Como a bilionária indústria dos fones de ouvido está mudando a música

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Como a bilionária indústria dos fones de ouvido está mudando a música

Esses equipamentos se tornassem não apenas um objeto de desejo, mas símbolos de "life style" e responsáveis, até, por apontar a personalidade do usuário


15 de março de 2017 - 8h00

(Crédito: reprodução)

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É fato que em nenhum outro tempo o consumo de música foi tão voraz e em larga escala como nos dias atuais. O processo de criação, produção e distribuição de música nunca foi tão acessível. Hoje, não é difícil alguém gravar sua própria canção em casa e fazer com que ela chegue rapidamente – e numa qualidade bastante razoável – em qualquer lugar do mundo. Algo inimaginável, por exemplo, no início da década de 90, quando Pearl Jam, Nirvana e seus companheiros de Seattle comandavam o processo de dominação global do rock através do que foi chamado de “música grunge”.

Há cerca de 30 anos, quando o Guns N’ Roses surgia no mercado da música, era comum reunir os amigos para ouvir música em casa, utilizando aqueles trambolhos “3 em 1” com caixas acústicas enormes. A portabilidade da música ainda engatinhava com os walkmans e fitas cassete. Mais tarde vieram os discmans, que tornaram os CDs portáteis. De qualquer forma, quem quisesse portar música nessa época tinha que se virar com equipamentos grandes, desconfortáveis, com baixa qualidade e playlists curtas.

A música que hoje acompanha naturalmente as pessoas em seus celulares (muitas vezes armazenada em bibliotecas virtuais), tornou os fones de ouvido um equipamento quase indispensável. A portabilidade da música fez com que os fones de ouvido se tornassem devices quase obrigatórios atingindo, até mesmo, o status de “objeto de desejo”. Se considerarmos a realidade das maiores cidades do mundo, com deslocamentos cada vez mais demorados, é quase impossível imaginarmos a “vida conectada” sem os fones de ouvido. Coloque nesta conta que o “running” se tornou o esporte mais praticado do planeta nos últimos anos e que, hoje, quase todo mundo corre ouvindo música. Considere, ainda, que os maiores astros do esporte mundial se tornaram garotos-propaganda de marcas de headphone fazendo com que esses equipamentos se tornassem não apenas um objeto de desejo, mas símbolos de “life style” e responsáveis, até, por apontar a personalidade do usuário.

Não foi à toa que a compra da Beats Eletronics foi a maior aquisição da história da Apple, superando os US$ 3 bilhões. É fato que o “pacote” foi encarecido pela inclusão da Beats Music, serviço de streaming de música que contava (à época da aquisição) com mais de 20 milhões de títulos, o que foi determinante para que a Apple renovasse o seu modelo de negócios e se tornasse um player forte no mercado de streaming com o Apple Music. Mas, à aquela altura, os fones Beats, com seu design extravagante, sub-graves exagerados, alto desempenho e fidelidade acústica, já eram um objeto de desejo entre os amantes de música em todo o mundo.

O mercado de fones de ouvido deverá superar os 17 bilhões de dólares em cinco anos

O sucesso da Beats provocou um enxame no mercado de fones. Bose, JVC, Sony, Sennheiser e Skullcandy investem milhões de dólares em marketing e desenvolvimento de produto para brigarem por uma fatia maior no mercado, apresentando produtos de performance espetacular. Até mesmo a Marshall, conhecida empresa fabricante de amplificadores, decidiu investir na fabricação de fones de ouvido. Ninguém está para brincadeira.

O mercado de fones de ouvido deverá superar os 17 bilhões de dólares em cinco anos. Estima-se que a demanda global deva atingir cerca de 455 milhões de unidades. O desenvolvimento de equipamentos cada vez mais sofisticados e confortáveis, que melhoram muito a experiência do consumidor e a aderência cada vez maior em academias e escritórios, impulsionarão as vendas nos próximos anos.

Mas o impacto deste crescimento do mercado de fones extrapola a questão dos negócios. Muda a forma de consumir música. E isso está mudando tudo, meus amigos.

Quando a música passa a ser ouvida “in ear” ou “over ear” (ou seja, através de fones), com equipamentos high–end (considero aqui que até mesmo aquele fonezinho que acompanha o seu smartphone tem uma qualidade bem razoável) com sub–graves caprichados, produzindo um conforto absurdo nas frequências baixas, isso obriga os produtores e criadores de música a se adaptarem e repensarem suas obras.

Não há dúvidas de que artistas de hip-hop, R&B, eletrônico e pop levam uma enorme vantagem, por exemplo, sobre o rock. Os sub–graves são mais legais, mais confortáveis e soam bem mais bonitos nos fones de ouvido de última geração. As frequências médias e altas do rock soam desconfortáveis neste formato de consumo de música.

Não por acaso bandas como Maroon 5, Coldplay, Imagine Dragons, 21 Pilots e outras que tiveram origem no rock estão explorando todo o potencial da nova tecnologia de consumo. Basta ouvir e comparar o Coldplay de “Yellow” para o de “Adventure Of A Lifetime” ou o Maroon 5 de “Harder To Breathe” para o de “Don’t Wanna Know”. Soam diferente. O rock passa por um momento difícil no Hemisfério Norte. Exceto pelas bandas que se tornaram marcas irrefutáveis e ganham muito dinheiro turnê a turnê, o mercado de rock perde força e destaque nas paradas, premiações e participação no mercado.

O consumo através dos fones de ouvido foi uma porrada dura de assimilar. Está mudando a música. Mudou a forma dos produtores raciocinarem e dos artistas criarem. Não acho ruim. Ao contrário. É um novo momento da música. De alto consumo e interesse por parte do público e marcas. Como diz o refrão de “Radioactive” do Imagine Dragons: “Welcome to the new age”.

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  • Marcos Vicca

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