Os impactos da felicidade fabricada para as redes sociais

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Os impactos da felicidade fabricada para as redes sociais

Estudo do Grupo Consumoteca aborda a “tirania da positividade”; o antropólogo Michel Alcoforado comenta as consequências para o mundo do consumo

Roseani Rocha
13 de fevereiro de 2020 - 6h00

 

Uma realidade nas redes e outra fora delas: 58% dos brasileiros ouvidos sentem-se insatisfeitos com sua vida atual (Crédito: Rohappy-iStock)

 O Grupo Consumoteca, liderado pelo antropólogo Michel Alcoforado, divulgou recentemente os resultados do estudo “Economia do mal-estar”, no qual avaliou a metrificação da felicidade na era das redes sociais – e como isso acaba gerando produtos que se oferecem como soluções rápidas para as angústias às vezes até agravadas por essa quase obrigatoriedade de estar ou parecer feliz. Foram entrevistadas três mil pessoas, numa etapa quantitativa, feita por meio de aplicativos online na América Latina, além de 15 grupos focais no Brasil.

Além do País, a Consumoteca, em parceria com Epiphania e Trop, ouviu cidadãos do México, Argentina e Colômbia. A ideia era analisar se existe felicidade além das redes ou se todos estão realmente presos ao padrão do mundo digital de provar com audiência, likes e comentários o quanto se é feliz.

Os brasileiros são os mais infelizes entre os países pesquisados: 58% sentem-se insatisfeitos com sua vida atual. Além disso, oito em cada dez pessoas dizem ter projetos que não conseguem tirar do papel, 41% acham que não fazem tudo que poderiam fazer por sua felicidade e 35% das pessoas se sentem mais negativas quando acompanham a vida dos outros nas redes sociais.

Para correr atrás desse “prejuízo” 65% consomem conteúdos sobre aprimoramento pessoal, 52% buscam alcançar a felicidade seguindo perfis motivacionais, 38% vão a eventos de desenvolvimento pessoal; 35% já realizaram algum processo de coaching e 34% leem livros de autoajuda.

Segundo Alcoforado, se antes, em sociedades capitalistas como as dos países avaliados no estudo, havia um caminho razoavelmente claro para a felicidade – trabalho, casamento e filhos – hoje, com tudo isso colocado em questão, já que vivemos a sociedade capitalista da informação, vale mais a jornada de busca da plenitude do que o chegar lá exatamente.  Só que a apreciação dessa jornada não é feita somente por quem a vive, precisa também ter o aval da audiência online. No mundo do trabalho, aliás, 57% acham que terão de reinventar sua carreira e 58% gostariam de melhorar sua produtividade.

Com tudo isso, analisa o antropólogo, a velha história de “plantar e colher” foi substituída pelo postar, numa espécie de tirania da positividade, que no fundo deixa a sensação de as pessoas terem sempre de estar correndo atrás nesse páreo.

Na entrevista a seguir, Michel Alcoforado comenta as implicações que os resultados do estudo podem ter para o mundo do consumo.

Michel Alcoforado: consumo vira parte dos mecanismos de felicidade (Crédito: Divulgação/ Rafael Neddermeyer)

Meio & Mensagem – Qual o perigo dessa “tirania da positividade”? E como vê os reflexos disso no mundo do consumo?

Michel Alcoforado – O principal problema dessa tirania da positividade é que obriga todo mundo a ser feliz, independente das circunstâncias do dia a dia. O reflexo no consumo é que isso exacerba ainda mais e dá mais gasolina ao movimento da sociedade de consumo, porque as pessoas passam a achar que elas têm a obrigação de serem felizes e, para isso, têm também a obrigação de comprar coisas.

M&M – Como você imagina que as empresas – principalmente as de bens de consumo, que falam sobre a necessidade de se comunicar com o consumidor nas redes sociais – deveriam olhar para os resultados desse estudo?

Alcoforado – Eu acho que da mesma forma que já geramos uma problematização sobre um padrão de gênero, corpo, etnia na comunicação e na maneira com a qual nos relacionamos com o nosso consumidor, precisamos gerar um padrão sobre saúde mental. Esse é um problema que precisamos olhar com muito carinho porque o fato de todo mundo ter que ser positivo o tempo todo em relação à vida amplia, ainda mais, as dores de quem está passando por dificuldades. E não há uma vida só de felicidade, a gente tem que lidar com o sofrimento.

M&M – Os resultados foram semelhantes nos diferentes mercados em que fizeram a pesquisa ou há algo no comportamento do brasileiro que tenha chamado sua atenção?

Alcoforado – Há algumas coisas que precisam ser destacadas quanto ao mercado brasileiro, sobretudo no que tange à percepção de insatisfação. O Brasil é o país mais insatisfeito do mundo. Do nosso ponto de vista isso acontece por conta do processo de digitalização da sociedade brasileira e também do peso que as redes sociais têm no nosso dia a dia. O fato de todos estarmos conectados com os outros por meio do Instagram, LinkedIn, Facebook, Twitter etc., aumenta a percepção da comparação da vida que deu certo versus a vida que não deu. Isso faz com que as pessoas se sintam menos felizes.

M&M – Volta e meia vemos gente aparentemente muito feliz revelar uma depressão. Tivemos o caso famoso do Whindersson. Acha que isso é mais propício a acontecer com influenciadores digitais?

Alcoforado – Volta e meia vemos gente com cara de feliz falando sobre depressão, sobretudo os influenciadores digitais, porque o que eles vendem é felicidade. E quando em todos os minutos da sua vida você é obrigado a vender felicidade, chama muito a atenção e nos choca quando alguém não está dentro desse processo. Isso tudo tem um peso, um custo psíquico e é disso que estamos falando.

M&M – Que cuidados as marcas deveriam ter ao trabalhar com esse perfil de profissionais nas redes, em sua opinião?

Alcoforado – As marcas precisam ter com esses profissionais os mesmos cuidados que têm com os consumidores. É preciso respeitar que, em alguns dias, o influenciador pode não estar muito feliz. O problema é que quando o influenciador se transforma em um produto, sobretudo no contexto de industrialização, há um pressuposto de padronização, que todo o dia precisa ser a mesma coisa em termos de mood, de vibe, porque viramos marcas, as marcas podem cobrar isso de influenciadores, porque isso tem custo para estas.

M&M –  Acredita que essa tendência da perda de empregos e profissões, que já começa a ocorrer por conta de coisas como a robótica e uso de IA, poderá agravar essa necessidade de autoafirmação das pessoas, por meio desse “branding de si mesmo”, como vocês definiram, no fundo escondendo as dificuldades crescentes e esvaziamento de alguns papéis sociais?

Alcoforado – O branding pessoal vai ser a moda pessoal daqui para a frente, a construção desse processo de invenção do “eu”. É importante a gente analisar que as identidades dos indivíduos não só são fluidas nesse novo contexto, mas elas precisam também ser sempre melhores para atender os desejos do mercado – seja ele de trabalho, de afetos ou de maneira geral. Isso faz com que tenhamos que inventar uma persona que não é quem somos na nossa integridade. Isso porque a banalidade, o dia a dia não interessa a ninguém. A grande dificuldade é que os indivíduos precisam “bancar” quem eles são nas redes sociais e isso tem um dilema muito grande envolvido.

 

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