Casamento real, engajamento virtual

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Casamento real, engajamento virtual

União de Príncipe Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle deve ultrapassar números de audiência do matrimônio entre William e Kate

Thaís Monteiro
18 de maio de 2018 - 14h07

Quando Diana Spencer, a princesa de Gales, faleceu em agosto de 1997, seu irmão, Conde Charles Spencer, discursou: “Cada editor de jornal tem sangue nas suas mãos hoje”, referindo-se à perseguição de mídia à figura e vida pessoal da princesa. No documentário The Story of Diana, uma colaboração entre ABC e a revista People, Jess Cagle, editor-chefe da People, disse que a princesa foi capa da publicação 57 vezes — “mais do que qualquer pessoa na história do título” — e foi quem definiu a concepção de celebridade que existe atualmente.

Desde então, a relação da realeza britânica com a mídia mudou. Os membros da família real passaram a se abster de entrevistas e polêmicas. A proporção que acontecimentos de suas vidas pessoais tomam, no entanto, não diminuiu. Prova disso foram as manchetes sobre a relação do Príncipe Harry com drogas, festas e uma alusão ao governo nazista, o sucesso da série The Crown e a mobilização nos veículos para cobrir um dos eventos de maior atenção midiática global: o casamento de Harry com a atriz norte-americana Meghan Markle, que atuava como Rachel Zane na série Suits, nesse sábado, 19.

A morte de Diana reacendeu debates, como o papel da imprensa, e deu à Coroa Britânica um novo fôlego. Mesmo sem querer explorar a dor, até porque os príncipes ainda eram muito jovens, o foco passou a ser nos dois órfãos de mãe mais vigiados do planeta”, avalia Marcelo Bartolomei, redator-chefe das revistas Caras e Contigo.

 

No Brasil, ao menos cinco canais de televisão criaram uma programação especial para transmitir o evento (Crédito: Reprodução/James Gourley/Rex/Shutterstock)

Se o casamento do Príncipe William com Kate Middleton, em 2011, teve a maior audiência da TV britânica, com 26,2 milhões de telespectadores, e um número próximo a 3 bilhões globalmente, o evento que acontece neste sábado, no parecer de Bruno Dias, editor de entretenimento da Capricho, pode ganhar maiores proporções por conta da força das redes sociais. “Quando o Príncipe William e a Kate Middleton se casaram todas as emissoras de TV do mundo fizeram transmissões ao vivo. O casamento do príncipe Harry com a Meghan Markle vai ter ainda mais destaque, principalmente pela força das redes sociais, que amplifica a cobertura e a divulgação do evento”, afirma. “O namoro de Diana e o acidente foram noticiados massivamente por jornais, revistas e TVs. Hoje, o predomínio em um caso como esse é dos meios digitais”, acrescenta Bartolomei.

No Brasil, ao menos cinco canais de televisão criaram uma programação especial para transmitir ao evento: Globo, GloboNews, GNT, BandNews e E!. A Globo inicia a transmissão com apresentação de Ana Paula Araújo às 7h com equipes de reportagem em Londres. Esta será patrocinada pela Avon que a cada intervalo exibirá spots da campanha de Renew Infinite. Na GloboNews, o casamento real ocupa a faixa das 6h às 12h. Na GNT, a cobertura acontece na TV, no YouTube e no GNT Play com colaboração do influenciador Hugo Gloss, ao vivo de Londres, e John Drops, Maicon Santini, Maíra Medeiros e Eduardo e Filipe, do canal Diva Depressão, no YouTube da GNT. BandNews, por sua vez, faz a transmissão das 6h às 12h com Caroline Nogueira. E! televisionará o evento a partir das 6h e faz reprise com os melhores momentos às 11h.

No último casamento real, o Instagram tinha apenas um ano de operação e o Snapchat não existia. Além disso, Markle é um perfil curioso para o público, pois rompe com os padrões de mulheres na realeza britânica: é atriz, norte-americana, filha de um casal birracial e divorciada. De acordo com levantamento feito pela Squid, plataforma de marketing de influência, a pedido do Meio & Mensagem, entre 9 e 16 de maio, na conta de 12 mil usuários globais do Instagram, o casamento real foi mencionado 16 mil vezes em fotos, vídeos e álbuns de fotos e gerou 2,6 milhões de curtidas e 73 mil comentários.

No Brasil, os termos casamento real, Meghan Markle e Príncipe Harry foram citados 22,9 mil vezes entre 15 de abril e 17 de maio no Twitter e no Instagram, segundo pesquisa realizada pela plataforma Scup Social também a pedido de Meio & Mensagem. O estudo mostra que a maioria (76,5 %) das menções aconteceram no Twitter e que os comentários tiveram teor neutro em 53% dos casos, positivo em 26% e negativo em 19% deles. Os termos atrelados aos comentários positivos foram acordar, fosse e lennapalooser (nome de usuária nas duas redes). Aos negativos foram associados: pai (o pai de Meghan não vai comparecer a cerimônia por conta de um recente ataque cardíaco), sábado e noiva. Já os termos mais citados foram: casamento, real e https.

Essa atenção toda, de acordo com Dias, acontece justamente por conta do sigilo da família real. “Existe também um fascínio por eles serem acessíveis ao público, mas ao mesmo tempo manterem tudo que acontece dentro dos palácios em sigilo, despertando a curiosidade de quem os acompanha”. Ele atribui esse mistério ao sucesso de The Crown, ganhadora do Globo de Ouro por Melhor Série Dramática de 2017, que aborda a trajetória da Rainha Elizabeth II dentro dos palácios, uma ficção baseada na realidade. Às pressas, o canal Lifetime produziu um filme sobre o relacionamento de Meghan e Harry (Harry e Meghan: Um Amor Real), exibido pela primeira vez na noite da quarta-feira, 16.

 

Cena do casamento de Rainha Elizabeth II na série The Crowd, da Netflix (Crédito: Reprodução/Netflix)

Apesar disso, o valor do casamento real para a mídia faz com que as polêmicas se sobressaiam. Na avaliação de Bruno, a cobertura da mídia sobre o casamento está sendo sensacionalista. Muitos fatos contribuem para essa afirmação: ataque cardíaco do pai de Meghan e a especulação de que ele pagou para ser fotografado por paparazzis, seu relacionamento conturbado com os irmãos e as alegações de que o ex-marido de Markle está produzindo uma série sobre a relação dos dois.

“O fato da Meghan Markle ser uma atriz chama mais atenção da mídia. Além disso, o Harry sempre foi meio que o ‘bad boy’ da família real”, diz Bruno Dias, editor de entretenimento da Capricho

“Acho que ela está um pouco mais sensacionalista se comparamos com o casamento do William com a Kate. O fato da Meghan Markle ser uma atriz chama mais atenção da mídia. Além disso, o Harry sempre foi meio que o ‘bad boy’ da família real, já se envolveu em alguns escândalos e tinha uma imagem de ser um ‘eterno solteirão’. E quando resolveu casar, se envolveu com uma atriz americana, quebrando totalmente os padrões da família real”, avalia o jornalista. “É muito diferente da Kate Middleton, por exemplo, e até mesmo da Diana. Elas não eram figuras da mídia”, complementa. “É a boa e velha história da plebeia que entrou para a Corte”, diz Bartolomei.

Questionados sobre o porquê esse evento, em específico, atrai tanto o público se comparado a qualquer outra ação da realeza, os jornalistas explicam que qualquer casamento, inclusive brasileiro, atrai notoriedade. “Ano passado, por exemplo, quando a Marina Ruy Barbosa se casou com o Xandinho Negrão, a mobilização aqui no Brasil foi enorme. Agora você pensa que estamos falando da família real britânica, que envolve protocolos e muito luxo. A atenção do mundo estará voltada para o casamento”, argumenta Dias. “É ali que as pessoas querem ver os detalhes, como é o vestido da noiva, das madrinhas, a decoração, a gastronomia, as tendências etc. A cerimonialista do evento já deixou claro que a boda terá as tradições misturadas à juventude e contemporaneidade do casal. O convite, por exemplo, é feito de papel inglês e tinta americana”, conta Bartolomei.

** Crédito da imagem no topo: Dan Kitwood/Getty Images

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