Opinião

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O futuro

A inovação disruptiva é muito mais fruto de uma constante construção do que uma mudança repentina dos rumos e dos padrões


23 de setembro de 2019 - 12h46

Crédito: Carlos Alvarez/GettyImages

“As coisas irão se espalhar, por todas as direções.
Não será nada que se possa mais ter a dimensão”
Leonard Cohen

Sinônimo, em décadas recentes, de grandes metrópoles conectadas com tecnologia avançada, viagens espaciais e ameaças biogenéticas, e analisado sob o possível impacto desses atores em nosso estilo de vida e na evolução de nosso comportamento e interrelações, o futuro foi aventado em hipóteses de cientistas renomados e previsões de charlatães famigerados, registrado nos desenhos de crianças na pré-escola e cantado em verso e prosa por poetas e artistas consagrados, como Leonard Cohen, autor dos versos que precedem o parágrafo inicial deste texto.

O trecho destacado de “The Future” (que dá nome ao álbum lançado em 1992 e ganhou status cult com a trilha sonora do filme “Assassinos por Natureza”) originalmente divaga sobre a indissociabilidade histórica entre o Bem e o Mal, mas, descontado o contexto apocalíptico e profano que influencia toda a canção do cantor canadense, conversa com outras projeções para a convivência cotidiana, como nos universos líquidos de Bauman e a fragmentação da atenção por meio do excesso de informação a que somos expostos.

As ideias de Cohen também carregam um receio comum a boa parte das previsões sobre os dias que virão. É uma contradição dogmática: ao mesmo tempo que, individualmente, buscamos sempre acreditar que o melhor ainda nos espera, as visões ficcionais do futuro geralmente são marcadas por um certo ceticismo quanto ao nosso destino como sociedade.

A boa notícia é que nossas percepções sobre como será a vida nas próximas décadas costumam ser inevitavelmente distorcidas quando feitas olhando apenas para a frente. “Somos muito, muito ruins em predizer o futuro”, repete em suas aulas, como um mantra, o professor da Escola de Negócios da Universidade de Stanford Bill Barnett, um estudioso de como as instituições corporativas devem se organizar para favorecer uma cultura que propicia e valoriza a inovação. “Mas somos ótimos em racionalizar retrospectivamente”, pondera Barnett, antes de revelar a estratégia comum a todos os grandes gênios contemporâneos da inovação, como Steve Jobs. “É preciso olhar o passado e conectar os pontos”.

A convicção de Barnett segue a crença do criador da Apple e de todo o Vale do Silício, de que a inovação disruptiva é muito mais fruto de uma constante construção do que uma mudança repentina dos rumos e dos padrões — um processo em que novas variáveis ampliam sua influência na equação à medida em que aumentam a adesão e a crença de que são partes da melhor solução. Tome o exemplo da cidade de San Francisco, na Califórnia, berço de produtos que se tornam um mercado em seus domínios antes de ganhar o mundo. Por lá, anunciantes em alta nos espaços publicitários vão de serviços alocados na nuvem a carros elétricos, de marcas de cannabis medicinal
e recreativa a alimentos com proteínas vegetais, como carnes e ovos à base de plantas. Apresentadas como grandes novidades, quando se tornam opções populares, todos, na verdade, já percorreram um longo caminho de amadurecimento, de seus nichos específicos ao mainstream.

A série especial Next, Now foi concebida sob essas premissas, a partir da observação de tecnologias e possibilidades que já temos disponíveis agora e projeções para onde devemos ir, de acordo com o que indica a evolução nas preferências e motivações de escolha do consumidor. O primeiro dos oito episódios que abordarão o futuro dos setores mais importantes da economia nacional é dedicado ao Varejo e está publicado nesta edição impressa de Meio & Mensagem. Nesta semana, vai ao ar também o primeiro programa do podcast da série.

Boa leitura.

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