Qual é o superpoder dos heróis no cinema?

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Qual é o superpoder dos heróis no cinema?

Profissionais de produção analisam as razões que fazem com que os filmes desse universo fantástico dominem as bilheterias do Brasil e do mundo

Bárbara Sacchitiello
16 de janeiro de 2020 - 6h01

Vingadores – Ultimato foi o filme mais assistido nos cinemas do Brasil em 2019 (Crédito: Divulgação)

Nos últimos dois anos, o topo da lista dos filmes mais assistidos nos cinemas no Brasil teve os mesmos personagens. Enquanto Vingadores – Guerra Infinita, levou mais de 14,5 milhões de brasileiros às salas de cinema em 2018, no ano passado foi a vez de outro filme da franquia, Vingadores – Ultimato, ocupar o primeiro lugar do ranking, com uma bilheteria de 19,2 milhões de ingressos vendidos.

Não é apenas no topo da lista que a predileção do público pelos super-heróis pode ser atestada. Das dez produções campeãs de bilheterias no Brasil no ano passado, quatro fazem parte do universo desses personagens: Coringa, Capitã Marvel e Homem Aranha: Longe de Casa também figuram entre as produções que mais levaram os brasileiros ao cinema. Releituras e continuidades de filmes já conhecidos (como O Rei Leão, Malévola: A Dona do Mal, Toy Story 4, Alladin e WiFi Ralph) complementam a lista. A única produção nacional do ranking é a segunda parte do longa Nada a Perder, que conta a trajetória do empresário Edir Macedo. A primeira parte da cinebiografia também havia sido o filme nacional mais visto nos cinemas do Pais no ano anterior.

A grande presença dos heróis nos ranking de bilheterias não é um fenômeno exclusivo de Brasil e está longe de ter um inimigo à altura, na visão de profissionais de produção ouvidos pela reportagem. Nostalgia, recuperação de memórias afetivas e até mesmo o contexto atual da sociedade são algumas das razões apontadas por eles para a grande proliferação de produções com heróis nos últimos anos – e seu consequente sucesso perante o público.

(Crédito: Warner Bros. Entertainment)

“Em um mundo caótico conduzido por governos ineptos e corporações gananciosas, o indivíduo comum se vê, diariamente, numa posição de extrema fragilidade, gerando uma identificação óbvia e imediata com o universo dos super-heróis. São milhões de adultos que se sentem confortáveis e estimulados consumindo as narrativas que lhes eram familiares na infância. Esse é um retrato pragmático, talvez simplista, mas bem realista das massas que lotam as salas dos cinemas e propagam essa cultura de forma tão agressiva”, opina Felipe Briso, CCO e diretor de filmes da produtora Big Bonsai.

A conexão emocional com um passado que traz boas lembranças também é a explicação de Paulinho Corcione, sócio e produtor da Lucha Libre, para o poder de sedução dos super-heróis. “Vivemos um momento em que o imediatismo é muito frequente. Além disso, conteúdos que remetem à infância do grande público, que sejam de consumo fácil ou atraiam memórias afetivas, ganham espaço e relevância em uma era em que tudo que é complexo fica mais segmentado”, diz. Por essa razão, explica Corcione, os heróis já conhecidos e de histórias que geram conexões imediatas saem na frente dos grandes roteiros.

A nova jornada dos heróis
Personagens dotados de poderes especiais que enfrentam perigosos vilões para salvar a humanidade  é uma história já bem conhecida. Filmes do gênero existem desde a década de 1960 em um movimento que transcende o cinema, como lembra Raphael Pamplona, diretor da dupla Los Pibes, da produtora Awake. A Disney foi uma das responsáveis, segundo ele, por colocar o universo dos filmes de heróis no atual patamar de sucesso por ter sido a pioneira na criação e expansão de um universo cinematográfico crível, que exige que o espectador tenha que acompanhar diversos filmes, com vários personagens, para ficar por dentro da história.

Um fator do qual o cinema atual está aproveitando – e que explica os bons resultados dos filmes de super-heróis – é a possibilidade de cruzar os gêneros. “O Capitão América, por exemplo, não é apenas um filme de herói, mas também um filme de espionagem e conspiração. Os Guardiões da Galáxia flertam com um si-fi ao melhor estilo Star Wars, usando de uma estética apocalíptica. O Homem-Formiga é um filme sobre família. Ao cruzar o gênero dos heróis com outros, é permitido que a fórmula se repita, mas que beba de outros códigos”, analisa Pamplona.

Inserção de questões sociais, como o feminismo no universo de Mulher Maravilha, desse continuar e crescer na próxima onda dos filmes do gênero (Crédito: Reprodução)

Um dos títulos que figura no ranking dos mais vistos de 2019 deve ser o responsável por abrir novos caminhos para as jornadas dos heróis na telona. Coringa, que deslocou os holofotes do herói para explorar o psicológico do vilão (e, inclusive, está na disputa pelo Oscar de Melhor Filme neste ano), abre possibilidades para novas explorações do gênero segundo Daniel Soro, sócio-diretor da produtora piloto. “Ainda há muito a se explorar nesse filão, inclusive a oportunidade de refazer várias franquias colocando mais forte s questões sociais. O grande contraponto veio com o filme do Coringa, que abriu muitas possibilidades para esse gênero”, afirma.

Raphael Pamplona, da Awake, acredita que é o momento de o cinema destacar os anti-heróis. “Acredito que o formato atual já deu muito caldo e deve continuar em menor intensidade. Mas agora entraremos em um ciclo de vilões interessantes e mais humanizados”, aposta.

Saturação e desconstrução
De forma geral, os profissionais de produção ouvidos pela reportagem acreditam que o universo dos heróis ainda estará presente nos rankings das maiores bilheterias do Brasil e no mundo. Formas diferentes de retratá-los, no entanto, devem ganhar mais força nas telonas. “Acredito que o gênero se aproxima do momento de saturação. A desconstrução desse formato, na verdade, já é visível. Filmes como Pantera Negra, Mulher Maravilha e Coringa, três grandes sucessos recentes, apresentam uma tentativa clara de renovação, associando as narrativas clássicas de super-herói com temas relevantes da sociedade contemporânea, como racismo, feminismo e distribuição de renda, no intuito de dar fôlego aos já desgastados roteiros”, opina Felipe Briso, da Big Bonsai.

Já Corcione, da Lucha Libre, pondera que a questão financeira ainda confere às tradicionais produções de super-heróis fôlego para cativar plateias por mais um tempo. “Esse panorama até pode saturar em alguns anos, mas nos próximos vai se manter atraente e rentável para os produtores”, aposta.

O poder de atrair dinheiro, aliás, é visto pelos profissionais de produção como o grande dom atual dos heróis. “Levar o espectador ao cinema é um trabalho mais complexo. Para levar o público, principalmente os mais jovens, que cresceram cercados de uma oferta de filmes imensa, tem de se uma experiência mais intensa, tanto pessoalmente quanto coletivamente. Os filmes de heróis reúnem todas as características que atraem público hoje: imagens espetaculares, os atores mais famosos, uma intensidade enorme e o fato de criarem verdadeiras tribos de seguidores”, conclui Daniel Soro, da Piloto.

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