O risco não é sumir, mas aparecer demais e não significar nada
Volume sem narrativa é ruído, o desafio é sustentar a identidade em meio à fragmentação da IA
As marcas que vão perder não são as que não conseguem gerar volume.
Mas provavelmente são as que deixam o volume destruir a narrativa.
Ainda estou processando a quantidade de coisa que vi no SXSW.
E, ao mesmo tempo, continuo recebendo e consumindo ainda mais conteúdo.
No meio desse excesso, algumas ideias começam a se encontrar.
Essa é uma delas.
Ela aparece quando coloco lado a lado duas coisas.
Uma pesquisa do Publicis Brasil com a BR Media sobre economia da atenção, apresentada em Austin durante o SXSW.
E um texto do Rex Woodbury (vale muito a leitura), que o Ricardo Piccoli me mandou.
O ponto em comum entre os dois é incômodo.
A atenção não é mais algo que se captura.
Ela virou o ambiente onde tudo acontece.
88% das pessoas usam segunda tela enquanto assistem TV
60% consomem áudio fazendo outras coisas
A gente troca de app 27 vezes por hora
Não existe mais “momento de atenção”.
Existe um fluxo contínuo de micro momentos.
E dentro desse fluxo, o que parece viral quase nunca é espontâneo.
É sistema.
Clipping — não o que a gente tradicionalmente chama de clipping em PR.
Mas um novo tipo de clipping, feito por creators: conteúdo sendo fatiado, reeditado e redistribuído em escala, em múltiplas versões.
Multiplicação de conteúdo.
Centenas, às vezes milhares de versões de uma mesma ideia.
Cada uma levemente ajustada para um contexto, uma audiência, um momento.
É assim que muitos creators estão crescendo hoje.
O caso do Clavicular, citado no texto do Rex, é um bom exemplo disso.
Volume deixou de ser diferencial.
Virou pré-requisito.
E a IA só acelerou isso.
A capacidade de gerar variações quase infinitas já existe.
Mas executar isso com consistência ainda é raro.
E é aqui que a coisa muda de nível.
Participar é entrar nesse sistema.
Mas operar dentro dele sem se perder é outra história.
Quanto mais conteúdo existe, mais difícil fica sustentar sentido.
E é aqui que surge um novo risco.
Não por falta de presença.
Mas por excesso de adaptação.
Adaptar tanto que se perde consistência.
Segmentar tanto que se perde identidade.
Produzir tanto que se deixa de construir memória.
A pesquisa do Publicis Brasil com a BR Media organiza isso em três camadas.
Identificação
Reverberação
Repertório
Mas nenhuma delas se sustenta sem uma coisa.
Narrativa.
Sem isso, participação vira ruído.
Distribuição vira dispersão.
Conteúdo vira commodity.
No fundo, o desafio não é a entrada.
É a permanência.
Uma narrativa forte.
Repetida de mil formas diferentes.
Reconhecível em qualquer formato.
Consistente em qualquer contexto.
Parece simples.
Mas, num sistema desenhado para fragmentar tudo, isso exige disciplina quase radical.
Talvez seja essa a parte que a gente ainda está aprendendo.
Participar.
E sustentar narrativa em escala.
Porque, no fim, o risco é duplo.
Não aparecer… e desaparecer.
Aparecer demais… e não significar nada.