Zuckerberg no tribunal e redes: tão viciantes quanto cigarro
Fundador e CEO do Facebook Inc., atual Meta, executivo compareceu, pela primeira vez, em julgamento
A primeira vez de Mark Zuckerberg num tribunal remete a outro julgamento histórico dos EUA.
Em 1994, os CEOs das maiores empresas de tabaco do mundo negaram a dependência da nicotina perante o Congresso dos EUA.
Na ocasião, pela primeira vez, os principais executivos das sete maiores empresas de tabaco americanas testemunharam juntos.
Sob juramento, fizeram a afirmação que ecoaria por décadas: negaram que a nicotina era viciante.
Poucas semanas depois, um julgamento em Minnesota forçou a divulgação de milhões de páginas de documentos internos da indústria que revelavam os efeitos nocivos do cigarro.
Isso mudou a história da indústria tabagista para sempre nos EUA e no mundo.
Por consequência, aumentaram as restrições de marketing do produto, inclusive, posteriormente no Brasil.
Ainda, cresceu o financiamento de campanhas educativas, as quais contribuíram para a redução significativa do tabagismo entre os jovens.
Big techs no tribunal
Julgamento equivalente está em curso, também nos EUA, e, agora, as empresas que controlam as mídias sociais, ou seja, as big techs, estão sob a acusação de serem viciantes por natureza, tal qual o cigarro o era na década de 1990.
De fato, as big techs enfrentam 22 ações judiciais “piloto”, chamadas casos-teste, que podem colher mais de 1,5 mil depoimentos.
Ao longo dos anos, muitos tentaram processar os proprietários do Instagram, Facebook, YouTube, TikTok e Snapchat por danos online.
Todavia, sem sucesso.
Isso porque as plataformas baseiam sua defesa na chamada Seção 230, da Lei de Comunicações dos EUA, que protege plataformas online que publicam conteúdo de terceiros.
Na verdade, a seção dispõe que as empresas não são responsáveis pelas postagens dos usuários.
Zuckerberg e a negligência das plataformas
Contudo, agora, pela primeira vez, as empresas de mídia social enfrentam julgamento por júri.
Os jurados, de fato, não decidirão se o conteúdo específico nas plataformas foi prejudicial.
A decisão, na verdade, será sobre se as plataformas foram negligentes ao criar e ajustar seus produtos para incentivar as pessoas a passarem mais tempo neles.
Os autores da ação, portanto, alegam que Instagram, Facebook, YouTube, TikTok e Snapchat “reconfiguraram a maneira como nossos filhos pensam, sentem e se comportam.”
Assim, se os jurados decidirem que as empresas foram negligentes, também precisarão decidir se essa negligência causou danos significativos a uma jovem.
KGM, a autora da ação
No caso, a pessoa, conhecida como KGM, é uma californiana de 20 anos que afirma ter sofrido de ansiedade, depressão e problemas de imagem corporal após usar Instagram, Snapchat, TikTok e YouTube na infância.
De fato, o TikTok e Snapchat já fizeram acordo extrajudicial com KGM.
Isso significa, portanto, que ambas as empresas não estão sob julgamento.
Portanto, apenas a Meta e o YouTube, do Google, estão sob julgamento, definido como “caso-teste” porque poderá determinar o valor da indenização que as vítimas poderão receber em futuros processos contra as big techs.
Assim, se perderem, as techs serão obrigadas a alterar o design de suas plataformas.
Portanto, durante as alegações iniciais feitas na semana passada, Meta e YouTube foram acusados de projetar deliberadamente produtos que sabiam que viciariam crianças.
Mark Lanier, que representa KGM, apontou características que tornariam as redes sociais viciantes: a rolagem infinita, autoplay, o botão curtir, os filtros de beleza e algoritmos de recomendação que poderiam criar ciclos compulsivos de uso.
Estratégias para adolescentes
Documentos internos apresentados ao tribunal indicam que executivos da Meta abordavam estratégias para adolescentes e que pesquisas internas já apontavam impactos negativos no bem-estar de jovens.
Nesta quarta-feira, 18, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, que é proprietária do Instagram, WhatsApp e Facebook, compareceu, de forma inédita até então, ao tribunal do júri.
Ao comentar seu depoimento ao Congresso dos EUA em 2018, no qual afirmou que não estabeleceu metas para o Instagram com o objetivo de aumentar o tempo que os adolescentes passavam na plataforma, Zuckerberg disse que concordava com a afirmação.
Crianças menores de 13 anos
De fato, documentos da Meta mostram que a empresa estimou que cerca de 4 milhões de crianças menores de 13 anos usavam o Instagram em 2025.
Isso apesar dos termos e condições da plataforma afirmarem que apenas pessoas com 13 anos ou mais podem ter conta.
Contudo, Zuckerberg disse que é preciso concordar com os termos ao se cadastrar, mas diz estar ciente de que “há pessoas que mentem sobre a idade para usar os serviços”.
Durante o julgamento, Zuckerberg recebeu um documento distribuído internamente pela Meta por terceiros.
De fato, o documento, “Criando o Futuro”, identifica oportunidades “para desvendar o comportamento digital de crianças de 8 a 12 anos” e atingir o “coração da geração Z”.
No entanto, não se informou a data desse documento, ou seja, pode ser antigo.
O CEO da Meta respondeu: “Não sei qual a relevância disso. Há pessoas que burlam as restrições e criamos ferramentas para tentar identificá-las. Não tenho uma lista exaustiva de ferramentas que desenvolvemos ao longo do tempo, mas acredito que já trabalhamos nisso antes.”
Pré-adolescentes
Outro documento mostrado ao júri, de 2018, afirma que a empresa havia “definitivamente estabelecido os pré-adolescentes como a faixa etária com maior taxa de retenção nos EUA”.
E observou que pessoas que se juntaram ao Facebook aos 11 anos tinham taxa de retenção a longo prazo quase quatro vezes maior do que aquelas que se juntaram aos 20.
Assim, “se quisermos ter sucesso com os adolescentes, precisamos atraí-los como pré-adolescentes”, diz o documento.
“Não me surpreende que as pessoas, internamente, estivessem estudando isso”, respondeu Zuckerberg.