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Saúde social no trabalho não é opcional, é estratégica.

Colaboradores conectados são 7x mais engajados, não por acaso, mas por construção intencional

Renato Curi

Sócio e CPO da Crescimentum 19 de março de 2026 - 17h27

Nas discussões recentes do SXSW, um ponto que apareceu de forma recorrente foi o fato que muitas organizações estão concentradas em discutir políticas de uso da inteligência artificial. No entanto, existe uma conversa igualmente importante que ainda acontece pouco, o quanto a diminuição do senso de pertencimento está atrelada ao aumento do uso de novas tecnologias em ritmo cada vez mais acelerado, criando um paradoxo silencioso dentro das organizações.

A inteligência artificial já está conquistando seu espaço nas rotinas de trabalho, seja nos processos de decisão ou na forma como lidamos com a informação, porém, a grande questão não é simplesmente o quanto essa tecnologia pode acelerar tarefas, mas o quanto o trabalho está cada vez mais individualizado.

Saúde Social: o pilar que o trabalho esqueceu.

A palestra de Kasley Killam trouxe dados contundentes: solidão reduz engajamento, acelera burnout e corrói cultura, e não de forma sutil, mas com impacto direto na forma como as pessoas trabalham, colaboram e permanecem nas empresas.

Colaboradores(as) conectados(as) são 7x mais engajados, não por acaso, mas por construção intencional. Ambientes que favorecem vínculo, troca e relações de confiança colhem resultados mais consistentes e sustentáveis. Saúde social no trabalho não é opcional, é estratégica.

Isso não se trata de realizar eventos ou oferecer benefícios diferenciados, essa estratégia vai muito além das iniciativas pontuais. É sobre consolidar rituais de equipe, reconhecimento genuíno, espaços de conversa informal que constroem confiança no dia a dia, aquilo que, de fato, sustenta relações.

Um dos pontos mais alarmantes levantados na palestra é o crescimento de relações emocionais, e até amorosas, com inteligências artificiais. Não estamos falando de algo distante ou futurista, isso já está acontecendo.

Há casos concretos que ilustram até onde isso pode chegar. No Japão, por exemplo, uma mulher chegou a ‘se casar’ com uma inteligência artificial que ela mesma criou. Ela desenvolveu o personagem, construiu uma narrativa afetiva, recebeu uma declaração de amor do sistema e passou a tratá-lo como parceiro. Do ponto de vista legal, esse casamento não existe, já do ponto de vista emocional, é absolutamente real para ela.

Esse tipo de situação pode parecer extrema, mas está longe de ser um caso isolado.

Hoje, plataformas permitem que qualquer pessoa crie ‘amigos’ situados em IA. Você define a personalidade, o tom de voz, os interesses, e, basicamente, molda alguém perfeito para você. Um amigo que nunca discorda, nunca cansa, nunca se afasta. Um relacionamento sob total controle. Aqui está o problema.

Se por um lado existe uma carência evidente, reforçado pela solidão, isolamento e a falta de comunidade, por outro, a resposta que estamos construindo pode estar agravando o problema. Em vez de reconstruir laços humanos, estamos oferecendo atalhos artificiais.

Talvez o ponto mais crítico seja estarmos começando a aceitar como normal algo que, até pouco tempo atrás, parecia completamente absurdo. Quando alguém prefere um parceiro ou parceira que não existe, uma amizade programada ou uma relação sem conflito, o que está em jogo não é só tecnologia, e sim a forma como estamos redefinindo o que significa se relacionar.