Reabertura de Inhotim: um recomeço para Brumadinho

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Reabertura de Inhotim: um recomeço para Brumadinho

Centro cultural e turístico retomará atividades neste fim de semana, após período fechado em consequência do desastre na mina da Vale, no Córrego do Feijão

Roseani Rocha
8 de fevereiro de 2019 - 11h59

Obra Celacanto provoca Maremoto, de Adriana Varejão (Crédito: Eduardo Eckenfels)

Fechado desde o dia do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), que colapsou em 25 de janeiro e até o momento deixou um saldo trágico de 150 mortos, o Instituto Inhotim será reaberto neste sábado, 9. Nessa data, o espaço, que é um dos principais pontos turísticos e culturais do País, terá entrada gratuita e horário de funcionamento das 9h30 às 17h30. No comunicado anunciando a reabertura, os responsáveis por Inhotim exaltam o fato de que retomar as atividades é parte de um recomeço para a própria cidade, dado o papel da arte, do meio ambiente e da educação para o desenvolvimento humano e social. Na entrevista a seguir, Antonio Grassi, diretor executivo do Inhotim, fala sobre o impacto do acontecimento sobre o Instituto e comenta que tem recebido manifestações de apoio de algumas empresas, e recebeu contato da própria Vale, mas sem discutir até o momento qualquer tipo de compensação ao espaço cultural. Aberto desde 2006, Inhotim já recebeu milhares de visitantes do Brasil e de outros países e é palco de eventos como o MECAInhotim e IronRunner, programados para acontecer, respectivamente, em maio e julho.

Magic Square, de Helio Oiticica (Crédito: Rossana Magri)

Meio & Mensagem – Como o Inhotim se envolveu com a comunidade local no enfrentamento dessa tragédia ambiental e humana?
Antonio Grassi – Logo no dia da tragédia, na sexta-feira, a prioridade do Instituto Inhotim foi entender a situação de seus funcionários moradores de Brumadinho e prestar todo o apoio inicial necessário. Nossa equipe de RH mapeou os colaboradores diretamente atingidos e prestou apoio psicológico e solidariedade. A tragédia provocou impactos diretos no Instituto, uma vez que, dos cerca de 600 funcionários do Museu, 80% moram na região. Desses, 41 têm familiares próximos desaparecidos ou com óbito confirmado. Os gestores realizaram visitas presenciais às famílias e estiveram em reuniões, solenidades e cultos realizados, de forma a expressar todo o apoio, cuidado e carinho que um momento como este exige. O Inhotim também fez contato com os órgãos competentes e se colocou à disposição para dar todo o suporte possível. Também procuramos a Defesa Civil para fornecer um laudo garantindo a segurança da área de visitação do Instituto. Além disso, a Instituição vem usando seus canais de comunicação para ampliar as informações oficiais que estão sendo disponibilizadas. As redes sociais do Inhotim divulgaram mensagens para voluntários e interessados em ajudar as vítimas. A situação da região está sendo avaliada diariamente pelo Comitê de Crise formado no Instituto para entender os impactos do desastre e traçar medidas em conjunto com os órgãos competentes em busca de minimizar danos e encontrar soluções e alternativas que ajudem a cidade e a comunidade a se reerguerem. Outra decisão importante foi a de suspender a visitação por duas semanas em respeito à comunidade. Na quarta-feira, 06/02, 12 dias após o rompimento da barragem, o Inhotim retomou suas atividades para poder reabrir neste sábado, 9/02, e ofereceu uma programação de acolhimento aos funcionários. Realizamos um café da manhã especial, uma conversa sobre resiliência, sessões de meditação, ioga e atividades ligadas à memória da comunidade. Tivemos um retorno muito positivo e sentimos da equipe a percepção de que é necessário retomar a vida para conseguirmos coletivamente recomeçar.

Sonic Pavillion (Crédito: William Gomes)

M&M – Qual foi o impacto para o próprio instituto e sua agenda para o ano? E como está sendo essa reorganização a partir da reabertura no sábado, 9 de fevereiro?
Grassi – A onda de lama não atingiu as dependências do Inhotim, não havendo vítimas nem prejuízo às obras, jardins e outras instalações do Museu. No entanto, por recomendação da Polícia Civil, o Museu foi esvaziado logo após o rompimento da barragem, na tarde do dia 25 de janeiro. A ação transcorreu de maneira positiva e visitantes e funcionários saíram em segurança do Parque. Em solidariedade às vítimas da tragédia, o Museu fechou as portas por duas semanas, não recebendo visitantes nesse período. No dia da reabertura, programada para este sábado, a Instituição vai oferecer entrada gratuita a todos e fazer um minuto de silêncio em homenagem às vítimas. É uma forma de simbolizar que o Museu está de portas abertas para a comunidade nesse momento de dor. O fechamento temporário não impacta nas atividades previstas para o ano.

M&M – Quantos visitantes o Instituto já recebeu até hoje e quantos deixou de receber nesse período em que esteve fechado?
Grassi – Desde que abriu as portas para o público, em 2006, o Inhotim já recebeu três milhões de visitantes de todo mundo – essa marca foi alcançada em agosto do ano passado. O Instituto recebe, aproximadamente, 350 mil visitantes por ano. Janeiro é o segundo melhor mês de visitação, depois de julho. A média de visitação do mês de janeiro dos últimos 5 anos é de 36 mil, isto é, cerca de 9 mil pessoas por semana. Usando esses números como uma base de comparação, o Inhotim pode ter deixado de receber em torno de 18 mil visitantes nas duas semanas em que a visitação foi suspensa.

Lago com vista para a obra Magic Square (Crédito: Rossana Magri)

M&M – O Instituto tem apoio/patrocínio de empresas para seu funcionamento no dia a dia? Que tipo de relacionamento busca ter com o mundo empresarial?
Grassi – O orçamento do Inhotim é composto por patrocínios, bilheteria, prestação de serviços, locação de espaços e doações. A política de patrocínios é fundamental para a manutenção e preservação do Inhotim. Por meio de parcerias com empresas, o Instituto consegue viabilizar projetos que ajudam no desenvolvimento humano, social e econômico da região – em sua maioria, têm foco em alunos de escolas públicas de Brumadinho. Desde o rompimento da barragem, o Instituto está recebendo muitas manifestações de apoio de entidades parceiras que querem contribuir com a reconstrução da cidade e veem no Inhotim uma possibilidade de ajudar no futuro da região. O Instituto está sempre em busca de fortalecer a relação com seus patrocinadores e em busca de novas parcerias. Um bom relacionamento com o setor empresarial é essencial para a perenização do Museu e para a viabilização de seus projetos e atividades.

M&M – Teve algum apoio especial para voltar a funcionar? A própria Vale tem sinalizado algum tipo de compensação para o Instituto?
Grassi – Como mencionado na resposta anterior, o Instituto está recebendo muitas manifestações de apoio de entidades parceiras, instituições e artistas que querem contribuir com a reconstrução da cidade e veem no Inhotim uma possibilidade de ajudar no futuro da região. Até o momento, o Museu não recebeu sinalização de compensação financeira, mas a diretoria da Vale está em contato. Depois da reabertura, o Museu vai buscar novas parcerias a partir dos projetos que estão sendo elaborados com foco na comunidade atingida.

M&M – Como o rompimento dessa barragem afetará a imagem de Brumadinho e do próprio Inhotim? Têm receio de que o fato de estarem na região que por um tempo longo terá a marca dessa catástrofe poderá afetar, por exemplo, a visitação (e até tornar mais difícil atrair para o espaço eventos como o Meca, que realizam, ou novos patrocinadores/apoiadores)?
Grassi – O Inhotim e a área urbana de Brumadinho estão, respectivamente, a 18 km e 15 km da área diretamente afetada. Apesar das dependências do Instituto não terem sido atingidas pela lama, entendemos que a imagem da região ficou associada à cena do desastre, que, sem dúvida, marcará este episódio terrível que ainda estamos vivendo. Acreditamos que a retomada das atividades da Instituição será uma das principais forças para ajudar Brumadinho a vencer essa primeira etapa de luto. Além disso, visitar o Inhotim e movimentar a economia ligada ao turismo, como hotéis, restaurantes, pousadas e serviços, terá papel fundamental na reconstrução do município.

Jardim Veredas (Crédito: Rossana Magri)

M&M – Quais as principais atrações previstas no Inhotim em 2019?
Grassi – Por enquanto, o Instituto tem confirmada a realização do festival MECAInhotim, em maio, e da corrida IronRunner, em julho. O Plano Anual de Atividades e Manutenção (PAA) do Instituto para 2019 inclui exposições, apresentações culturais, shows, cursos, festivais, além da manutenção do espaço museológico. A realização das atividades previstas no plano, no entanto, dependem da captação de recursos. Entre as atividades do PAA 2019 estão:

O projeto “Exposições Temporárias 2019”, que prevê a inauguração de uma nova mostra na Galeria Mata – uma das quatro galerias temporárias do Inhotim. A ideia é apresentar trabalhos de artistas como Aleksandra Mir, Rodrigo Matheus, Jorge Macchi, Navin Rawanchaikul e On Kawara. Outra proposta no campo artístico é reabrir uma das alas da Galeria Claudia Andujar com desenhos produzidos pelo artista Joseca Yanomami.

O Festival Ambiental 2019, com o intuito de debater questões ligadas a sustentabilidade, conservação da biodiversidade, criatividade e cultura.

Outros destaques do plano são as Ocupações Temporárias – com apresentações que emergem de residências artísticas e intercâmbios de pesquisa, incluindo espetáculos de dança, intervenções e mostras – e o Inhotim Noite Aberta, cuja proposta é estimular novos olhares sobre os acervos e espaços do Museu a partir de apresentações teatrais e musicais realizadas depois do horário de visitação comum do Instituto.

 

*Crédito da foto no topo: Rossana Magri

** A nota foi atualizada às 19h33.

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