Mídia

Quais são as principais tendências de mídia para 2026?

Conheça as análises de especialistas sobre 16 temas propostos por Meio & Mensagem

i 9 de janeiro de 2026 - 6h03

Tendências de mídia para 2026: dá para se ter dimensão sobre o que acontecerá?

Meio & Mensagem propôs 16 temas relacionados à mídia e pediu para especialistas fazerem análises desses assuntos que pautam marcas, anunciantes, veículos e agências.

A seguir, as observações de Claudia Mello, diretora de inteligência de dados da Spark, Eric Messa, professor e coordenador dos cursos de publicidade e relações Públicas da Faap; Eduardo Tessler, sócio-diretor da Mídia Mundo; Rafael Kiso, fundador e CMO da mLabs; e Bruno Almeida, CEO da US Media.

São opiniões diversas ou convergentes que dão o tom do que se pode esperar do comportamento dos players e de usuários em várias modalidades que abarcam o mercado de mídia, comunicação, dados, plataformas e big techs, de forma geral.

Tendências para 2026

Claudia Mello, diretora de inteligência de dados da Spark

Comportamento e avanço do meio digital

Dados recentes da Emarketer reforçam mais uma vez que o Brasil é um dos principais consumidores de redes sociais, superando em 53% a média de grandes potências mundiais e da América Latina.

Além disso, o investimento publicitário no meio digital chegou a um share de 41,5% entre janeiro e setembro de 2025, ultrapassando o da TV, que registrou 40,3%, de acordo com o Cenp-Meios.

Esse crescimento está relacionado à mudança de comportamento no consumo de informações e, consequentemente, de compra. O funil tradicional, que impactava a audiência por etapas ou ainda com foco prioritário em conversão, evoluiu para um fluxo de conexão, no qual as etapas se tornam mais fluidas, fortalecendo vínculos reais. A maneira como a mensagem chega ganha mais relevância e traz os influenciadores como protagonistas nesta nova era da mídia.

Influência turbinada pela mídia

Agora, o que já gera valor por meio de conteúdos orgânicos, trazendo inspiração, verdade e proximidade com as comunidades, ganha ainda mais potência e relevância com a mídia paga, possibilitando otimização de investimento, eficiência na performance e modelos mais ágeis de mensuração.

Dados de campanhas da Spark, em 2025, mostraram que segmentações feitas a partir da base de seguidores tiveram em média uma taxa de visualização (VTR) 3,5 vezes maior do que a de segmentações amplas. Mas também apontam que as segmentações por interesse trouxeram em alguns casos uma taxa de cliques (CTR) 2 vezes maior do que a de audiências mais nichadas. Em resumo, o ideal é combinar públicos nichados (fãs e look a like) com públicos de interesse (potenciais compradores) para obter o melhor dos dois mundos: visualização e clique. Por isso, a complementariedade nas estratégias de influência passa a fazer ainda mais sentido para os anunciantes.

Tríade social, mídia e influência fortalecida

Os últimos anos serviram para as marcas testarem esse modelo, comprovando a eficácia de unir social, mídia e influência para gerar resultados de negócios. Em 2026, veremos o fortalecimento desta tríade com o uso de inteligência artificial mais potencializada e mais profissionalizada. Conteúdos ainda humanizados, mas com mais velocidade criativa, com maiores possibilidades de mudança de rota a um menor impacto no investimento de produção. Plataformas já vêm investindo em ferramentas que auxiliam na otimização de criativos, como o TikTok Symphony e o Advantage+ da Meta, assim como agências e anunciantes já apostam em modelos proprietários.

Essa nova era, onde as marcas traduzem o que ecoa de uma escuta ativa, reforça a importância do social listening e da integração em tempo real das análises de dados. Ter voz por meio de outras vozes exige um olhar cuidadoso na curadoria de nomes que fortalecem a imagem das marcas, trazendo contratos de longo prazo, mas em equilíbrio com outros mais dinâmicos que favoreçam o olhar sobre a performance.

O potencial das comunidades próprias e do social commerce

Outro movimento que vem se consolidando em diversas categorias é o trabalho com as comunidades próprias. Sejam elas vindas de bases de clientes, de funcionários ou de amantes da marca que queiram fazer parte de um grupo com vantagens em troca de conteúdos autênticos, o que faz as marcas ganharem mais destaque nas menções das conversas, incrementando o awareness.

E não distante dessa construção de mão dupla, vem o crescimento do social commerce, que em 2025 fez muitas marcas migrarem seus investimentos de retail media para formatos de venda direta nas redes sociais, como TikTok Shop e Youtube Shopping. Segundo a Infomoney, em apenas três meses o TikTok Shop teve crescimento em vendas de mais de 4000%, mostrando a potência deste novo formato.

Novas buscas e aprendizado constante 

Além da compra direta nas redes sociais, o movimento de buscas por informações de produtos e marcas também teve mudança considerável nos últimos anos, o que faz com que quase 40% desse mecanismo já aconteça na navegação dentro das plataformas sociais, um número equivalente ao dos tradicionais buscadores, segundo pesquisa da Emarketer de 2025.

Resumindo, teremos um 2026 de evolução com tudo o que estamos aprendendo nos últimos anos com a aceleração do uso da IA generativa, com todos os resultados claros que o marketing de influência tem mostrado como uma grande potência para trabalhar o full funnel das campanhas e tudo isso sem esquecer do valor que o first party data tem na orquestração de aprendizados, boas práticas e eficiência.

Eric Messa, professor e coordenador dos cursos de publicidade e relações Públicas da Faap 

Inteligência artificial transforma conteúdo e publicidade

2026 será definitivamente um ano em que veremos a IA generativa alcançar um novo degrau. No campo do audiovisual, por exemplo, ela estará presente de uma maneira quase corriqueira; em produções como filmes, séries ou anúncios publicitários, teremos parte do conteúdo produzido por IA, assim como hoje vemos cenas feitas com computação gráfica.

Outra aplicação que deve se desenvolver bastante diz respeito à compra de mídia digital, processo no qual não apenas a criação de anúncios hiper personalizados, mas também a hiper segmentação, deve evoluir.

De forma geral, imagino que deveremos ver o desenvolvimento da IA como uma coprotagonista de todo o processo de produção e também da realização do conteúdo em si. Nesse contexto, prevejo que teremos muitos debates em relação à privacidade de dados e à transparência sobre como as marcas farão uso das informações de seus consumidores.

Consumo móvel e storytelling de formatos curtos

Não tenho dúvidas de que os microdramas devem ganhar tração em 2026 e, com isso, estarão mais presentes em campanhas publicitárias.

Esse formato se adequa muito bem à cultura digital dos nossos tempos, que tem se voltado intensamente para os vídeos curtos dentro das redes sociais. Essa tendência também serve como exemplo da importância que uma boa história sempre terá e do quanto a criatividade humana continuará relevante neste mundo da inteligência artificial generativa.

Interatividade e experiências imersivas

Experiências imersivas e a aplicação de recursos de interatividade em eventos ao vivo, como a transmissão de um jogo de futebol, devem atender à expectativa da cultura digital, que promove e estimula um consumidor ou espectador mais ativo e participativo. A possibilidade de escolher os ângulos ou voltar o lance para assistir novamente são ferramentas que, de fato, devem surgir como um grande diferencial e ter boa adoção.

Contudo, vale a ressalva de que, no mundo da hiper experiência, há também o reflexo que o seu excesso pode causar: aquele momento em que a pessoa busca no entretenimento um escape para o mundo da hiperatividade e, nesse sentido, o desejo ao assistir a um jogo de futebol é apenas relaxar no sofá.

Creator economy e mídia própria

No campo da creator economy, acredito que veremos em 2026 algum avanço e amadurecimento em relação às práticas da publicidade com influenciadores digitais. Uma grande barreira que essa área enfrenta é quando as empresas enxergam criadores de conteúdo apenas como espaços de mídia, o que reduz bastante o potencial que eles têm para potencializar a reputação de uma marca.

Em paralelo, acredito que haverá também muito ruído e desgaste com o envolvimento de influenciadores digitais em meio a campanhas eleitorais e, eventualmente, como impulsionadores de desinformação.

Publicidade mais inteligente e dados proprietários

Com relação ao uso de dados dos consumidores, acredito que, com a pressão das regulamentações de privacidade e com a própria conscientização crítica dos consumidores, as marcas deverão construir relações mais diretas e claras, baseadas em consentimento e em trocas mais transparentes. Além disso, a integração de IA no media buying, com decisões em tempo real, cria um ambiente em que a automação vira regra, e não diferencial.

Mídia social se consolida como motor de busca e comércio

2026 deve consolidar o social commerce como um importante canal de vendas, onde veremos o fortalecimento da plataforma de vendas do TikTok e de outras possíveis, como o Instagram. Esse ambiente me traz uma preocupação ética com relação à sobreposição do ambiente social com o ambiente de vendas e a incapacidade do usuário de distinguir ambos.

Vejo como fundamental manter características que definam claramente que determinado post se trata de um discurso de venda. Afinal, se tudo vira comércio, como garantimos que as pessoas tenham espaço para decidir com calma, sem serem empurradas por algoritmos que conhecem seus desejos antes mesmo de elas próprias os formularem?

É neste momento que entendo que precisa ficar evidente que marcas podem ser agentes de sentido, mas sempre lembrando que seu interesse fim é o lucro — e isso precisa estar claro na comunicação.

Identidades digitais e entretenimento sintético

Deve crescer o número de personagens artificiais produzidos por inteligência artificial que serão utilizados nas redes sociais como influenciadores digitais ou como personificações de marcas. Essa última aplicação faz sentido se pensarmos que as pessoas, historicamente, preferem interagir com algo que tenha forma e características humanas ou animais, do que com uma marca, que é uma entidade abstrata. Contudo, a saturação de personagens artificiais pode estimular nas pessoas o desejo pelo contato autêntico e real.

IA integrada ao dia a dia da mídia

Quando olho para essa integração da IA no cotidiano das redações, produtoras e agências, percebo um movimento que já estava anunciado há alguns anos, mas que agora ganha corpo e entra de vez na rotina profissional. Eu acredito que a IA deve se integrar ao dia a dia de uma maneira tão intrínseca ao processo de produção e criação como, por exemplo, na criação de roteiros ou na derivação de criativos para hiper segmentação. O cuidado aqui deve ser com a superficialidade e a padronização, pois, a longo prazo, toda nova tecnologia de comunicação tende a esse lugar.

Já no caso particular dos conteúdos gerados como, por exemplo, um conteúdo audiovisual, também acredito que veremos o seu uso cotidiano, assim como acontece hoje nos produtos audiovisuais com a inserção de efeitos especiais realizados com computação gráfica, em que é difícil para o olho humano dizer se se trata de computação gráfica ou de uma cena real com atores. Penso que o mesmo vai acontecer com a inteligência artificial.

Deste modo, acredito que veremos ao longo do ano, ainda, um forte debate relacionado à IA e questões sobre autoria, cocriação, regulamentação e transparência no uso de dados.

Vídeo curto

Os vídeos curtos ficaram muito marcados pelo período das “dancinhas” no TikTok, mas os últimos anos mostraram que esse formato evoluiu para muito além disso, principalmente porque se mostrou como um formato mais facilmente consumível pelos usuários. Deve crescer em 2026 o uso desse formato para a realização do que tem sido chamado de “microdramas”, pois surgem como uma solução para a procura das pessoas em usar as redes sociais como espaço de entretenimento. Nesse sentido, assim como os influenciadores digitais atuam de uma maneira muito relacionada a nichos temáticos ou regionais, imagino que o mesmo deve acontecer com os microdramas.

Redes sociais como principal porta de entrada da informação

A área do jornalismo se desenvolveu bastante com o uso das redes sociais como ambiente de repercussão de suas notícias verificadas e confiáveis. Em 2025, notei um olhar particular desta área para os vídeos curtos, experimentando como utilizar este formato para a entrega de fatos e notícias; acredito que, em 2026, veremos crescer esse comportamento do uso de vídeos curtos para o consumo de notícias.

Creator economy amadurecida

A creator economy deve seguir o processo de evolução, crescimento e profissionalização que vem acontecendo nos últimos anos. Acredito que veremos, dentro desse setor, dois caminhos paralelos acontecendo: um deles voltado ao uso e à adoção da IA como principal pilar de criação de conteúdo, envolvendo, inclusive, a criação de influenciadores digitais artificiais; e, em paralelo a isso, um outro caminho na busca de autenticidade, originalidade e criatividade humana, justamente para distinguir o que é humano daquilo que foi criado artificialmente.

Outro fator importante relacionado a esse tema é que, junto com a profissionalização deste setor, devemos também ver uma espécie de seleção, em que pequenos criadores de conteúdo amadores encontrarão cada vez mais dificuldade para crescer nesse mercado que agora se profissionaliza e contará, cada vez mais, com empresas já mais estruturadas atuando.

Eduardo Tessler, sócio-diretor da Mídia Mundo

Inteligência artificial transforma conteúdo e publicidade

Quando surge um padrão – estético ou informativo – vale mais quem for criativo e souber dar o passo seguinte. A GenAI já está produzindo conteúdo e publicidade. Veículos de comunicação ruins trocaram jornalistas por ferramentas de IA em 2025 – e devem afundar na mediocridade e na irrelevância em 2026. A chave do sucesso dos meios de comunicação deve ser: use IA em todos os processos mecânicos que possam ser automatizados e saiba utilizar novas informações que ela traz, como a hiper personalização. Mas aproveite sua equipe humana para produção de conteúdos que ganham valor quando são originais, diferentes, criativos. Ou seremos todos iguais.

Consumo móvel e storytelling de formatos curtos

Sim, formatos curtos e verticais vão se consolidar. O problema é confiar no que está sendo dito e mostrado. Ficou muito fácil mentir, disseminar o fake. E ainda apareceram ferramentas confiáveis que nos indiquem o que é real, o que é ficção.

Interatividade e experiências imersivas

Acho que esse é um ponto em que vamos evoluir muito, ainda, mas mais para o futuro. Não espero grande avanço em 2026. As amostras de imersão e interatividade, por enquanto, ainda são modestas.

Creator economy e mídia própria

Nenhuma dúvida que aparecerão novos criadores independentes que, via Substack ou algo parecido, vão consolidar um modelo de negócios próprio. É bastante provável que nomes importantes ligados a alguma marca abram mão da “segurança” em busca da autonomia. Fernando Rodrigues experimentou isso há bastante tempo – e deu certo. Guilherme Amado está indo pelo mesmo caminho. E tantos outros.

Publicidade mais inteligente e dados proprietários

Assunto ainda nebuloso. A maior parte dos veículos de comunicação no mundo ainda acredita em programática pura. E não investe em nada que possa atrair mais anunciantes. Vivem em 2026, com a cabeça em 2016. Acredito que vamos ver publicidade inteligente, segmentada, mas em poucos players. Quando aparecer algo diferente vai virar “case”.

Mídia social se consolida como motor de busca e comércio

O competidor das redes sociais é a ferramenta de GenAI. De repente não é mais preciso navegar por um feed para saber de algo. Basta perguntar ao “oráculo”. Claro que o conteúdo dos criadores ainda depende das redes, bem como o comércio que nasce por aí. Mas certamente as ferramentas de IA estão de olho nessa audiência “rede-cêntrica”. Algo pode surgir nessa conexão.

Modelos de conteúdo híbrido e multiplataforma

Isso já é realidade. Ninguém mais propõe algo monomídia. Informação + experiência + interatividade. Ou você não consegue se posicionar no mercado tão aberto e disputado.

IA integrada ao dia a dia da mídia

Nenhuma dúvida quanto ao crescimento – e popularização – da IA. Tenho muito receio de que a maioria evite diferenciar o que é conteúdo humano e o que é IA. A confusão beneficia os incompetentes. A IA ajuda nos processos, mas é perigosa quando entra na tarefa de gerar algo novo. O humano, infelizmente, acha que sabe criar o “prompt” desde que nasceu. E muitos erros decorrem disso.

Vídeo curto

Sim, vídeos curtos é tendência em um mundo que se dá por satisfeito com o superficial. Qualquer humano é capaz de fazer um vídeo curto. A IA ajuda a deixá-lo mais profissional. No mundo visual estamos caminhando para a overdose de informações curtas – e a escassez de bons vídeos mais longos, explicativos.

Redes sociais como principal porta de entrada da informação

Redes já dominam o processo de informação no Brasil, segundo estudo do Instituto Reuters. Pior, os “influenciadores” substituem as marcas de jornalismo. E, claro, quem melhor souber usar os algoritmos a seu favor ganha seguidores. A extrema-direita é muito competente nessa estratégia. Aos poucos, conseguiu fazer seus seguidores esquecerem as marcas tradicionais e seguirem personagens (deputados, um ou outro jornalista conservador). Isso é extremamente perigoso: inflam as bolhas e liquidam a necessidade das boas fontes jornalísticas.

Creator economy amadurecida

Sim, para todos os gostos. O que pode regular esse jogo é a queda da programática. Ou seja, será preciso necessariamente se consolidar como marca, criar uma legião de seguidores e ter força para negociar venda direta a anunciantes.

Publicidade baseada em dados próprios

Os grandes marketplaces disparam.

Social commerce e influência direta

Tremendo risco. Não há controle sobre a publicidade em redes sociais. Vende-se qualquer coisa – inclusive ideias. Entrega-se, talvez.

TV, streaming e mídia híbrida

TV aberta segue com percepção de audiência bem maior do que a realidade. Há um mercado que garante o sucesso das novelas, reality shows e eventos esportivos. Cai o interesse em anunciar nos grandes telejornais.

Resumindo, alguns pontos para 2026 (ano eleitoral):

  1. Queda assustadora na confiança sobre as outrora grandes marcas tradicionais de jornalismo
  2. Crescimento absurdo de gurus e influencers digitais conservadores, com orientação dirigida a segurança e costumes. Alguns vão virar deputados
  3. Jornais impressos reduzem ainda mais a circulação. Os poucos exemplares terão alto preço de capa e assinatura. Mas a qualidade deve crescer, capas que parecem pôsteres, reportagens profundas
  4. Cresce a fatia do bolo publicitário para o meio digital (hoje 41,5% já está nessa faixa, no Brasil). Pode passar de 50%. Mas cresce também o pedaço abocanhado pelas big techs desse montante. Hoje calcula-se que entre 75% e 85% de tudo que se investe em digital fique nas mãos de Google, Meta, Tik Tok e outros gigantes. Essa mordida deve aumentar
  5. Surgem pequenos veículos de nicho, que transmitem confiança e qualidade para quem precisa ser expert naquele ambiente. São os “ultra nichados”, que encontram um espaço para desenvolver a mega especialização
  6. Como sempre, algumas marcas tradicionais do jornalismo vão desaparecer

Rafael Kiso, fundador e CMO da mLabs

Olhando para 2026, vejo um cenário onde a maturidade digital não é mais sobre adotar tecnologias, mas sobre como humanizá-las para manter a relevância em um mar de conteúdos sintéticos.

IA: o motor da mídia paga vs. o filtro de autenticidade do orgânico

A IA generativa será, sem dúvida, a grande cocriadora audiovisual em 2026, transformando a eficiência da publicidade com segmentação hiper personalizada. No entanto, faço uma distinção clara: enquanto a IA dominará a mídia paga e a automação de anúncios, no lado orgânico, veremos um movimento de resistência. A autenticidade será o “selo de qualidade” exigida tanto pelos consumidores quanto pelos algoritmos. A IA será comum nas redações e agências, mas as marcas que sobreviverem ao “vale da estranheza” serão aquelas que usarem a tecnologia para potencializar o humano, e não para substituí-lo. O excesso de conteúdo pasteurizado por IA, já está gerando fadiga e queda no tempo de uso, portanto em 2026, o real será destacado.

A evolução do storytelling: entre o vertical e o horizontal

O entretenimento está sendo moldado pelo formato vertical, e os microdramas profissionalizados são a prova dessa adaptação ao consumo móvel. Mas atenção: o formato horizontal não morreu. O YouTube continua dominando o número de usuários de mídias sociais com um bom tempo de tela devido ao consumo via Smart TVs, tanto que o Instagram já testa seu app para televisões. Para conteúdos longos e de profundidade, como podcasts e grandes produções, o horizontal ainda impera. A chave em 2026 será o Social SEO: entender que a descoberta de conteúdo agora acontece dentro das redes sociais, transformando cada post em uma porta de entrada de busca.

Realidade imersiva: o foco está no POV, não no VR

Diferentemene do que muitos projetam, não vejo o VR (realidade virtual) tradicional como a grande tendência de consumo de massa. O que os dados apontam é o sucesso de dispositivos como os óculos Meta Ray-Ban, que estimulam a proliferação de conteúdos no estilo POV (Point of View). A imersão em 2026 será muito mais sobre “viver a perspectiva de alguém” de forma fluida do que se isolar em um headset.

Creator economy e o surgimento do thought leadership

A creator economy amadureceu. Mais do que influenciadores de entretenimento, veremos a ascensão do thought leadership. Refiro-me ao “influenciador do próprio negócio”: C-Levels e fundadores assumindo o protagonismo da comunicação para reduzir o CAC (Custo de Aquisição de Cliente) e fortalecer o posicionamento da marca. Em 2026, a presença digital de uma empresa será definida menos pelo que ela diz de si mesma e mais pelo que os criadores e a comunidade (UGC) dizem sobre ela.

Dados proprietários e o marketing conversacional

Com o fim (que nunca chega ao fim!) dos cookies de terceiros, os dados primários (first-party data) são o novo petróleo. Mas a IA só entregará seu valor máximo se estiver integrada a boas CDPs (Customer Data Platforms). A grande estrela aqui será o Marketing Conversacional, especialmente via WhatsApp. Com ferramentas como o WhatsApp Flows, o relacionamento entre marca e cliente será pautado por conversas personalizadas e transacionais. É a era do social selling: vendedores treinados para usar a rede social como ferramenta de relacionamento, e não apenas de broadcast.

Social commerce: TikTok vs. Instagram

Em 2026, o TikTok Shop será o grande protagonista, consolidando a “mídia comprável” (visto no HypeCycle da Gartner) com casos de sucesso robustos no Brasil. Enquanto isso, vejo o Instagram seguindo um caminho diferente, focando mais em anúncios inteligentes impulsionados por IA para direcionar o tráfego ao e-commerce do que na finalização da compra dentro da própria plataforma.

O conceito on-life e a experiência física

O que chamo de on-life — a integração total entre o online e o off-line — será vital. Com o crescimento das compras online, a loja física deixa de ser apenas um ponto de venda para se tornar um ponto de experiência e geração de prova social (UGC). O varejo físico em 2026 servirá para alimentar o digital e vice-versa.

O retorno do real-time marketing

Com o movimento do streaming (como a Netflix) investindo cada vez mais em transmissões ao vivo e estreias mundiais simultâneas, o real-time marketing ganhará uma força que não víamos desde o auge do Twitter. Eventos ao vivo continuarão sendo os maiores motores de audiência e de conversação social, exigindo das marcas agilidade para participar da cultura em tempo real.

Bruno Almeida, CEO da US Media  

Inteligência artificial transforma conteúdo e publicidade

Embora o YouTube não divulgue um número oficial sobre a proporção de vídeos criados por IA na plataforma, estudos e levantamentos recentes indicam que uma fatia relevante do conteúdo distribuído aos usuários — estimada entre 20% e 30% — já envolve algum grau de geração automatizada por ferramentas de inteligência artificial.

Nesse cenário de abundância de conteúdo produzido por IA, o valor da origem confiável tende a se tornar ainda mais estratégico. Marcas e plataformas capazes de assegurar curadoria, qualidade editorial e padrões rigorosos de brand safety ganham vantagem competitiva tanto junto aos anunciantes quanto às audiências.

À medida que a IA se torna onipresente na criação de conteúdo, confiança deixa de ser um atributo intangível e passa a se consolidar como um ativo premium no ecossistema digital.

Publicidade mais inteligente e dados proprietários e publicidade baseada em dados próprios

Agências e anunciantes vêm acelerando os investimentos em Customer Data Platforms (CDPs), reposicionando o first-party data como eixo central da segmentação, da otimização e da mensuração de mídia – movimento intensificado pelas restrições crescentes ao uso de dados de terceiros. Em outras palavras, veículos e plataformas que oferecem first-party data qualificada, ou que tenham integração fluida com CDPs, devem ganhar vantagem competitiva nesse novo cenário.

Modelos de conteúdo híbrido e multiplataforma

Os modelos de conteúdo híbrido e multiplataforma ganham força à medida que marcas passam a integrar experiências online e offline de forma mais estratégica. O retail  media é peça-chave nesse movimento ao conectar dados de consumo, mídia digital e presença física no ponto de venda, permitindo ativações contínuas ao longo da jornada do consumidor — do engajamento à conversão — com mensuração real de impacto.

Eventos globais como a Copa do Mundo FIFA 2026 aceleram esse formato híbrido, combinando consumo massivo de conteúdo, experiências presenciais, mídia exterior, DOOH e até ativações imersivas e oportunidades comerciais. Nesse contexto, plataformas como por exemplo OneFootball, no caso falando de futebol, se tornam centrais ao unir audiência altamente engajada, cobertura em tempo real e possibilidades de ativação que conectam conteúdo, experiência e contexto.

Retail media

No Brasil, o retail media se desenvolve em um ecossistema muito mais fragmentado e distribuído do que em mercados como os Estados Unidos. Sem um player dominante no e-commerce, o país reúne varejistas regionais, nacionais e internacionais com forte relevância local, o que amplia o valor estratégico dos dados de primeira parte e da presença física. Nesse cenário, o retail media deixa de ser apenas um canal digital e passa a ocupar um papel central na conexão entre marcas, contexto e decisão de compra.

A Cencosud, uma das maiores varejistas das Américas, é um ótimo exemplo dentro dessa lógica. Como braço de mídia ela integra dados de consumo, e-commerce e mídia no ponto de venda, permitindo que marcas atuem de forma omnichannel ao longo de toda a jornada do shopper. Ao unir alcance físico, inteligência de dados e mensuração, representa bem a evolução do retail media no Brasil: menos concentração, mais contexto e impacto direto no momento da compra.

TV, streaming e mídia híbrida

Não há dúvida de que o streaming continua em forte crescimento, enquanto a TV aberta mantém relevância sobretudo pelos eventos ao vivo, que seguem sendo grandes geradores de alcance e impacto. Ao mesmo tempo, ganham tração os canais Fast, com ofertas de conteúdo mais verticalizadas e temáticas — como os canais de música da Vevo ou iniciativas de publicidade contextualizada em ambientes como a Netflix — capazes de reunir audiências mais engajadas e bem segmentadas.

Para os anunciantes, esse novo arranjo amplia as possibilidades de planejamento ao permitir a combinação entre escala, eficiência e relevância, reduzindo o desperdício de mídia e aumentando a precisão na entrega das mensagens.