Conexão Austin

Um laboratório do presente

Na primeira vez no SXSW, o foco é ler os sinais que já transformam música, marcas e cultura

Gustavo Luveira

Sócio do Bona Casa de Música 12 de março de 2026 - 14h42

Vou ao SXSW pela primeira vez. E talvez isso diga menos sobre estreia e mais sobre momento. Durante anos, o festival foi tratado como um radar do futuro, especialmente o tecnológico. Mas ao olhar para a programação de 2026, o que salta aos olhos não é apenas a promessa do que vem, e sim a reorganização do que já está em curso. E, para mim, isso passa necessariamente pela música.

O SXSW não é apenas uma conferência. É um ecossistema que reúne centenas de sessões, dezenas de trilhas temáticas e algo em torno de 300 a 400 artistas de diversos países ocupando Austin durante uma semana. Tecnologia, cinema, marcas e música coexistem no mesmo território físico. Conferências de dia, showcases à noite e muitas ativações espalhadas pela cidade.

Entre os temas que pretendo acompanhar, dois me parecem especialmente reveladores. O primeiro é musical: os debates sobre sustentabilidade de carreira e novos modelos de receita em um cenário dominado por streaming, experiências ao vivo, inteligência artificial aplicada à criação e a conexão das marcas nisso tudo. Não se trata mais apenas de descobrir talentos, mas de entender como artistas constroem relevância e longevidade em um ambiente de excesso.

O segundo é de marca: como experiências culturais deixam de ser ativação e passam a ser estratégia de pertencimento. Em trilhas como Brand Experience e Culture, a discussão já não gira apenas em torno de alcance ou awareness, mas da construção de comunidades reais em um mercado saturado de estímulos.
Esse cruzamento me interessa. Porque é nele que a indústria criativa se redefine.

O próprio formato do festival revela um ajuste de mentalidade. O sistema de reservas antecipadas para sessões exige escolha e intenção. Não é possível absorver tudo. É preciso decidir onde investir atenção. E talvez essa seja uma metáfora do próprio mercado atual: menos dispersão, mais foco.
Minha primeira vez em Austin não será uma busca por tendências. Será uma leitura de sinais.

Quero entender como a música continua sendo linguagem em um ambiente cada vez mais orientado por dados. Como marcas aprendem — ou ainda não aprendem — a usar cultura como narrativa, e não como ornamento. Como a indústria criativa tenta equilibrar inovação com relevância real.

O SXSW pode continuar sendo visto como um farol do que vem pela frente. Mas, nesta edição, me parece ainda mais interessante tratá-lo como um laboratório do presente.