A magia de PJ Pereira

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A magia de PJ Pereira

A viagem até Codó, pequena cidade no interior do Maranhão, onde nasceu e morreu a personagem central de "A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa", novo livro do autor


10 de abril de 2017 - 10h55

A viagem até Codó, uma pequena cidade no interior maranhense, começou em um avião na quinta à noite. Eu e Arthur Veríssimo voamos até São Luiz onde encontramos os outros membros de uma pequena expedição em direção à cidade que em 1780 recebeu nobres e guerreiros das nações africanas Jeje e Nagô, que haviam sido escravizados e trazidos para o Brasil pelo porto de São Luiz. A cidade dos Encantados, onde nasceu o Terecô, uma religião afro-indígena-brasileira hoje distante de suas características originais. A cidade onde nasceu e morreu a personagem central de A Mãe, a Filha e o Espírito da Santa, o livro que estava nos levando até lá.

pjpereiraUm pouco depois, conhecemos mais um companheiro de estrada, Thelmir Sarben, que, como eu e Arthur, havia sido convidado pelo autor do livro para ser uma das pessoas que teriam acesso à história antes de sua publicação, mas com uma missão a mais: ler o livro em um ambiente online compartilhado com o autor sabendo que seus comentários poderiam terminar interferindo no rumo da trama. Parte de uma disciplina cuidadosamente pesquisada, pensada e colocada em prática por um homem apaixonado por contar histórias: PJ Pereira, que também nos encontrou em São Luis, vindo de San Francisco, nos EUA.

Eu e PJ nos conhecemos há quase 15 anos. Nós nos tornamos amigos muito tempo depois, mas só descobri quem ele realmente era, a extensão do seu talento, sensibilidade e genialidade, anos depois, quando entrou no ar The Beauty Inside, o conteúdo de marca desenvolvido para Intel que terminou subvertendo tantos padrões que fica difícil lembrar todos: chegou a usar 60% da verba total em produção; venceu o Emmy competindo com conteúdos desenvolvidos para TV; teve seus direitos comprados para cinema e foi transformado em filme na Coreia; ao invés de pagar, recebeu do Hulu por um período de exibição exclusiva.

A relevância de Intel Inside vem do que ele provoca, de sua capacidade de inspirar transformações de base na nossa indústria ao colocar em xeque, na prática, várias vezes nos últimos cinco anos, o que é ou não publicidade, entretenimento, mídia, conteúdo, product placement. PJ fez isso novamente no ano passado com Werner Herzog em Lo and Behold, o filme mais aclamado pela crítica durante o Sundance Festival. Um conteúdo de marca desenvolvido para Netscout.

Pegamos a estrada perto do meio dia. Estávamos ansiosos por conhecer a cidade mágica. Foram quatro horas até Codó, tempo suficiente para esse grupo navegar por conversas que iam de Pai Cícero a Judorovsk. De James Petterson a Gabriel Garcia Marques. De Bita do Barão a Yoshikawa. Mas o que quero contar aqui não é sobre nenhum deles, é sobre a impressionante disciplina de um homem apaixonado por contar histórias e transformar a realidade. Um homem simples, que, com o tempo, foi se tornando um ativista dentro do sistema e um escritor fora dele, até que, em um momento, quando ninguém esperava, como se fosse mágica, suas palavras começaram a nascer em forma de livros.

PJ leva cerca de um ano e meio para colocar um livro de pé. Desse tempo, dedica seis meses à pesquisa e desenvolvimento do outline, uma espécie de mapa da história que pode ser feito em uma lista de tópicos ou organizado em uma teia de post its contendo todo o planejamento dos capítulos incluindo seus personagens, tensões, lugares. O outline começa a ser construído pelo logline, uma descrição da história que deve caber em uma frase ou parágrafo e precisa conter três coisas: o ponto de partida, o conflito e o lugar onde tudo termina.

Eu nunca escrevo durante o planejamento do outline, por mais que tenha vontade. Quando começo a escrever, na primeira fase, nunca volto para trás, só vou para frente, nunca volto e reviso nada. A regra é confiar no outline

Depois de seis meses buscando referências, assistindo documentários, lendo, desenhando o outline, PJ começa a escrever um capítulo por dia trabalhando de três a quatro horas divididas entre manhã e noite, antes e depois do trabalho na agência. Ah! Um ponto importante: ele não escreve sete dias por semana para não se esgotar, escreve seis.

Melhor que ele mesmo conte: “Eu nunca escrevo durante o planejamento do outline, por mais que tenha vontade. Quando começo a escrever, na primeira fase, nunca volto para trás, só vou para frente, nunca volto e reviso nada. A regra é confiar no outline. Dediquei seis meses ao planejamento dele, faz sentido acreditar. Todos os dias envio um e-mail para mim com a parte do outline referente ao capítulo que vou escrever. No dia seguinte, abro o e-mail, leio o outline e sigo em frente. Planejo os capítulos de uma forma que todos estejam de pé em três meses, tempo suficiente para eu ainda me lembrar do que escrevi no início. Nesses nove meses, não vejo TV, não recebo amigos em casa, não ouço música, não saio para jantar ou encontrar ninguém.

Ou estou escrevendo ou estou com minha família ou estou trabalhando. Com todos os capítulos prontos, fecho tudo e paro durante um mês, saio de férias e me afasto da história e dos personagens. Escrevo em duas fases. Na primeira, escrevo para mim e na segunda, escrevo para o outro. Na primeira vez é quase uma possessão, é como vomitar a história. Na segunda, eu me entrego ao outro, trabalho a emoção, as sensações, os sentimentos, o efeito emocional que eu quero que as pessoas tenham. A segunda fase leva de três a quatro meses com mais de quatro horas de trabalho todo dia”.

Paixão, disciplina, profundidade, processo, criatividade, confiança. A magia de PJ. O que mais alguém sonharia aprender a caminho da terra dos encantados?

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