Gestão em tempos de cólera

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Gestão em tempos de cólera

Num cenário de alta competitividade, pressão e excesso de trabalho, vivemos uma epidemia de cólera corporativa que adoece a alma e corrói os resultados


15 de outubro de 2018 - 18h40

Crédito: PeopleImages/iStock

O Brasil passa por uma crise generalizada que afeta não só a economia, mas a política e a credibilidade nas instituições. Vivemos uma crise de esperança que nos acerta implacavelmente. Nesse contexto, o meio ambiente das empresas também é atingido e se torna cada vez mais insalubre. Em um ecossistema em desequilíbrio, onde tudo se complica, atingir metas e ser feliz fica ainda mais difícil. Se você é líder de uma equipe, saiba que seu maior desafio hoje é fazer gestão em tempos de cólera.

A cólera nas corporações é sistêmica. Nosso tempo está em cólera, pois trabalhamos com tanta pressa que esquecemos o que é de valor para nós. As relações se tornam coléricas toda vez que o tamanho do ego enfraquece o elo entre as pessoas. Nosso propósito está em cólera quando somos tomados pela dúvida de por que fazemos o que fazemos. E a consequência disso tudo é muito prejudicial, resultando numa falta de afeto no ambiente de trabalho.

Nesse cenário de alta competitividade, pressão e excesso de trabalho, você acredita que um bom líder é compatível com um líder bom? É possível gerar resultados e um ambiente gratificante ao mesmo tempo? Eu acredito que sim porque em tempos de cólera é vital unir a prática da efetividade ao prazer da afetividade. E o caminho para isso é manter as relações mais genuínas possíveis, com proximidade, construindo credibilidade e confiança, sendo coerente, imparcial e transparente. Tendo a clareza que a sua maior missão como gestor é ajudar as pessoas a darem certo, você construirá afeto e efetividade.

Mas em tempos de cólera, o líder não deve ter a expectativa de ser amado pelo time e sim conquistar o seu respeito. Você ganha respeito quando o seu interesse pelo desenvolvimento das pessoas é genuíno. Quem acredita na capacidade do outro demonstra consideração, ou seja, age com afeto e respeito, mas dá feedbacks bem claros sobre as deficiências, os desafios e o caminho do desenvolvimento. Fazer sua equipe crescer é a melhor resposta para esse momento. E para isso, é preciso tirar as pessoas da zona de conforto libertando seus estoques de talentos. Mas é bom ter em mente que você terá de lidar com esse certo desconforto da sua equipe. Este é um desconforto que trará crescimento. E eles entenderão.

Em tempos de cólera, você precisa ser um maestro. O maestro é o único músico que não emite nenhum som. No entanto, é dele a responsabilidade de tirar o melhor acorde de cada um na orquestra. É preciso oferecer o seu melhor para tirar o melhor de todos. Mas saiba que chegará o dia em que você irá falhar em dar o seu melhor para o grupo. Gestão nesses tempos não é tarefa fácil e exige o dobro de esforço para manter a alegria, a perseverança e a clareza do caminho para atravessar as dificuldades. É provável também que lhe falte a força necessária e constante que uma liderança precisa ter. Talvez você até se sinta vulnerável em certo momento, o que assusta, pois a vulnerabilidade é praticamente proibida no ambiente corporativo. Mas creio que ao expormos a nossa vulnerabilidade, e ao compreender a dos outros, temos a chance de reforçar vínculos verdadeiros de humanidade e empatia. E pode estar certo que seu time irá abraçar sua vulnerabilidade e te ajudará a seguir forte novamente.

Por tudo isso, estou certo que há apenas um jeito de lutar contra essa cólera sistêmica do ambiente de trabalho: o vínculo coletivo. Acredito que a união de muitos tem o enorme poder de nos fazer mais fortes individualmente. A pergunta pela qual sou obcecado em meu trabalho é “o que podemos fazer de extraordinário juntos?” Um por todos. E todos por um. Simples assim. Porque nada pode vencer um grupo unido e com clareza de valores e propósito. Nada! Nem mesmo esses tempos de cólera em que vivemos.

 

*Crédito da imagem no topo: Rawpixel/iStock

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