Marketing

Por que a cor da Pantone para 2026 está sendo questionada?

Especialistas veem nas escolhas cromáticas respostas diferentes ao mesmo contexto cultural e social

i 5 de janeiro de 2026 - 6h00

Pantone escolhe Cloud Dancer como cor de 2026, enquanto Suvinil define Cipó da Amazônia e Tempestade (Crédito: Reprodução)

Pantone escolhe Cloud Dancer como cor de 2026, enquanto Suvinil define Cipó da Amazônia e Tempestade (Crédito: Reprodução)

A escolha do PANTONE 11-4201 Cloud Dancer como cor do ano de 2026 levanta questionamentos sobre o papel da Pantone na definição de tendências.

Descrito como um branco elevado, leve e etéreo, o tom simboliza, segundo a empresa, calma e introspecção em um contexto marcado pelo excesso de estímulos visuais e informacionais.

Tradicionalmente, a cor do ano da Pantone exerce influência sobre lançamentos em áreas como moda, decoração, tecnologia e design de produtos, funcionando como um indicativo de clima cultural para marcas e criadores.

Em 2026, no entanto, a decisão convive com leituras distintas, que têm destacado verdes, azul-esverdeados e azuis profundos como resposta.

Fragmentação das tendências

Para Bianca Dramali, professora de Comunicação e Publicidade da ESPM, a divergência entre as escolhas não aponta para um erro de leitura, mas para a pluralidade de respostas possíveis diante de um contexto instável.

“Há grupos que vão escolher pausar. E outros, que vão preferir se aprofundar, buscando descobrir o que melhor podem extrair desse cenário. A divergência entre as escolhas das cores do ano é a prova da complexidade e riqueza do comportamento humano”, afirma.

Segundo ela, a noção de uma única cor representativa perde força em um ambiente marcado pela fragmentação de identidades, repertórios culturais e nichos de consumo.

“Tendemos a ter mosaicos de cores do ano possíveis, que deem conta de diferentes movimentos e comportamentos humanos”, analisa.

Outras definições de cor do ano para 2026

Enquanto a Pantone aposta no branco, associado à pausa e ao silêncio, outras leituras caminham por espectros mais saturados ou naturais.

A WGSN, em parceria com a Coloro, escolheu o Transformative Teal, um tom azul-esverdeado que simboliza transição, equilíbrio, tecnologia com propósito e consciência ambiental.

A Suvinil apresentou o verde amarelado Cipó da Amazônia, ligado à natureza e à conexão coletiva, ao lado do Tempestade, um rosa acinzentado associado à introspecção.

A Coral estruturou sua paleta em torno de azuis e índigos, como o Azul Puro, Trilhas de Pedras e Profundeza do Oceano, voltados à criação de ambientes relaxantes e transformadores.

Já a Lukscolor elegeu o Ocala, tom terroso de base avermelhada inspirado na argila, que remete a aconchego, regeneração e equilíbrio.

WGSN com a Coloro definiram o Transformative Teal como cor de 2026, enquanto a Coral seguiu com o Azul Puro e a Lukscolor com o Ocala (Crédito: Reprodução)

WGSN e Coloro definiram o Transformative Teal como cor de 2026, enquanto a Coral seguiu com o Azul Puro e a Lukscolor com o Ocala (Crédito: Reprodução)

Cores como estratégia

Na avaliação de Taise Kodama, diretora de digital & design da agência Gad’, a Pantone mantém relevância simbólica, mas seu papel se transformou.

“Ela ainda tem autoridade histórica e midiática, mas hoje funciona mais como um dispositivo de leitura cultural do que como um selo normativo. Ela aponta um clima”, afirma.

Além do discurso simbólico, a cor exerce impacto direto no design de produtos. A profissional explica que decisões cromáticas influenciam materialidade, acabamento e experiência de uso.

“Cores mais suaves e naturais tendem a orientar produtos com menos brilho artificial, mais textura e maior sensação de durabilidade. No digital, estimulam interfaces menos ansiosas; no físico, favorecem uma percepção de longevidade”, diz. “O mesmo mundo que pede calma também pede responsabilidade. As cores traduzem essa tensão”, completa.

Impacto no mercado

Também para Amanda Oliveira, líder de design da FutureBrand, a Pantone segue funcionando como um termômetro cultural, mas deixou de ser regra.

“Cada setor, público e região responde a estímulos estéticos diferentes. A Pantone propõe, mas quem decide é o contexto em que a marca está inserida”, afirma.

A entrevistada ressalta que a cor atua como um recurso estratégico de comunicação. “Ela desperta desejo, cria aspiração e transmite sensações. Em alguns casos, ajuda o consumidor a compreender o produto antes mesmo de qualquer contato mais profundo”, explica.

Sobre a escala da tendência, as especialistas concordam que ela não se restringe a grandes marcas. Empresas menores podem se beneficiar da agilidade e da proximidade com seus territórios, desde que interpretem as referências com coerência.

Para as especialistas, moda e beleza aparecem como setores tradicionalmente mais rápidos na absorção de tendências cromáticas, mas arquitetura, bem-estar, alimentação e marcas B2B também se destacam, por associarem cor a valores como confiança, estabilidade e visão de longo prazo.

Segundo Bianca, mais do que seguir uma referência específica, o debate aponta para uma mudança estrutural na forma como tendências são construídas. “Para ser considerada autoridade, será preciso embasamento teórico e método”, afirma.

Nesse cenário, a cor deixa de ser apenas um elemento estético e passa a operar como linguagem estratégica, conectando design, posicionamento e experiência.