O dia em que Jack Conte se emocionou
E o que ele disse antes das lágrimas deveria assustar toda a indústria de comunicação
Não é todo dia que o CEO de uma empresa de tecnologia bilionária sobe em um palco para fazer o que Jack Conte fez no SXSW 2026. Ele não apresentou slides com métricas de crescimento. Não anunciou um produto. Também não deu uma aula de empreendedorismo. Ele contou a história da arte sendo destruída e reconstruída pela tecnologia, quatro vezes nos últimos 130 anos, e mostrou por que, desta vez, não será diferente. E por que, ao mesmo tempo, será.
A mentira do “felizes para sempre”
Conte começou fazendo o que ninguém espera de um CEO: confessou que já se sentiu um fracasso. Aos 27 anos, depois de construir com sua parceira Natalie o Pomplamoose, projeto musical que acumulou quase 100 milhões de visualizações no YouTube e sustentava uma carreira de artista independente, tudo desmoronou. Uma mudança de algoritmo do YouTube (chamada Cosmic Panda), a morte do iTunes e o nascimento do Patreon consumiram toda sua energia. Ele chegou a dar uma entrevista falando do Pomplamoose como se o projeto tivesse morrido.
Anos depois, ele entendeu o que não sabia aos 27, mudança não é morte, é ciclo.
“Happily ever after não existe”, desabafou. “Não é assim que a vida funciona. Você descobre um modelo, a tecnologia muda, você reconstrói. Aí muda de novo. E você reconstrói de novo. É um ciclo infinito”.
Para quem trabalha com comunicação, influência e reputação, essa frase deveria estar emoldurada na parede. O que Conte descreveu não é só a jornada de um artista, é a realidade de qualquer profissional que depende de plataformas digitais para existir.
O padrão que se repete há mais de um século
A jogada de mestre do executivo foi colocar a IA generativa dentro de um arco histórico que poucos no palco do SXSW ousaram fazer. Ele mostrou como, em 1895, os primeiros cineastas só sabiam copiar o teatro e críticos chamaram o cinema de “um mundo sem som, condenado ao silêncio eterno”.
Depois, nos anos 1920, o sindicato dos músicos tentou banir a gravação, chamando-a de “música enlatada” e publicando propagandas com robôs destruindo instrumentos acústicos. Trinta anos depois, os Beatles usaram o estúdio como “uma nova tela para pensar”.
Ele fez a mesma coisa com o sintetizador, banido pelo sindicato em 1939 e, décadas depois, incorporado por Stevie Wonder, Prince, Daft Punk e Björk. E com o cinema falado: Charlie Chaplin resistiu por 13 anos. Quando cedeu, fez O Grande Ditador, e usou a voz para entregar um dos discursos mais poderosos da história do cinema.
O padrão? Toda nova tecnologia começa imitando o que veio antes (o que Conte chamou de “slop”, a fase preguiçosa pós-invenção). Depois, artistas de verdade descobrem o que aquele meio pode fazer que nenhum outro podia. E então nasce algo novo.
“Estamos na fase slop da IA”, disse Conte. “Usamos geradores de imagem para criar coisas que parecem desenhadas à mão. Usamos geradores de vídeo para criar coisas que parecem filmadas por câmera. Ainda não descobrimos o que esse meio é”.
O recado para as empresas de IA que ninguém quis dar
Conte não é contra a IA. Ele dirige uma empresa de tecnologia. Mas subiu no palco e disse com todas as letras: se usar o trabalho dos criadores é “fair use”, por que empresas de IA estão pagando bilhões a grandes grupos de mídia e não aos milhões de criadores individuais cujo conteúdo foi usado para treinar esses modelos?
Essa é a pergunta que deveria estar em todo briefing de comunicação sobre IA. É uma questão de lógica econômica e de direitos, formulada por alguém que ocupa os dois lados: artista e CEO de tech.
Por que o humano permanece insubstituível?
O final da palestra foi o clímax. Com a voz embargada, Conte apresentou quatro argumentos para a sobrevivência da criatividade humana, que funcionam como um manifesto para qualquer estratégia de comunicação relevante.
Primeiro: o risco. Grandes artistas nos interessam porque se arriscam. “Se um LLM diz algo maluco, não me interessa. O que ele está arriscando? Nada”. Quando Taylor Swift regrava seu catálogo, ela está em jogo e isso nos fascina.
Segundo: a escassez. Citando Kara Swisher: “Arte é escassez. Não é o que é fácil de fazer, é o que é difícil”. O que é fácil vira commodity. O que é difícil vira cultura.
Terceiro: a ruptura. Se você treinar um modelo de IA apenas com música até 1959, ele jamais chegaria aos Beatles, a Prince, ao hip hop ou a Kendrick Lamar. Esses saltos exigem quebra de padrão, algo que modelos estatísticos ainda não demonstraram.
Quarto: a conexão. Quando ouvimos Kendrick Lamar, não estamos ouvindo apenas música. Estamos nos conectando com uma experiência humana real. “O disco não é especial pelo que soa. É especial por causa de quem Kendrick é”.
O que fica para nós
A palestra de Jack Conte não foi sobre música ou tecnologia; foi sobre o que torna a comunicação relevante quando o custo de produção cai para quase zero.
Se a sua estratégia de marca ou influência não contém risco, escassez, ruptura ou conexão humana, ela ainda está na “fase slop”. É o cinema tentando ser teatro.
O futuro pertence a quem aceita o ciclo de reconstrução e tem a coragem de colocar a vulnerabilidade na linha de frente. Como Conte resumiu antes de deixar o palco: “Haverá humanos sentindo algo que nunca foi descrito, buscando a forma certa de expressar esse sentimento. E isso será difícil, bonito e duradouro”.