Mas quando acabará nosso piloto automático?
Ter participado do festival só vale a pena se, a partir daqui, mudarmos alguma coisa de verdade
Foi uma semana de trocas e lições com os maiores nomes de tecnologia e inovação do mundo. O SXSW acabou, mas o mais importante vem agora: quais são os aprendizados verdadeiros que devemos colocar em prática na vida real? Aqui vão quatro insights que comecei a rascunhar durante o voo de volta, de Austin para São Paulo:
1. Liderança adaptativa começa com perguntas, não respostas
Muitas empresas tratam desafios adaptativos como se fossem problemas técnicos. Mas há uma diferença crucial entre os dois. Enquanto as soluções para problemas técnicos já são conhecidas, resolver um desafio adaptativo exige mudança de comportamento, valores ou crenças. Não tem especialista que resolva sozinho.
Por exemplo, se uma empresa não consegue encontrar no mercado os profissionais que precisa, a solução técnica óbvia é pagar mais, melhorar pacote de benefícios e investir em employer branding. Mas se o problema é que as habilidades que o mercado exige simplesmente não existem em volume suficiente, o desafio adaptativo está em outro lugar: é preciso desenvolver as pessoas que você já tem.
É por isso que a liderança adaptativa é tão importante. Hoje, ser líder não é mais saber todas as soluções, ser o especialista que resolve tudo, mas procurar entender o problema e criar as condições para que surjam as respostas certas. Esse líder precisa de duas habilidades essenciais: fazer perguntas melhores e criar um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para dizer o que realmente pensam.
A liderança mais eficaz hoje é aquela que aceita não ter todas as respostas, mas dá as ferramentas necessárias para que o time chegue lá junto. E aqui o RH tem um papel fundamental: não é só o líder que precisa mudar, é o sistema que o cerca. O RH que entende isso para de treinar líderes em sala de aula e começa a criar condições para que a liderança adaptativa aconteça na prática, dentro da cultura real da empresa.
2. Organizações são sistemas vivos, e a biologia importa
Um dos conceitos mais marcantes na viagem veio de uma aula na Universidade do Texas , pouco antes do SXSW, com a pesquisadora Katie Pritchett: o de ‘Neuro Sistemas Organizacionais’. A ideia é que as empresas não são máquinas, são sistemas vivos. Afinal, são feitas de pessoas.
O cérebro humano é altamente sensível à incoerência. Não é uma questão racional, mas instintiva, que faz as pessoas reagirem à desconexão entre discurso e prática: se a liderança fala em autonomia, mas microgerencia a equipe o tempo todo; ou se prega inovação, mas pune o fracasso, por exemplo. Quando o cérebro percebe que o ambiente não é seguro, deixa de arriscar e se preocupa mais em não errar do que em acertar. Nesse “modo de sobrevivência”, a inovação fica em último plano.
Além disso, há uma crítica importante ao excesso de celebração da resiliência, a chamada resiliência tóxica. Claro que ser resiliente é uma habilidade importante, mas não podemos confundi-la com aguentar pressão em excesso, porque isso, na prática, esgota as pessoas. Alta performance não vem de pressão constante, mas de sistemas que permitem recuperação, clareza e coerência.
3. IA aumenta a importância do que é humano
O SXSW trouxe uma virada interessante: a discussão não é mais sobre o que a IA faz, mas sobre o que ela não substitui. O valor não está mais em “fazer”, mas em “ser”. Habilidades essencialmente humanas nunca foram tão importantes: julgamento, contexto, ética, sensibilidade, intencionalidade… Falei bastante sobre isso aqui neste espaço.
O futurista Ian Beacraft, um dos destaques do palco principal do SXSW, fez uma provocação bem direta: direcione recursos para atividades de coordenação, não de execução. Execução será papel de agentes de IA. O que sobra para os humanos, que nenhuma IA substitui, é o julgamento, a coordenação, o contexto, a ética, a intencionalidade. A vantagem competitiva, então, não está em investir mais em tecnologia, mas nas pessoas que vão coordenar o que a tecnologia executa.
4. Menos overplanning, mais presença e prototipação
Vivemos num excesso de futuro. Quanto mais incerto o ambiente, mais as organizações tentam domá-lo com slides e reuniões. Mas essa estratégia tem um custo alto: ansiedade, paralisia e baixa capacidade de ação. No limite, produz uma ilusão de produtividade: estamos sempre nos preparando para agir, mas raramente agindo de verdade.
A provocação que ficou do SXSW é direta: prototipar rapidamente é mais eficiente e barato do que tentar prever tudo antes de agir. Em vez de saber para depois agir, você age para saber. O protótipo não é uma versão inferior do produto final, mas uma pergunta feita em forma de ação. E o custo do erro cai drasticamente quando você erra cedo, já que a correção é muito mais rápida e fácil. Isso exige uma mudança cultural real: parar de punir o erro e começar a punir a inércia.
E nesse contexto, o papel do RH também precisa evoluir. Não basta mais cuidar das pessoas dentro de sistemas que não funcionam. É preciso arquitetar os sistemas em que elas operam. O RH que emerge desse cenário não gerencia talentos, mas desenha as condições para que o talento apareça. Num mundo em que humanos e IA vão trabalhar juntos de formas que ainda estamos descobrindo, alguém precisa pensar em como esse sistema funciona.