A igualdade é rosa, azul e todos os seus tons

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A igualdade é rosa, azul e todos os seus tons

É a responsabilidade de quem tem os privilégios de estar em lugar de algum poder trazer mais pessoas para a mesa, trazer mais mulheres críticas, mais vozes diferentes


2 de julho de 2019 - 15h56

(Crédito: Bulat Silvia/ iStock)

Minha filha Candy de seis anos vai crescer com duas memórias da infância que são, definitivamente, uma mudança de paradigma em relação às gerações anteriores a ela, em especial a minha. A começar pela primeira Copa do Mundo que ela de fato curtiu, a da Rússia, no ano passado, com a qual vibrou, colecionou as figurinhas do álbum que completou, inaugurando sua coleção, sofreu e de quebra teve a Inglaterra avançando às semifinais e o Brasil eliminado nas quartas-de- final. Para quem tem um pai britânico, é um marco inesquecível e uma inversão completa em relação àqueles mais velhos, acostumados sempre a ver a Inglaterra ser eliminada das copas bem antes do Brasil.

A segunda memória da infância de Candy e, de longe, a mais significativa é que, neste exato momento, ela está curtindo uma Copa do Mundo de Futebol Feminino que, para nós, tem destaque e exposição inéditas, mas que para ela é assim desde sempre, um padrão. Ir à escola vestida de camiseta do Brasil e torcer junto com colegas e professores pelas meninas do Brasil, colecionar o seu segundo álbum da Copa do Mundo que terá para sua coleção com as seleções femininas, assistir a alguns comerciais na TV mostrando as meninas do País, ver a gigante Marta superar a marca de Klose e ser a maior artilheira da história de todas as copas são atitudes que Candy acha natural, corriqueiro, parte da sua realidade. Conto a ela que nem sempre as coisas foram assim, mas percebo que isso é abstrato demais para uma menina que está chegando à sua longa trajetória de fechar o ciclo da primeira infância. O valor social desse fenômeno na sua formação identitária, no entanto, é inestimável.

Quando Marta bateu e anotou o pênalti contra a Austrália aos 27 minutos do primeiro tempo da partida no dia 13 de junho e mostrou aos olhos do mundo sua chuteira, exibindo o símbolo a favor da igualdade de gênero no esporte, chamou a atenção de todo o planeta. Marta está sem patrocínio esportivo desde julho de 2018 porque se negou a aceitar o que lhe foi oferecido — bem abaixo do que tinha anteriormente. Com mais gols pela seleção brasileira do que o rei Pelé, a rainha do futebol brasileiro, seis vezes eleita a melhor do mundo, a única a marcar gol em cinco copas e ter, na partida seguinte, superado Klose, se cansou de ter que se provar e usou aquele momento histórico para chamar a atenção a uma causa.

“O que foi proposto foi bem abaixo do que eu recebia, bem menos, menos da metade. A gente achou por bem não renovar. Muito abaixo do que a gente vê no futebol masculino. Resolvemos fazer isso então. Mais uma oportunidade de lutar pelos nossos direitos. Há uma diferença muito grande em relação a salários, e a gente tem que estar sempre lutando para provar que é capaz”, afirmou a única atleta eleita seis vezes a melhor do mundo, em entrevista ao Globo Esporte.

Em pleno 2019, aos 33 anos, com recordes, prêmios e títulos na bagagem, Marta diz que ainda tem que se provar. “É uma luta constante. É triste ver que a gente ainda precisa fazer isso, mas é uma luta de todas e todos, de modo geral’”, disse Marta, que também é embaixadora global da ONU Mulheres. A entidade divulgou em redes sociais o gesto de Marta mostrando a chuteira pela igualdade após fazer o gol na Copa do Mundo.

Capitã da seleção que caiu de pé e com muita dignidade diante da seleção anfitriã no domingo, 23 de junho, a Rainha do Futebol não está sozinha na briga pela igualdade. E é por isso que a Copa do Mundo da França tem sido emblemática em diversos aspectos. Primeiro por ser o torneio dessa modalidade mais assistido globalmente da história. Outras grandes atletas têm encontrado formas de fazer barulho, inclusive pela ausência. Atual dona da Bola de Ouro, prêmio da revista France Football, a norueguesa Ada Hegerberg marcou três gols na última final da Liga dos Campeões, levando o Lyon ao título. E, mesmo com todo seu status, optou por não acompanhar a seleção de seu país na Copa da França.

Ao mesmo tempo que a Copa do Mundo se desenrolava na França, o país também sediou há poucos dias o tradicional Cannes Lions Festival que, em vários momentos e iniciativas, tem destacado a questão da igualdade e a importância de quebrar estereótipos quando o assunto é retratar mulheres pela indústria da criatividade. Shonda Rhymes, escritora, produtora e fundadora da Shondaland, responsável por sucessos como Grey’s Anatomy e Scandal, tem uma biografia respeitável. Participando do painel “Quebrando estereótipos de beleza”, ela foi contundente ao afirmar que vamos ter que nos acomodar com a ideia de desconforto nas salas de reuniões e ambientes de trabalho, espaços majoritariamente brancos. “Se todo mundo na sala se parece com você, há um problema”, afirmou, colocando em discussão uma segunda camada de preconceito, a do racismo. É a responsabilidade de quem tem os privilégios de estar em lugar de algum poder trazer mais pessoas para a mesa, trazer mais mulheres críticas, mais vozes diferentes.

Recentemente, comprei o livro Para Educar Crianças Feministas, da prestigiada autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que defende que as mudanças só vão começar a ter escala maior na questão do feminismo se os homens forem envolvidos nessa discussão. “Temos que parar de pensar no feminismo como uma espécie de festinha exclusiva para a qual poucas pessoas são convidadas. Nosso objetivo é a igualdade no mundo. Queremos chegar a um ponto em que não vamos mais precisar do feminismo. Para isso acontecer, todo mundo tem que se envolver. Portanto, precisamos de homens feministas para mudar outros homens”, garante Chimamanda em entrevista recente à revista Marie Claire.

Protagonista de dois TEDs com mais de 20 milhões de views, virou música da Beyoncé e tema de coleção da Dior. Trajetória para lá de incomum para uma escritora de ficção que jamais pensou em ser ícone feminista. Ela sabe bem sobre o que está falando. “Em Lagos, uma cidade cosmopolita, acontece de um homem e uma mulher entrarem num restaurante, e o garçom ou o segurança dizerem: ‘Boa tarde, senhor,’ ignorando a mulher. Então, costumo falar aos homens que eles precisam dizer: ‘Isso é inaceitável. Entrei aqui com outro ser humano que é meu igual. E você precisa reconhecer a presença de nós dois’”, diz ela.

Chamou-me a atenção o dia em que comprei o álbum da Copa do Mundo das Mulheres, na mesma semana em que o técnico Vadão convocou a seleção que fez bonito na França. Meu filho Theodoro, de nove anos, ao analisar o livro e abrir com a irmã os primeiros pacotes de figurinhas, logo questionou: “Mamãe, por que a seleção feminina tem um homem como técnico, e não uma mulher?”. Naquele momento, entrei em êxtase. Pensei silenciosamente: estou criando um homem feminista e fazendo a minha parte nesta longa e árdua luta em prol da igualdade.

*Crédito da foto no topo: frimages/istock

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