Renovar ou chorar

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Renovar ou chorar

O choro não soube se renovar. Manteve-se puro e fiel ao seu estilo inconfundível, achando que assim iria se salvar, mas acabou apenas assinando sua sentença de morte. E você? Como está lidando com sua carreira?


25 de maio de 2017 - 15h01

Se é verdade que só se conhece a verdadeira dimensão de uma grande cidade quando ela possui uma música que consegue transportar sua essência para outros lugares do mundo, minha amada cidade natal, o Rio de Janeiro pode se considerar um lugar privilegiado. A deliciosa e atrevida cidade brasileira viu surgir entre suas praias, montanhas, lagoas e florestas pelo menos três gêneros musicais que ganharam projeção internacional: o samba, a bossa nova e o choro. E é justamente sobre este último, um gênero que tanto aprecio, é que eu gostaria de lançar um pouco de luz e tentar, assim, provocar a reflexão no leitor. Não precisa ser especialista em música nem apreciador de choro para que a mensagem seja entendida: basta seguir a melodia que vou puxar no bandolim que ao final, antes da última nota da flauta, eu prometo, tudo fará sentido. Comecemos por um passeio por meio da alma do choro e de suas diferenças em relação aos demais gêneros cariocas.

Foto: Reprodução

O samba e, principalmente, a bossa nova já estão consagrados mundo afora, sendo que sobre o choro ainda há muito — talvez quase tudo — para ser dito e contado. O choro, ao contrário de tantos outros gêneros, atravessou todo um século mantendo-se praticamente inalterado — graças ao idealismo que seus cultivadores devotaram e ainda devotam à sua preservação. O samba influenciou tantos gêneros musicais e recebeu por sua vez tantas influências que hoje é impossível restringi-lo a um só estilo.

Um dos gêneros nascidos do samba, aliás, é a bossa nova. João Gilberto, pai do estilo, garante até hoje que a música que ele canta é apenas e tão somente o samba. Isso pode ser verdade para ele, mas o que aconteceu na prática é que a bossa nova também soube mudar com os tempos, se fundindo com o jazz nos anos 1960, com a MPB nos anos 1970 e com a chamada world music dos anos 1980 em diante.

Tecnicamente, o choro é um gênero de música popular urbana surgido em terras cariocas por volta de 1870, cuja formação atual compreende um bandolim, um ou dois violões de seis cordas e outro de sete cordas, um cavaquinho, um pandeiro e um ou mais instrumentos de sopro, normalmente uma flauta. O chorinho — um diminutivo carinhoso de choro — é uma sutil variante do choro original, de andamento vivo e corrido, em que a linha melódica tende a prevalecer sobre os jogos instrumentais. Essa foi, a rigor, a única transformação que a música sofreu em mais de cem anos de tradição, e foi importante para que ela se fizesse bastante popular nas primeiras décadas do século 20. Desde então, choro e chorinho são tratados como um único gênero, visto que a linha mais melodiosa do início do século passado acabou prevalecendo sobre a original da segunda metade do século 19.

Poucos gêneros de música popular no mundo são tão complexos do ponto de vista harmônico quanto o choro. Graças à sua sofisticação e à grande quantidade de notas musicais contidas em cada compasso, o gênero pode perfeitamente ser comparado com o que os geniais solistas do bebop fizeram no jazz ou mesmo com o que o “matemático” Bach aportou à música clássica. Complementam a mística do choro elementos como a complexidade de sua linha melódica, as dificuldades técnicas de se tocar cada um de seus instrumentos, o canto sincopado e rápido, o papel bem definido e hierárquico de cada instrumento e os solos considerados “impossíveis” — realizados em instrumentos que originalmente foram concebidos para acompanhamento, como o incomparável cavaquinho. Também chamado de “música de músicos”, o velho choro também tem suas histórias de rugas, como a histórica briga entre a turma do bandolim e a do cavaquinho, personificada pelos seus maiores solistas: Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo.

O choro não teve fusion, west coast, avant-garde, acid, metal, hard, trash, punk nem nenhum outro desses prefixos utilizados para designar variações de um determinado tipo de música. Graças à dedicação quase religiosa dos “chorões” — como são chamados seus instrumentistas —, o chorinho é ouvido nos dias de hoje exatamente como há cem anos. Os chorões, ao contrário dos músicos de samba ou mesmo de bossa nova, são pessoas introspectivas, de vida um tanto monástica, quase integralmente dedicada à busca da perfeição dos solos em seus instrumentos.

O choro, ao contrário de tantos outros gêneros, atravessou todo um século mantendo-se praticamente inalterado — graças ao idealismo que seus cultivadores devotaram e ainda devotam à sua preservação

Ao contrário da bossa nova — que surgiu nos apartamentos dos jovens de classe alta do bairro de Ipanema — ou mesmo do samba, essencialmente popular e originário dos morros e favelas da cidade, o choro é uma música tipicamente de classe média. É também uma música muito mais diurna ou vespertina que boêmia, e que claramente exige muito mais dedicação de seus solistas que os outros dois citados gêneros cariocas, os quais, via de regra, qualquer um com mínima cultura musical pode executar sem maiores problemas.

O caráter introspectivo do choro fez com que ele tivesse menos exposição que o samba e a bossa nova, mas foi exatamente esse tradicionalismo que garantiu sua sobrevivência, sua pureza e sua renovação através das gerações. Como é uma música que não mudou com o tempo, é comum os jovens aprenderem a executar suas melodias com seus pais e avós. É mais: os chorões, independente de que geração pertençam, tocarão sempre da mesma forma, o que faz com que seja extremamente comum ver duas ou três gerações de músicos de uma família tocando juntas. Isso não seria possível em gêneros nos quais as novas gerações estão sempre procurando deixar sua marca, alterando o estilo de compor e tocar.

Terminada a viagem pela história do choro, chega a hora da reflexão. Porque, apesar de uma trajetória de tanta beleza, tanta pureza e tanta perfeição técnica, a dura realidade é que o gênero está fadado a desaparecer. Ou quase. Vamos ouvi-lo, aqui e ali, numa feijoada de hotel de luxo, em mesas de bares alternativos ou em salas de concerto mais exclusivas, mas quase como se fosse uma curiosidade histórica. Não é mais possível ouvir choro nas rádios, jamais vi um post sobre o assunto em uma rede social e Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo têm, somados, 17.271 seguidores no Spotify, contra 558.862 de Zeca Pagodinho e 1.200.035 de João Gilberto.

O saudoso humorista José de Vasconcellos abria assim um célebre esquete de seus shows de piadas e imitações dos anos 50 (que achamos que foram inventados apenas recentemente e chamamos pelo nome chique de stand-up): “Renovar… ou morrer. Vamos renovar!” — e a plateia caía na gargalhada, diante de tamanha obviedade. O choro não soube se renovar. Manteve-se puro e fiel ao seu estilo inconfundível, achando que assim iria se salvar, mas acabou apenas assinando sua sentença de morte. E você? Como está lidando com sua carreira? Você ainda acha bacana ser fiel ao estilo que o consagrou quando as coisas estavam apenas começando ou está aberto a fazer umas jam sessions, a tentar um estilo fusion? Não pretende arriscar nada ou está disposto a aceitar guitarras, baixos elétricos e até bateria no seu velho tango? Piazzolla aceitou tudo isso, e hoje tem bem mais seguidores no Spotify do que Carlos Gardel.

Samba, bossa ou choro: qual é a sua? Para mim, choro pode ser até bom. Mas nos palcos — jamais nos escritórios.

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