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Quem está programando o futuro da inteligência artificial?

A IA aprende com as prioridades de quem a cria, o futuro depende de quem está na sala programando o mundo

Andréa Fernandes

Chief Revenue and Growth Officer do Publicis Groupe Brasil 17 de março de 2026 - 12h04

Tecnologia aprende com dados. Mas primeiro aprende com as escolhas de quem a constrói.

O futuro da inteligência artificial pode depender menos das máquinas e mais de quem está na sala quando elas são criadas.

Tem uma frase martelando na minha cabeça:

“AI is still a boys club.”

Ela muda completamente a pergunta que estamos fazendo sobre inteligência artificial.

A discussão deixa de ser o que a tecnologia será capaz de fazer.

E passa a ser outra, muito mais estrutural:

quem está ajudando a construí-la?

Essa pergunta apareceu para mim em conversas muito diferentes.

Uma delas começou com uma história sobre a criação da MasterClass.

A ideia era simples e poderosa:

e se o melhor conhecimento do mundo pudesse ser acessível para qualquer pessoa?

Não apenas para quem passou pelas universidades mais prestigiadas.

Mas para qualquer pessoa, em qualquer lugar.

No fundo, essa não é apenas uma visão sobre educação.

É uma visão sobre distribuição de poder.

Porque acesso ao conhecimento muda quem participa das decisões que moldam o mundo.

Em outro momento, a conversa foi para um território diferente.

Brené Brown e Adam Grant estavam anunciando um novo podcast: “The Curiosity Shop”.

A proposta parece simples.

Criar um espaço dedicado à curiosidade.

Mas não à curiosidade superficial que consumimos em feeds infinitos.

Eles falavam de algo mais raro: curiosidade como disciplina intelectual.

A capacidade de continuar fazendo perguntas — especialmente quando acreditamos que já sabemos as respostas.

Confesso que, no meio de tantas conversas sobre tecnologia aqui no SXSW, foi curioso perceber como as discussões mais interessantes voltavam sempre ao mesmo ponto: o comportamento humano.

Porque inteligência artificial não nasce apenas de código.

Ela nasce de decisões humanas.

Quem define os problemas.

Quem define os dados.

Quem define o que significa sucesso.

Tecnologia aprende com dados.

Mas antes disso aprende com as prioridades de quem a constrói.

Quando essas decisões vêm sempre de um grupo muito restrito de experiências e perspectivas, o risco não é apenas tecnológico.

É cultural.

É econômico.

É social.

Porque, nesse caso, não estamos apenas reproduzindo desigualdades existentes.

Estamos programando essas desigualdades no futuro.

Talvez seja por isso que a palavra curiosidade ficou ecoando tanto para mim.

Curiosidade verdadeira abre espaço para novas perspectivas.

Questiona certezas.

Amplia a mesa.

Traz vozes diferentes para dentro da conversa.

Porque, no fim das contas, talvez a pergunta mais importante sobre inteligência artificial não seja tecnológica.

Mas sim humana.

Quem está ajudando a programar o mundo que ela vai criar?