmo raciocínio vale para o ecossistema mais amplo de parceiros. O festival reforça o papel da creator economy, do fandom e das comunidades como forças estruturantes do marketing contemporâneo.
Para líderes, isso significa tratar fornecedores, startups, creators e distribuidores como extensões do time — gente que compartilha risco, contexto e aprendizado, e não apenas executa uma lista de tarefas. O poder da pessoa ao seu lado, aqui, é o poder das conexões que escolhemos nutrir. À medida que a IA se torna camada invisível em quase tudo — do atendimento automatizado à criação de conteúdo e ao suporte à decisão —, o SXSW insiste em trazer a discussão de volta para o humano.
Questões como confiança, autenticidade, saúde mental e ética tecnológica aparecem tanto nas grandes keynotes quanto nas conversas menores. Isso deveria nos provocar a revisitar nossas culturas organizacionais: estamos usando tecnologia para liberar pessoas para trabalhos mais criativos e relacionais, ou apenas para apertar ainda mais as engrenagens da eficiência? Entendemos o modelo de Tuckman proposto desde 1965 e , tão vivo e aplicável na atualidade , dado seu potencial de resolver conflitos humanos para levar uma equipe à alta performance?
Como otimista. futurista tecnológica e profissional de agilidade, vejo este SXSW com um sabor: primeira vez não apenas para mim, mas para todos. Há a certeza de que algumas linguagens antigas — de controle, previsibilidade absoluta, superplanejamento — estão se esgotando. Em seu lugar, emerge um vocabulário mais alinhado ao que o mundo pede “em letras garrafais” agora: adaptabilidade, curiosidade, coautoria e revisão contínua de resultados.
Isso não significa abandonar estratégia, e sim aceitar que a estratégia contemporânea se escreve em camadas, com revisões frequentes e participação ativa de quem está na ponta. Talvez o maior convite deste primeiro dia seja importar o espírito de “festival de descobertas” para dentro das nossas rotinas. Criar rituais em que times mistos exploram tendências, testam hipóteses com clientes, trocam aprendizados com parceiros e validam sucesso. Abrir espaço para mostrar rascunhos, não só versões finais. Incentivar que alguém questione um caminho aprovado se aparecer uma evidência nova. E, principalmente, praticar o gesto simples de olhar para a pessoa ao lado — no escritório, na fábrica, no varejo ou em uma call com um fornecedor — e perguntar: “o que você está vendo que eu ainda não enxerguei?”.
Se o SXSW 2026 decidiu colocar a questão humana no centro justamente quando a tecnologia parece acelerar como nunca, talvez essa seja a síntese mais potente para levarmos de Austin.
O futuro não será construído apenas por algoritmos mais sofisticados, mas pela qualidade das conversas que escolhemos ter, dos experimentos que ousamos rodar e das redes de confiança que cultivamos. Este tom é alinhado com tudo que tenho envisionado para a nossa fashiontech, que me motiva diariamente a inovar.
O festival começa com um lembrete simples e desafiador: faça um plano, esteja pronto para quebrá-lo e não subestime jamais o poder das pessoas que caminham ao seu lado.