Women to Watch

Prateadas no ar: apresentadoras falam sobre maturidade na TV

Angélica, Leilane Neubarth, Sandra Annenberg e Maria Cândida expõem os desafios de envelhecer em frente às câmeras

i 26 de fevereiro de 2026 - 12h32

De acordo com uma pesquisa independente sobre a representatividade de mulheres acima de 50 anos na programação da BBC no mundo, existe uma discrepância notável no número de apresentadores, homens e mulheres, com mais de 60 anos. Na análise do estudo, enquanto os homens mais velhos são vistos como pessoas com maior autoridade, as mulheres maduras precisam ou parecer mais jovens ou desenvolver “personalidades peculiares”.

Embora as mulheres superem globalmente os homens em número entre os apresentadores com menos de 50 anos, eles são maioria significativa na faixa 50+. São 237 mulheres contra 394 homens nesta faixa, conforme apurou o The Guardian.

Homens, mulheres e etarismo

A experiência de Maria Cândida mostra como esta discrepância é uma questão também presente no Brasil. “Por volta dos 43 anos, ao tentar voltar para a televisão, vivi o que hoje chamamos de etarismo. Ouvi que era boa demais, cara demais, ou simplesmente não recebia resposta. Um executivo chegou a dizer que talvez meu tempo na TV tivesse passado. Aquilo me desmontou e mostrou o limite invisível que existe para mulheres na televisão”, conta a jornalista, que hoje também é produtora de conteúdo digital e empresária.

Conforme destaca a pesquisa, existe uma diferença na percepção sobre a maturidade do homem e da mulher, principalmente quando ocupam posições de destaque, como na apresentação de programas televisivos. “Homens maduros são vistos como experientes, sólidos e confiáveis. Mulheres maduras ainda precisam justificar sua presença. Devem provar que estão atualizadas, ágeis, conectadas, enquanto a experiência masculina é automaticamente valorizada”, afirma Cândida.

Maria Cândida, jornalista, apresentadora, criadora de conteúdo multiplataforma e CEO da Indira Filmes (Crédito: Thom Foxx - @thomfoxx)

Maria Cândida, jornalista, apresentadora, criadora de conteúdo multiplataforma e CEO da Indira Filmes (Crédito: Thom Foxx/Divulgação)

Sandra Annenberg, agora com 57 anos e à frente do Globo Repórter, lembra que o jornalismo, hoje, é uma profissão predominantemente feminina. “Basta olhar para as redações: há muito mais mulheres do que homens, e eu acho isso ótimo.” Os dados confirmam esta perspectiva: de acordo com a pesquisa “Perfil do Jornalista Brasileiro”, as mulheres representam 58% dos jornalistas no país.

Apesar da maioria feminina, entretanto, Cândida considera que os grandes cargos de decisão das emissoras abertas ainda são ocupados, em sua maioria, por homens. “Isso impacta diretamente quem aparece e quem permanece na tela”, reforça. A empresária lembra que também existe uma questão econômica em jogo. “Um profissional jovem custa menos. Isso acelera o afastamento de pessoas experientes que ainda teriam muito a contribuir”, pontua.

Envelhecer ao vivo

A pressão estética, para Maria Cândida, é o principal fator que contribui para este contraste. “Sim, há mulheres maduras na televisão, mas muitas vezes são aquelas que se encaixam em um padrão de juventude prolongada. Não se fala abertamente sobre isso, mas nas conversas de bastidores existe a ideia de que a mulher pode envelhecer ‘desde que ainda esteja bonita’, ‘desde que ainda pareça jovem’. É um critério implícito que não se aplica da mesma forma aos homens”, avalia.

Por isso, para Sandra Annenberg, as questões de gênero são latentes em toda a trajetória das mulheres e trazem obstáculos. A apresentadora, jornalista e atriz lembra de uma situação há alguns anos, quando questionou a direção sobre o fato de ser sempre o homem que abria o Jornal Hoje com o “boa tarde”.

“Ninguém soube me responder. Não havia justificativa. Era a vida no automático: porque sempre foi assim e continuava sendo. Até que alguém levanta o dedo e pergunta por quê”, conta Sandra. Somente com seu questionamento que a situação foi corrigida e, a partir daquele momento, os apresentadores passaram a intercalar quem abria o jornal.

Apesar de não sentir os efeitos do etarismo como apresentadora, Sandra pontua como os sinais da idade são percebidos e até mesmo apontados por quem asssiste. “Uma vez, apresentando o Jornal Hoje, recebi uma mensagem de uma colega dizendo: ‘Nossa, vi os primeiros fios brancos aí’. Respondi: ‘Você viu? Que legal’. Nunca entendi se era um comentário do tipo ‘vai deixar assim mesmo?’ ou se era um elogio”, lembra.

“É curioso, porque a primeira reação é achar que a pessoa deixou de pintar, resolveu assumir os fios brancos. Não estou assumindo nada. Estou deixando a vida transcorrer e a minha idade aparecer. É uma escolha”, continua a jornalista. “Nunca fui vítima de etarismo na televisão. Mas também não fecho os olhos para o que vemos na sociedade, para o quanto as mulheres são cobradas pela sua imagem.”

Leilane Neubarth diverte-se com o fato de estar na televisão há 40 anos: “Brinco que estou envelhecendo em HD e 4K”, comenta a jornalista e apresentadora que esteve à frente do Jornal Edição das 18h, da GloboNews, por doze anos, e desde 2021 comanda o programa Conexão GloboNews. “Fui contratada com 20 anos, numa época em que a resolução da imagem era infinitamente inferior à que se tem hoje. Agora, tenho 67 anos, rugas no rosto, e a televisão está em HD”, ri.

O desafio para muitas mulheres é equilibrar a pressão estética com o cuidado pessoal. “Claro que procuro manter uma boa aparência. Seria mentira dizer que não me importo com a minha imagem”, continua Leilane, que ao contrário de Sandra, opta por pintar as madeixas ruivas. “Não deixaria o cabelo branco, mesmo que não trabalhasse em televisão. Mas a alimentação e os exercícios não têm nada a ver com a TV. Me cuido porque sempre me cuidei”, enfatiza.

A menopausa no backstage

Se por um lado os sinais da idade não incomodam Sandra, por outro, ela afirma que sofreu com os sintomas da perimenopausa, principalmente com a névoa mental e os fogachos. “Fazer jornal ao vivo é muito desafiador. Exige presença, foco, rapidez de raciocínio, atenção. Quando fiz 50 anos, entrei no climatério e fui para a Copa do Mundo, na Rússia, em 2018. Estava em pânico, porque não sabia o que estava acontecendo comigo. Falava-se muito pouco sobre isso na época”, lembra.

O suor noturno foi também um susto para a apresentadora, que nunca antes teve problemas com sudorese. Inclusive, os maquiadores adoravam que ela nunca suava. “Talvez esse tenha sido o maior desafio da minha profissão: me readequar a quem me tornei. Entender que há mudanças inevitáveis, inexoráveis, e que preciso aprender a conviver com isso. Para mim, esse tem sido o maior aprendizado: encontrar meu novo lugar”, diz Annenberg.

Cuidado e liderança

Existem ainda camadas adicionais de desafios que o gênero carrega, para além da questão estética e do climatério, principalmente frente ao envelhecimento. Angélica, apresentadora e atriz de 52 anos, que hoje comanda o programa “Angélica Ao Vivo”, no GNT, ressalta o peso das jornadas duplas e triplas das mulheres, que muitas vezes ficam responsáveis pelos cuidados de filhos e pais.

“Enquanto a mulher sentir que precisa dar conta de tudo sozinha, da carreira, da casa e dos filhos, vai existir esse freio interno na hora de assumir posições de liderança”, pontua a apresentadora.

Angélica, apresentadora (Crédito: Bella Pinheiro / Divulgação GNT)

Angélica, apresentadora (Crédito: Bella Pinheiro/Divulgação GNT)

Mesmo quando ocupam cargos de destaque, existe uma pressão para “abafar” a voz feminina. “Já senti isso em reuniões, em apresentações de projetos, até mesmo no ar. E já me peguei me calando, me diminuindo, optando pelo silêncio, muitas vezes sem perceber”, conta Angélica.

Representatividade e avanços

Com a inversão da pirâmide etária no país, o público maduro deixa de ser um nicho, um grupo minoritário, e passa a ser percebido como massivo, relevante, com poder de decisão e desejo de se ver representado. “O Brasil está envelhecendo numa velocidade enorme. A empresa que não notar a enorme importância dessa fatia da população vai ficar para trás”, destaca Leilane.

Nos dez anos que se passaram desde que Maria Cândida tentou retornar à TV, houve um avanço na representatividade de mulheres 50+. A própria jornalista reconhece. “Mas ainda é insuficiente e muito limitada. Hoje vemos mais mulheres maduras na televisão, principalmente falando de temas ligados à saúde, comportamento e longevidade. Isso já é um avanço importante, porque elas passaram a existir na narrativa pública”, pontua.

Para ela, a internet foi a grande responsável por dar protagonismo às profissionais prateadas. “As redes sociais deram visibilidade a mulheres maduras que construíram audiência fora dos canais tradicionais. Sou um exemplo disso. Ao produzir conteúdo digital, conquistei um público próprio, o que me reposicionou profissionalmente e mostrou que existe audiência, interesse e mercado para narrativas protagonizadas por mulheres maduras”, reitera.

“Já foi pior”, diz Leilane. “Quando estava na faixa dos 40 e poucos anos, no Bom Dia Brasil, comecei a perceber que havia uma quantidade enorme de homens mais velhos, de cabelo branco, no ar, e pouquíssimas mulheres mais velhas”, recorda.

“Hoje, com muita alegria, percebo que a Globo está dando mais valor à experiência. Essa jornada de ter vivido e aprendido tanto está sendo valorizada”, continua Neubarth. Ela e Sandra lembram dos nomes que dividem a grade de programação da emissora: Ana Paula Araújo, apresentadora do Bom Dia Brasil aos 53 anos; Mônica Waldvogel, com 70 anos, à frente do Em Ponto e do Liderança S/A, da GloboNews; e Miriam Leitão, que aos 72 anos segue como comentarista dos jornais da Globo. Além delas, há outras, como Renata Lo Prete, Renata Ceribelli e Ana Maria Braga.

Entretanto, para Maria Cândida, ainda existem alguns gargalos a serem preenchidos. “No entretenimento e nos horários de maior visibilidade, a evolução é mais lenta. A mulher madura ainda é exceção nesses espaços. A juventude e os homens continuam sendo muito valorizados como padrão de imagem.”

“Quando olhamos para o entretenimento, especialmente nos horários de maior visibilidade, como os fins de semana, a presença feminina madura é quase nula. Um exemplo é Eliana, que por muitos anos foi a única mulher à frente de um grande programa de entretenimento de fim de semana, competindo diretamente com homens. Ela não está mais com um programa fixo na TV aberta, mas será que pensariam nela para sábado ou para domingo à noite?”, desafia a empresária.

Mesmo assim, temas relacionados às mulheres maduras têm ganhado repercussão na mídia de massa. “A conversa sobre menopausa, longevidade, saúde mental e envelhecimento feminino, por exemplo, tem mais espaço. Assuntos que antes eram tabu passaram a ser tratados com mais abertura. Isso mostra uma transformação cultural que a TV começou a acompanhar”, destaca Cândida.

Uma mudança que impacta a imagem é a concepção do que é uma pessoa madura. “Acho fundamental mostrar que quem está velho não está morto. Velhice não é o fim. É apenas mais uma fase da vida, como a adolescência e a vida adulta. E pode ser uma fase muito bem vivida”, destaca Silvia Poppovic, jornalista e ex-apresentadora de TV, que já passou por diferentes emissoras e hoje, aos 71 anos, segue como influenciadora digital, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram.

Mudança de dentro para fora

Para mulheres como Sandra, Silvia e Angélica, uma parte de seus trabalhos é ser referência para outras mulheres e para as próximas gerações, sobretudo ao redefinir o que é possível e até onde se pode chegar. “Mostro que dá para se vestir de forma ousada, experimentar moda, usar cores, estampas, biquíni, viver a vida integralmente. E talvez por isso eu acabe inspirando outras mulheres, porque mostro que é possível viver bem em qualquer idade, inclusive aos 71 anos, minha idade hoje”, diz Poppovic.

Silvia Poppovic, jornalista e criadora de conteúdo digital (Crédito: Reprodução/Facebook)

Silvia Poppovic, jornalista e criadora de conteúdo digital (Crédito: Reprodução/Facebook)

“Existe o papel do artista, mas existe também o papel que posso exercer com a minha imagem e a minha fala, de cuidado e responsabilidade. Depois que a gente tem filhos, também vem esse desejo de ver o coletivo bem, porque queremos um mundo melhor para todo mundo, principalmente para as meninas e mulheres”, pontua Angélica.

Esse é um trabalho de “formiguinha”, como diz Annenberg: sustentar e celebrar a chegada da maturidade, para que ela seja vista como algo natural, orgânico e com muitos ganhos. “É bonito olhar para isso e pensar: que legal estar no ar do jeito que quero estar, sem fazer concessões. Estou lá com minhas rugas, com meus cabelos brancos, com a papada começando a aparecer. O colágeno vai indo embora, mas tenho outras coisas tão importantes quanto: a conquista de uma trajetória e a pessoa que eu me tornei”, destaca Sandra.

Para Angélica, é preciso formar e encorajar mais mulheres a ocuparem espaços de destaque, seja na televisão ou no mercado corporativo, sobretudo em posições de liderança. “Às vezes me pergunto se há interesse em ampliar esse debate, em tornar mais evidente o quanto, inclusive economicamente, é importante ter mulheres nesses lugares de decisão. Porque não é só uma questão simbólica ou social, é também uma questão estratégica.”

Ela se refere às pesquisas que já indicam os impactos positivos que a liderança feminina promove às empresas. Um estudo da McKinsey aponta que a diversidade de gênero está correlacionada tanto com a lucratividade, com aumento em 21%, quanto com a criação de valor, o equivalente a 27% no longo prazo.

Parte da responsabilidade é das emissoras, pois, como pontua Maria, a televisão cumpre um papel importante na formação de imaginários. “No Brasil, a TV aberta ainda é muito relevante, especialmente para o público mais velho, que ainda é uma audiência regular.”

“Quando uma emissora escolhe quem aparece, apresenta, reporta e ocupa posições de autoridade, ela está dizendo ao público quem tem valor, voz e quem representa credibilidade”, continua.

Não é por falta de talento ou desinteresse do público, destaca Maria. “Enquanto as linhas editoriais e escolhas de elenco continuarem majoritariamente nas mãos de homens, especialmente os mais velhos e com visões conservadoras, a imagem da mulher madura tende a permanecer limitada”, afirma.

Para as apresentadoras, é preciso incluir mulheres nessas posições, mas não para serem “tokens” de diversidade. “É colocar porque é competente, porque acredita no trabalho dela, porque quer que ela esteja ali de fato. A mulher é competente, tem sensibilidade, intuição e preparo”, reforça Angélica.

“As emissoras têm a responsabilidade de normalizar a presença da mulher madura na tela, em diferentes formatos, inclusive no entretenimento. Não como exceção ou símbolo, mas como parte natural da paisagem da comunicação. Isso não é apenas uma questão social, é também estratégica, porque a audiência envelheceu e quer se ver representada”, finaliza Maria.

Esta é a primeira parte de uma série de duas reportagens sobre a representatividade de mulheres maduras na televisão brasileira. Na segunda matéria, para além dos desafios demonstrados aqui, iremos focar nos ganhos que a maturidade trouxe a essas mulheres, em suas histórias de vida e trajetórias profissionais que marcaram gerações.