Como os podcasts seguirão evoluindo em 2026
Executivas do Spotify e YouTube fazem balanço do formato em 2025 e traçam panorama sobre publicidade e hábitos de consumo da audiência
*Atualizada às 08h26
No ano passado, Café Com Deus Pai, Inteligência Ltda e Jota Jota Podcast ocuparam o top 3 entre os conteúdos mais consumidos no Spotify. Na sequência, estiveram o Podpah e Não Inviabilize.

Café com Deus Pai foi o podcast mais ouvido no Spotify em 2025 (Crédito: Reprodução)
A diversidade de temas – entre fé, autoajuda, psicologia, jornalismo, conversas e negócios – mostra que o público continua consumindo podcasts de forma fragmentada, de acordo com interesses específicos, em vez de uma “moda única” ou uma tendência de temas.
É o que afirma Camila Justo, líder de podcasts de Spotify no Brasil. O ponto em comum, apesar da variedade de temáticas, é a construção de comunidades muito fortes em torno de conversas que acompanham o cotidiano das pessoas. O que se destaca, porém, é a periodicidade.
“A maioria desses programas aposta em episódios diários ou semanais, criando uma presença constante na rotina de sua audiência. Esse hábito reforça um comportamento já observado no país: um público intencional, que recorre aos podcasts para se informar, relaxar, aprender ou simplesmente se sentir acompanhado ao longo do dia”, diz.
Se em anos anteriores o mercado era dominado por grandes nomes do entretenimento geral, 2026 marca a explosão das verticais de nicho, corrobora Lucia Zaragoza, gerente de parcerias para podcasts no YouTube Brasil.
A plataforma também identificou padrões de consumo distintos entre as categorias, divididos entre mainstream e massa; espiritualidade e bem-estar; jornalismo e política; feminino e lifestyle; negócios e finanças; maternidade e família; e esportes.
Segundo ela, o sucesso é atribuído a combinação poderosa de conexão humana e multiformato.
Ascensão do vídeo
Os videocasts inauguraram uma nova experiência para o áudio: no ano passado, sete dos dez podcasts mais populares do Spotify passaram a contar com versão em vídeo. Também em 2025, a empresa firmou um acordo com a Netflix para disponibilizar alguns de seus principais videocasts no catálogo da gigante do streaming.
No Spotify, o Brasil é o maior mercado de podcasts em vídeo na América Latina e o segundo maior no mundo, tanto em consumo quanto em criação. No ano passado, a plataforma registrou um crescimento de mais de 10% em horas de podcast consumidas. Globalmente, mais de 270 milhões de usuários já consomem podcasts em vídeo no Spotify, e 70% deles assistem com o vídeo em primeiro plano.
Além de orientar a atuação no País por meio de estratégias localizadas, o fenômeno também guia uma agenda de educação e capacitação dos criadores, sobretudo voltadas ao uso de ferramentas como vídeo e monetização.
“Os podcasts em vídeos, em especial, representam uma expansão natural da experiência de escuta, adicionando camadas visuais que ampliam a conexão entre criadores e ouvintes por meio de expressões, linguagem corporal e interações ao vivo”, salienta Camila.
Muitos títulos estão presentes em mais de uma plataforma. Recentemente, dados do YouTube indicaram para a marca de 1 bilhão de espectadores ativos de podcasts por mês globalmente. De acordo com pesquisa da Google em parceria com a Kantar, 83% dos espectadores no Brasil sentem uma forte conexão com os criadores no YouTube, mais que em outras plataformas (70%).
“O cenário de 2026 revela um ecossistema maduro, onde a audiência não apenas ouve, mas consome visualmente os conteúdos em telas cada vez maiores”, salienta Lucia. O crescimento do consumo via TVs conectadas tem sido um dos principais motores desse aumento.
Destaque também para a ascensão dos videocasts ao vivo, que permite a interação em tempo real, fidelizando a audiência e criando momentos culturais de grande escala.
Oportunidades para anunciantes
O formato tem sido uma fonte de receita para a creator economy. Nas transmissões ao vivo, o YouTube conta com Super Chat e o recurso Valeu Demais em episódios gravados. Outras ofertas são o Clube de Canais para membros e o YouTube Shopping, que desembarcou recentemente no Brasil.
As informações sobre o consumo de podcasts e videocasts no Spotify indica para a criação de um ambiente ideal para ações de awareness com profundidade, alega Priscilla Barsotti, diretora de vendas da companhia no Brasil.
Segundo a executiva, as marcas buscam formatos cada vez mais personalizados e mensuráveis, e o áudio digital se destaca por oferecer segmentação baseada no comportamento de escuta, além de um ambiente seguro para anunciantes. Nos últimos anos, os formatos publicitários mais eficazes no Spotify têm sido aqueles que exploram o contexto de uso da plataforma, explica.
“Além disso, a combinação de áudio, vídeo e display tem se mostrado bastante eficiente. Essa integração permite experiências mais completas e multissensoriais, ajudando as marcas a reforçar mensagens e ampliar resultados”, afirma.
Relatório da Sounds Profitable indica que 27% dos ouvintes assíduos buscaram mais informações sobre o anunciante após escutar um anúncio em podcast, enquanto 22% fizeram uma compra imediata. O número é maior que mídias como serviços de streaming com anúncios e Instagram (ambos com 13%) e YouTube (12%).
Estratégia, criatividade e clareza são os princípios que determinam que um anúncio seja instigante no Spotify. A companhia vem investindo em formatos personalizados, como playlists patrocinadas, anúncios interativos e soluções como The Stage e Canvas, sempre respeitando o contexto do usuário para garantir uma experiência fluida e não intrusiva.
Tendências para 2026
O avanço dos videocasts segue como uma promessa de evolução para o formato, dadas as possibilidades de conexão com a audiência, fortalecimento de relacionamento com fãs e abertura de novos caminhos para narrativas e distribuição.
“Cada vez mais, a construção de comunidade será decisiva: em um cenário de atenção fragmentada, a comunidade permite que o criador cresça, encontre sua audiência e monetize de forma sustentável, e o podcast tem se mostrado um formato indispensável para quem busca essa construção contínua”, aposta a líder de podcasts de Spotify no Brasil.
Já Priscilla traça um desafio para o mercado anunciante. As marcas deverão se destacar em um ambiente de excesso de conteúdo e consumidores mais atentos e seletivos. A partir daí, a confiança torna-se um ativo central, especialmente em um contexto de uso massivo de inteligência artificial, que pode gerar comunicações cada vez mais semelhantes, afirma.
“A publicidade tende a ser cada vez mais hiper personalizada, antecipando necessidades e entregando mensagens relevantes no momento certo. No Brasil, onde a conexão emocional é fundamental, isso abre espaço para campanhas mais criativas, contextuais e com maior qualidade, fortalecendo vínculos genuínos entre marcas, criadores e audiências”, finaliza a diretora de vendas do Spotify.
Lucia, do YouTube, cita a evolução dos criadores de conteúdo em robustas empresas de mídia, somando a produção de programas de alto nível técnico à liberdade editorial que exercem dentro do YouTube.
A movimentação, desenha a executiva, é acompanhada de perto pelos grandes broadcasters e veículos tradicionais, como G1, UOL e Folha, que já integraram o videocast em suas estratégias centrais de distribuição e novos negócios. “Essa combinação entre os nativos digitais, como Flow e Podpah, e a curadoria de gigantes da comunicação está remodelando o cenário de mídia no Brasil”, defende.