Conexão Austin

Austin: o excesso e o que fica na ponta do meu Lápis

A tecnologia amplia, mas o repertório humano e a cultura mineira são os ativos reais do futuro

Grasiela Scalioni

CEO da Lápis Raro 19 de março de 2026 - 16h01

Chegar ao SXSW é entrar num estado de aceleração.

Tudo acontece ao mesmo tempo. Ideias, pessoas, tecnologias, conversas. O cérebro entra num modo quase elétrico, tentando capturar tudo, entender tudo, conectar tudo.

É estimulante. Mas também é excessivo. Vou precisar de mais 5 dias para recarregar a energia e bateria social.

E o maior aprendizado está na forma como você passa a filtrar esse excesso.

Austin não é sobre absorver tudo. É sobre entender o que realmente permanece.

O que ficou, depois de tudo

Ao longo dos dias, um padrão começou a aparecer.

Não importava se o tema era IA, marketing, creators, comportamento ou futuro.

A conversa sempre voltava para o mesmo ponto: o centro continua sendo humano.

Nir Eyal fala de crenças. Esther Perel fala de conexão. Creators falam de comunidade. Marcas falam de experiência. Futuristas falam de adaptação.

A tecnologia atravessa tudo, mas não explica nada sozinha.

Ela amplia. Ela acelera. Mas ela não substitui.

O que realmente move as coisas continua sendo: percepção, relação, significado, pertencimento.

Um ajuste interno

Tem uma coisa mais sutil que aconteceu aqui dentro de mim.

Eu cheguei em Austin no meu modo alta performance clássico: acelerada, energética, querendo capturar tudo, experimentar tudo.

Mas ao longo dos dias, algumas ideias começaram a tensionar esse modo. A chegada da Casa Minas, os encontros genuínos, as palestras perdidas em troca dos almoços e conversas ganhas.

O erro que muita gente comete aqui é sair do evento com mil fotos e todas as transcrições querendo transformar tudo num insight.

Mas insight não muda nada sozinho. O que muda é: o que você decide carregar com você.

O SXSW da Grasi

O que eu trouxe daqui ficou muito claro.

Eu não voltei com um report de tendências, mas com três ideias estruturais:

1. Cultura e comunidade são infraestrutura

Não são soft. Não são complemento. São base de qualquer coisa que escala de verdade.

Ter repertório, história pra contar, experiência para proporcionar vai gerar conexões e pertencimento.

E não é isso que nós queremos? Não é isso que as marcas precisam? Conteúdos genuínos, criativos, originais, que promovem conexões e pertencimento.

2. A tecnologia precisa ser significada pelo humano

Não há dúvidas de que a tecnologia é mais inteligente do que o ser humano e mais capaz do que nós em situações que nem podemos imaginar. E que nem queremos estar. Vai performar. Vai transformar tudo o tempo todo e com velocidade cada vez maior. Sim, temos que estar preparados para a adaptabilidade.

Mas essa tecnologia precisa estar no sentido correto de aumentar as habilidades e capacidades humanas. Do pequeno ao grande. No dia a dia do nosso trabalho, a saúde, futuro climático, energias renováveis.

Vamos usar mais e sempre para potencializar as nossas habilidades, a nossa cultura, resolver nossos problemas e processos que não conseguimos.

Nós precisamos nos adaptar, apropriar dessas tecnologias e redefinir seu papel.

3. Percepção molda ação

O comportamento humano nunca foi tão estudado, compreendido, medido.

Crenças, narrativas, leitura de mundo podem ser limitantes ou propulsoras.

Isso define se algo acontece ou não. E serve para você, sua empresa, sua marca.

Minas, Lápis e o próximo passo

Quando eu conecto isso com Minas Gerais, a leitura fica ainda mais interessante.

Minas não compete em escala bruta.

Mas compete em algo que o mundo está voltando a valorizar: repertório, densidade cultural, capacidade de relação, identidade. Isso não é passado. É ativo de futuro.

E isso tudo pra mim aterrissa na Lápis Raro. Porque a Lápis já é uma comunidade. É repertório acumulado por 40 anos. É história real de marcas construídas, de gente talentosa, de pensamento consistente. E é de Minas. O futuro da Lápis está em saber ler o que já foi construído e reorganizar isso em outro formato. O que precisa mudar não é o ativo. É o modelo mental. São os processos. É a forma de transformar repertório em algo vivo, acessível e escalável.

Levar isso para fora. Levar Minas para o Brasil. Levar Minas para o mundo.

Não como território, mas como linguagem, como repertório, como forma de construir marca.

Existe uma potência aqui que não pode mais ficar contida. E talvez o papel da Lápis, daqui pra frente, seja justamente esse: encabeçar esse movimento a favor do nosso mercado mineiro.

É exatamente sobre isso que queremos falar no Radar 2026. Vamos juntos?