Conselhos ainda contam com baixo número de mulheres

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Conselhos ainda contam com baixo número de mulheres

Índice é menor que 10% se herdeiras não forem incluídas; projeto de lei quer criar cotas para reverter este quadro

Teresa Levin
8 de março de 2018 - 10h43

Mulheres ainda ocupam poucas posições em conselhos no Brasil (Crédito: People Images/ ISTOCK)

A carência da presença de mulheres em cargos de liderança no mercado brasileiro ainda é uma realidade e se estende aos conselhos de administração das empresas que atuam no país. Este cenário, que também pode ser verificado em outros mercados ao redor do mundo, contou em muitos deles até com a implantação de cotas para que fosse alterado. O fato tem preocupado alguns setores da sociedade que vem ampliando as discussões em torno do tema para reverter esta realidade.

 Com isso em mente, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher aprovou no ano passado uma proposta que exige a presença de 30% de mulheres nos conselhos de administração das empresas públicas, sociedades de economia mista e em empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito a voto. A ideia é alcançar este número em 2022; este ano, ele já chegaria à 10%. O texto é um substitutivo do Projeto de Lei 7179/17 do Senado Federal. Hoje ele aguarda designação de relator na Comissão de Trabalho, de Administração e de Serviço Público (CTASP) e levanta um tema polêmico mas que já conta com exemplos globais: em mercados como a Noruega, onde as cotas foram aprovadas há alguns anos, o cenário mudou rapidamente.

Em 2002, o país nórdico tinha apenas 6,8% de mulheres em conselhos de administração. Em 2003, a lei das cotas foi aprovada: a partir daí, companhias listadas em Bolsas de Valores, empresas estatais e companhias intermunicipais teriam cinco anos para contar com 
40% de mulheres em seus conselhos de administração. As sanções previstas na lei eram duras e previam até o fechamento das empresas. O cenário também era desfavorável: das 611 empresas sujeitas às novas regras, 470 não tinham nenhuma mulher em seus conselhos. Com a lei, em 2008, a meta foi alcançada (veja exemplo de outros mercados no quadro).

“Já fui contra cota mas hoje sou favorável. Ela deve ser utilizada como um antibiótico. Com o mau curado, tem que ter data para acabar. Mas é de grande importância”, defende Christiane Aché, diretora do Pós-MBA Advanced Boarding for Women (ABP-W), da Saint Paul Escola de Negócios, em São Paulo.  Com uma carreira construída em cargos de liderança de grandes empresas, como GE Renewable Energy, Alstom e Aerospatiale, ela foi membro de diversos conselhos de administração e no ano passado migrou para a área acadêmica. No comando do curso de pós-MBA, Christiane tem o desafio de liderar um fórum exclusivo para mulheres, criado no começo de 2017. Com duas turmas por ano, ele é voltado a profissionais de cargos C Level e tem como base um tripé. “O que é preciso para ser um bom conselheiro ou conselheira? Ter conteúdo, networking e comportamento”, fala. Citando números, ela lembra que a carência por mulheres em conselhos de administração é grande no mercado brasileiro. “Dependendo da fonte, se incluirmos herdeiras, a participação de mulheres em conselhos no Brasil chega a 10% mas, tirando estas profissionais, ela é de menos de 4%”, alerta. Por conta disso, ela acredita que as cotas são uma maneira de sensibilizar e destacar a importância da diversidade em conselhos.

Patrícia Linhares, advogada que também atua como conselheira em fundos de pensão, está cursando o pós-MBA da Saint Paul no momento mas, apesar de ser pessoalmente contra as cotas, também considera alarmante o baixo número de mulheres em conselhos de administração no país. “O projeto de lei não resolve, cria uma espécie de reserva de mercado para o público feminino sem existir um mercado mais consciente”, alerta. Por mais que ela acredite que existam mulheres competentes para exercer este trabalho, enxerga que as empresas ainda não tem esta cultura. “O mais relevante é trazer a tona esta discussão, para que isso vire estímulo para as mulheres”, fala. Camila Costa, CEO da ID\TBWA, lembra que historicamente os presidentes das empresas ainda são em sua maioria homens que depois que deixam estes cargos muitas vezes tornam-se membros dos conselhos. “E o network destes CEOs ainda é em sua maioria masculino”, fala a executiva que também cursou o pós-MBA da Saint Paul.

 Outros mercados

 A realidade que é observada no Brasil também é vista em outros países, mesmo com a implantação de cotas em muitos deles. Gisele Perasolo Alves, da Oath, tem uma visão sobre o mercado internacional. Brasileira, hoje ela ocupa o cargo de International Field Director na Oath e tem sob seu comando os mercados da Europa, Oriente Médio e África (EMEA), além do Canada, Estados Unidos e Japão. Ela identifica que esta é uma preocupação global e que hoje em muitas empresas já é colocada como um pilar em um processo de inovação com foco em gerar negócios melhores. Para ela, a presença de poucas mulheres em posições de comando e nos conselhos mostra que as oportunidades foram poucas. “ E hoje até a forma de contratação em empresas que apostam em inovação, como a Oath, leva em conta uma seleção bem igualitária, baseada não só em gêneros, mas em diversidade, já no processo de recrutamento”, fala.

 Camila Costa, da ID\TBWA, vê uma melhora a caminho no cenário nacional, embora a trajetória ainda seja longa e o ideal esteja longe de ser atingido. “Este é um movimento recente”, diz. Apesar disso, ela cita que a Petrobras e a Vale recentemente colocaram mulheres em seus conselhos. “E algumas empresas de tecnologia, por exemplo, um ambiente essencialmente masculino, também tem tido mulheres ingressando em seus conselhos”, aponta.

 

*crédito da imagem no topo: Rawpixel/iStock

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