Menos sobre tecnologia, mais sobre consequência
Festival que antecipou tendências agora discute impactos de IA, sistemas e novos modelos de negócio no mundo atual
Voltar ao SXSW depois de 2019 foi menos um retorno e mais um choque de realidade. Austin continua vibrante, mas o evento mudou e o mundo também. A própria reforma do Centro de Convenções já sinaliza isso: o festival está mais fragmentado, mais distribuído, exigindo não só curadoria, mas estratégia para ser absorvido. E talvez isso seja um reflexo direto do momento atual: menos linear, mais complexo e sem uma narrativa única dominante.
Se existe um fio condutor, ele passa pela inteligência artificial, mas não no sentido tradicional. O SXSW 2026 deixou claro que não estamos mais discutindo ferramentas e sim sistemas. Agentes autônomos, o fim da lógica da busca, a transformação da mídia e a crise da economia da atenção apontam para um cenário onde a tecnologia deixa de ser visível e passa a operar como infraestrutura. Curiosamente, em um momento tão crítico, senti falta de uma presença mais forte de lideranças globais de AI e até de representantes institucionais capazes de avançar o debate para além da reflexão.
Ao mesmo tempo, ficou evidente que os modelos de negócio estão sob pressão. A lógica que sustentou a internet por décadas está sendo reconfigurada em tempo real — e ainda sem respostas claras. A tecnologia, que antes era diferencial, se aproxima rapidamente de uma commodity. Nesse contexto, criatividade, repertório e capacidade de gerar conexão voltam para o centro da discussão, especialmente para marcas que disputam atenção em um ambiente cada vez mais saturado.
É nesse ponto que o SXSW continua sendo único. Mesmo diante de um cenário dominado por sistemas, dados e automação, a inovação segue nascendo do encontro entre diferentes perspectivas. Quando criativos, tecnólogos, empreendedores e cientistas dividem o mesmo espaço, surgem leituras que dificilmente apareceriam em ambientes homogêneos. O Brasil, inclusive, já mostra presença relevante — mas ainda aquém do seu potencial como protagonista em áreas como cultura, ciências médicas, conteúdo, influência, comunicação criativa e tecnologia aplicada ao agronegócio.
No fim, o SXSW 2026 não foi sobre o futuro da tecnologia, mas sobre as consequências dela. E a principal reflexão talvez seja simples: quanto mais avançamos em direção a sistemas autônomos, mais estratégico se torna o humano — não como oposição à tecnologia, mas como elemento essencial para dar sentido, direção e valor ao que estamos construindo.