Messa: proibir redes sociais é mais simples do que educar
Professor e coordenador da Faap comenta medidas globais de restrição às redes sociais e julgamento nos EUA
Espanha, França, Reino Unido, Portugal e Turquia. Todos esses países planejam formas de banir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais.
Essas movimentações, iniciadas este ano, têm inspiração na legislação da Austrália, que entrou em vigor em dezembro do ano passado.
O resultado, apenas no primeiro mês, no país australiano, foi a exclusão de 4,7 milhões de contas nas plataformas sociais.
No Brasil, o movimento se materializou com propostas de três deputados – Greyce Elias (Avante-MG), Mauricio Neves (PP-SP) e Renan Ferreirinha (PSD-RJ) – que querem vetar o uso de redes sociais para menores de 16 anos e pedem a supervisão parental em serviços de mensageria, jogos e plataformas educacionais.

Se banimento se efetivar no Brasil, marcas e influenciadores terão que encontrar novas linguagens e meios para se conectar ao jovem, diz Messa (Crédito: Arthur Nobre)
Paralelamente a isso, ocorre, nos Estados Unidos, julgamento popular em que big techs como Google e Meta respondem pela acusação de viciar jovem em redes sociais.
TikTok e Snapchat optaram por firmar acordos com a requerente para não participar do julgamento.
“O aumento da pressão sob as redes sociais é resultado de reflexão sobre a influência das plataformas na atenção, socialização e formação de crianças e adolescentes. Estamos falando de um público em formação, com menos repertório para gestão do tempo, mais vulnerável à comparação social e mais exposto a estímulos contínuos”, afirma o professor e coordenador dos cursos de publicidade e relações públicas da Faap, Eric Messa.
Messa comenta o movimento global de repensar a relação dos jovens com as redes sociais, inclusive sobre o veto do acesso dessa faixa às plataformas.
Restrição de acesso às redes por menores de idade
Meio & Mensagem – No Brasil, celulares foram proibidos em escolas e há debates no STF sobre a responsabilidade das redes. O País deve seguir modelos como o europeu (restrição) ou o australiano (banimento)?
Eric Messa – O Brasil parece caminhar na mesma direção, com iniciativas como a proibição do uso de celular em escolas, para tentar recuperar um mínimo de foco e de convivência no ambiente educativo.
Em junho de 2025, houve a decisão do STF sobre a responsabilização das plataformas sobre a remoção de conteúdos ilegais.
Além disso, cresce o debate público, puxado pela sociedade, com movimentos como o “Desconecta”, inspirado nas discussões internacionais e nas ideias do Jonathan Haidt, defendendo a proibição de uso de redes sociais por menores de 16 anos.
É importante considerar que proibir é mais simples do que educar, mas costuma ser menos sustentável no longo prazo.
É importante trabalhar em várias frentes: rigor e clareza na escola, responsabilização das plataformas e, principalmente, investimento em educação midiática e digital.
Precisamos ensinar o jovem a navegar com criticidade porque, se a única estratégia for levantar muros, eles aprendem rapidamente a contornar com VPN, conta paralela e acesso por terceiros.
Julgamento nos Estados Unidos
M&M – Os Estados Unidos iniciaram julgamento sobre a dependência do uso de redes sociais entre jovens. Qual é o impacto desse processo?
Messa – Ao colocar empresas como Meta e Google no banco dos réus, a justiça americana produz impacto que vai além do tribunal.
Mexe na cultura. Assistimos a uma espécie de desromantização das big techs. Elas deixam de ocupar o lugar de “arquitetas inevitáveis do futuro” e passam a ser cobradas por escolhas concretas de um design viciante, por decisões algorítmicas e por efeitos colaterais no comportamento humano, especialmente entre jovens.
Isso muda a conversa. Sai do campo do “é assim mesmo, faz parte da era digital” e entra no campo do “quem é responsável por desenhar e lucrar com esse ambiente?”.
M&M – Como a decisão dos tribunais americanos sobre o “design viciante” pode influenciar a jurisprudência brasileira?
Messa – Pode influenciar bastante. Historicamente, decisões e teses consolidadas nos Estados Unidos acabam servindo como referência, ainda que indireta, para debates jurídicos em outros países, inclusive o Brasil.
Se lá se confirmar o entendimento de que um “projeto intencionalmente viciante” configura abuso ou ato ilícito, isso vira munição argumentativa em ações brasileiras.
Advogados e especialistas passam a usar essas premissas para sustentar pedidos de responsabilização, indenização e obrigação de mudança de produto, especialmente quando há dano comprovado a menores.
E tem um efeito paralelo, talvez tão importante quanto: mesmo antes do desfecho, o processo pressiona por transparência e por mudanças preventivas, porque reputação também é um ativo.
TikTok e Snapchat
M&M – Por que empresas como TikTok e Snapchat optaram por fazer acordos em vez de enfrentar o processo?
Messa – Acordo costuma ser decisão estratégica para reduzir risco. Enfrentar um processo até o fim significa aceitar a possibilidade de uma derrota judicial, com efeito inclusive reputacional.
Mas existe um ponto ainda mais sensível: seguir com um julgamento significa ter que abrir documentos internos, métricas e decisões de produto. Para essas empresas, transparência é ameaça real, pois justificam se tratar de uma exposição de risco para a concorrência.
Mas isso também tem impacto cultural. A sociedade começa a questionar não somente o conteúdo que circula, mas o desenho do ambiente que incentiva certos comportamentos e a falta de transparência em relação ao funcionamento do algoritmo.
Consequência para as redes sociais
M&M – As redes sociais conseguem ser lucrativas sem os mecanismos considerados viciantes (notificações constantes, scroll infinito)?
Messa – Acho que conseguem, mas isso exige mudança de mentalidade e de modelo.
O que domina hoje é a economia da atenção pelo estímulo da dopamina: manter o usuário em alerta, no impulso, no próximo vídeo, na próxima notificação. Dá dinheiro, mas cobra um preço alto na saúde mental dos usuários.
É possível migrar para uma economia da intenção e da comunidade. Em vez de maximizar tempo de tela, maximizar utilidade, confiança e conexão real. Isso não elimina receita, mas muda onde ela está: assinatura, serviços, curadoria, experiências, ferramentas para criadores, soluções para comunidades e negócios.
Só que isso implica assumir um papel (quase utópico) das big techs sobre o cuidado com a saúde mental dos usuários. É o desafio do ESG aplicado ao algoritmo: lucro com responsabilidade.
Infuência e publicidade digital
M&M – O Brasil é um dos países que mais consome redes sociais no mundo. Como a restrição mudaria o mercado de influência e publicidade digital?
Messa – Estamos entre os países com maior volume de criadores e muita gente depende dessa relação cotidiana com seguidores para trabalhar e gerar renda.
Uma restrição, dependendo do desenho, tende a produzir impacto de curto prazo sim: queda de alcance, redução de engajamento e reacomodação de investimento.
Mas não vejo isso como “fim” da creator economy. Vejo como uma arrumação.
O mercado de influência já está amadurecendo nesse caminho.
Deixando um pouco de lado as métricas de vaidade e caminhando para relações mais consistentes, com comunidade, pertencimento e relevância real.
Isso também pressiona agências e marcas a sofisticarem o trabalho: mais estratégia, mais critérios de escolha, mais foco em micro e nanocriadores quando fizer sentido, e menos dependência de volume bruto de seguidores.
Em outras palavras, mudaria o eixo.
Menos escala a qualquer custo, mais vínculo e credibilidade.
Isso é melhor para a marca, para o criador e, principalmente, para o público.



