Lei do profissional multimídia: o que muda para as agências?
Entenda como o marco legal de 2026 pretende trazer segurança para marcas e redefinir status dos criadores digitais

Marco legal de 2026 redefine as fronteiras profissionais no ecossistema de influência digital no Brasil (Crédito: Shutterstock)
A sanção da Lei nº 15.325, em janeiro de 2026, marca um divisor de águas para o ecossistema de influência no Brasil ao oficializar a figura do profissional de multimídia. Para as agências que lideram o setor, a nova legislação não é apenas um trâmite burocrático, mas uma ferramenta estratégica para consolidar a confiança de grandes anunciantes e estruturar carreiras de longo prazo.
Um dos pontos centrais da discussão é se a exigência de registros formais poderia limitar a entrada de novos talentos. Para Fatima Pissarra, CEO da Mynd, o papel da agência é apoiar criadores de diferentes realidades para que entendam esse novo cenário e tenham acesso ao mercado de forma segura.
“A lei só se torna uma barreira se for interpretada de forma restritiva. Na sua essência, ela não cria um filtro de entrada e nem estabelece um padrão único de origem, formação ou trajetória. O que a legislação faz é reconhecer uma atividade que já existe e oferecer uma camada adicional de proteção para quem decide atuar de forma profissional”, afirma a executiva.
A percepção de valor do criador nas mesas de negociação também deve passar por transformações. Fatima defende que o reconhecimento jurídico não altera a essência do trabalho, mas profissionaliza a entrega. “O influenciador continua sendo artista, comunicador e criador de conteúdo, mas passa a ser visto também como um profissional com atribuições claras e responsabilidades definidas. Isso tende a elevar o nível das negociações com as marcas, trazendo mais transparência e previsibilidade”, explica a CEO da Mynd.
Da estratégia à linha de produção
Para agências focadas em planejamento, a lei oferece uma estrutura para organizar o fluxo de trabalho. Manuela Villela, CEO da Flint, enxerga o movimento como um amadurecimento natural da economia criativa.
“Convivemos com profissionais de diferentes áreas que querem e precisam entender a linguagem criativa das redes, mas também operar com método, responsabilidade e clareza neste processo. Estamos incorporando essa definição legal de forma orgânica à nossa metodologia, como mais uma camada de organização e maturidade”, destaca.
A formalização também é vista como um passaporte para a transição entre formatos, permitindo que o talento atue com a mesma seriedade em diferentes janelas. A CEO da Flint reforça que o primeiro passo é incorporar princípios como transparência e consistência à rotina. “A formalização ajuda a construir essa base, permitindo que o talento transite entre formatos e plataformas sem perder identidade, mantendo coerência estratégica e segurança na forma como seu trabalho é exercido e reconhecido”, complementa.
Segurança jurídica e longevidade
No campo do relacionamento com marcas, a normatização resolve uma dor histórica dos departamentos de compliance. Bruna Sinhorini, fundadora e CEO da Publination, observa que o diálogo com diretores de marketing irá se tornar mais fluido com a implementação de processos mais organizados. “Para muitos CMOs, o desafio nunca esteve no potencial da influência, mas na segurança dos processos. A regulamentação contribui para dar mais clareza e previsibilidade, o que facilita o diálogo com grandes empresas”, pontua.
Entretanto, Bruna pondera que mesmo com a legislação, ainda existem lacunas importantes a serem resolvidas no ambiente digital. “Falta tratar temas como desinformação, especialização técnica e limites em áreas reguladas”, avalia.
O impacto da lei estende-se ainda à visão de futuro do setor, incentivando carreiras que superem a lógica da entrega imediata. “O objetivo é sair da lógica imediatista e construir trajetórias sustentáveis, com planejamento e visão estratégica”, afirma a CEO da Publination.
Mesmo com a tensão latente entre categorias profissionais mais tradicionais, como jornalistas e radialistas, o mercado de influência entende que a nova lei organiza uma realidade que já operava na prática. Como conclui Fatima, da Mynd, a posição é de incentivar o consenso entre as classes: “A legislação não substitui e nem invade esse território, ela apenas reconhece outra atuação, com foco diferente e dinâmica própria. Muitos profissionais já transitam entre esses universos”.