Fake news geram danos de reputação e crises financeiras

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Fake news geram danos de reputação e crises financeiras

Estudo da ABERJE aponta que a maioria das organizações não possui estrutura formal para acompanhamento e gestão da publicação de notícias falsas

Victória Navarro
2 de julho de 2019 - 6h00

“A modificação do passado é necessária por duas razões, uma das quais secundária e, por assim dizer, preventiva. A razão secundária é que o membro do Partido, tal como o proletário, tolera as condições vigentes em parte porque não dispõe de termos de comparação. Mas, de longe, a razão mais importante para que se reajuste o passado é a necessidade de salvaguardar a infalibilidade do Partido”. O trecho é da obra 1984, de George Orwell, e refere-se ao dever do Ministério da Verdade, responsável por falsificar registros históricos a fim de atender aos interesses do Grande Irmão, ditador e líder do Partido.

A história, que se passa na Oceania de 35 anos atrás, reflete parte do cenário atual de fake news. Fabricadas por pessoas e por grupos mal-intencionados, as notícias falsas são capazes de enganar e modificar a realidade. E, dentro das corporações, o impacto das fake news não é diferente. Mesmo não estando entre os temas estratégicos das empresas, a maioria (85%) manifesta preocupação com as notícias falsas, embora acredite que eventuais riscos possam ser mitigados ou evitados. O dado é do estudo “Fake News: Desafios das Organizações”, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE), realizado a fim de compreender a dimensão do problema causado pela disseminação de notícias falsas dentro do ambiente de trabalho. O levantamento foi feito, entre 27 de fevereiro e 4 de abril de 2018, por meio de autopreenchimento em sistema online, com 52 empresas.

 

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Os principais canais de acesso à informação, de acordo com o estudo “Fake News: Desafios das Organizações”, são jornais e revistas online (74%) e jornais impressos (67%) (crédito: Ilkercelik/iStock)

Guerra de narrativas
Segundo Hamilton dos Santos, diretor geral da ABERJE, se levarmos ao pé da letra, as notícias faltas ou fraudulentas não fazem parte de um fenômeno novo. “As fake news acompanham a indústria da comunicação desde os primórdios. A imprensa aprendeu a lidar com as notícias falsas, até de forma bastante tranquila, já que ela sempre contou com seus protocolos jornalísticos”, diz. Para o executivo, as fake news ganharam maior visibilidade, nos últimos tempos, por conta da guerra de narrativas. “A produção de fake news retroalimenta o conflito de opiniões”, afirma.

Tanto as organizações (35%) quanto os setores em que atuam (46%) já foram alvos de notícias falsas. De acordo com a pesquisa, para as empresas, os principais impactos relacionados à publicação e disseminação de fake news são: danos à reputação da marca (91%), à imagem da empresa (77%), à credibilidade da organização (40%), à imagem do setor (28%) e à reputação da liderança (13%); e perdas econômicas e financeiras (40%).

Propagar um informação falsa como verdadeira, para Antonio Martin, chief executive officer (CEO) da empresa de inteligência em saúde e de segurança no trabalho RHMed RHVida, pode fazer com que os colaboradores entrem em quadros de ansiedade e de depressão. “O diálogo claro, amplo e objetivo é fundamental para minimizar os impactos das fake news no ambiente corporativo”, fala.

O poder das mídias digitais
Os principais canais de acesso à informação, segundo o estudo, são jornais e revistas online (74%), jornais impressos (67%), revistas impressas (39%), agências de notícias (39%), mídias sociais (28%), televisão (22%) e blogs e fóruns onlines (2%). Os respondentes da pesquisa acreditam que as mídias digitais são as que mais publicam fake news.

Além disso, o compartilhamento de notícias entre amigos e familiares pelas redes sociais é visto por 47% dos participantes com alta incidência de fake news. “A produção de informação fugiu do controle por conta das redes sociais, eliminando a divisão entre o emissor e o receptor. Assim, o consumidor de informação passou a ser um produtor de conteúdo, porém, sem os controles necessários de checagem”, clarifica Hamilton.

No entanto, Ana Paula Tavares, CEO e fundadora da Aporama, empresa focada em marketing digital, as rede sociais também se tornaram agentes importantes no combate e controle de informações falsas. “Não por acaso, Mark Zuckerberg, na última conferência do Facebook, anunciou uma série de projetos que incluem a revisão e a confirmação de notícias locais, divulgadas nas redes sociais por meio de cooperação de escritórios parceiros”, lembra. Em março deste 2018, o Facebook lançou vídeo sobre fake news. A campanha aconselha que as pessoas não acreditem em tudo que leem na internet e lembrem seus amigos e familiares a pensarem antes de compartilhar ou curtir alguma informação. Confira vídeo:

Rigor na checagem
Para o diretor geral da ABERJE, as empresas e os gestores têm buscado incluir, em seus quadros, profissionais de análise que entendam o impacto das notícias falsas em seus negócios. “É preciso aumentar o rigor e criar alternativas de checagem. Campanhas de conscientização também são importantes”, adiciona. De acordo com o estudo da associação, a maioria (76%) das organizações não possui estrutura formal para acompanhamento e gestão da publicação de fake news. Das que tem, 20%, essa estrutura está configurada como uma área interna (78%) e encontra-se subordinada à área de comunicação (89%). O restante das empresas, 4%, está implementando uma área focada em notícias falsas.

“Será, cada vez mais, difícil distinguir a realidade com o mundo virtual”, diz Hamilton dos Santos, diretor geral da ABERJE

No futuro, Antonio acredita que os colaboradores terão consciência de que é imprescindível chegar notícias. Ana alerta que é necessário realizar mais pesquisas para entender os sistemas existentes a fim de elaborar novas leis e padrões de criação, publicação e disseminação da informação. “Continuamos a observar um número crescente de bots compartilhando conteúdos falsos, influenciando principalmente a política e a opinião da sociedade sobre assuntos sensíveis”, diz a CEO e fundadora da Aporama. Mas, para Hamilton, no futuro, será preciso lidar com outros problemas, como as deepfakes, vídeos e conteúdos fraudulentos criados por meio de inteligência artificial (IA): “Será, cada vez mais, difícil distinguir a realidade com o mundo virtual”.

*Crédito da foto no topo: MicroStockHub/iStock

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