Minha agenda, minha escova de dentes

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Minha agenda, minha escova de dentes

Cada compromisso é uma renúncia a dezenas de outras possibilidades


31 de outubro de 2019 - 8h00

(Crédito: OstapenkoOlena/istock)

O maior valor que temos é o tempo. Cada reunião ocupa tempo, cada almoço, ligação, trajeto… Minha agenda parece um jogo de Tetris, com peças e cores perfeitamente posicionadas ou com alguns quadradinhos de respiro.

Outro dia, alguém me perguntou como minha secretária organiza tão bem a agenda e respondi: “Não, agenda é igual escova de dentes. Não empresto para ninguém”. Sim, agenda é a planilha das minhas escolhas. Escolhas são os momentos em que decidi colocar minha energia. E ninguém pode fazer essas escolhas por mim.

Só eu sei o que vale a pena, o que preciso priorizar, onde posso estar. Só eu sei o que consigo adiar, o que sou capaz de fazer ao mesmo tempo e as oportunidades que decido perder. Só eu sei se aquele almoço de amigas pode substituir um almoço de negócios, se o tema da reunião de pais merece que eu falte ao treino de tênis, se a viagem que um cliente solicita pode justificar três dias de ausência. Nada é mais valioso do que uma agenda bem cuidada. Esse é o segredo de qualquer equilíbrio e do desequilíbrio também.

As cores das peças de Tetris ajudam a visualizar o peso da atenção. Pinto de vermelho os encontros que envolvem meu marido, em rosa os compromissos com meus filhos, o amarelo é tudo que faço para o meu cérebro (coach, treinamentos, workshops), de cinza estão os meus compromissos para o bem-estar (tênis, caminhada…) e na cor do Outlook vêm o trabalho e as reuniões — a maioria da agenda.

Cada um tem sua escova de dentes — cerdas mais ou menos macias, versão elétrica, importada, nacional, escovação rara ou frequente, veloz ou lenta… Da mesma forma, cada um tem seu jeito de montar uma agenda. Um jeito só seu.

Mas uma agenda não é uma lista de deveres, e sim uma seleção de prioridades. Uma escolha, a maior escolha de todas: a do seu tempo.

Domingo é dia de preparar a agenda, alocar as energias, preencher os espaços. E preencher não significa lotar, entupir. Pode ser uma atividade que a gente ame, sentar-se à plateia para ver o filho entrar em campo, uma massagem para desestressar, um café para ouvir uma amiga que precisa desabafar.

Cada compromisso é uma renúncia a dezenas de outras possibilidades. Cada aceite a um “invite” é uma recusa a dezenas de outros. E abrir mão não é exatamente algo fácil, mas exercitar o “não” é importante e desafiador.

Uma vez, há alguns anos, eu estava à beira de um burnout. Fui a um médico que me perguntou sobre a minha agenda. “Como assim? É lotada, bem lotada. Viajo domingo para Porto Alegre, volto segunda à noite, aí tenho mil reuniões, filho e blá blá blá”. Ele, calmamente, perguntou: “Você está feliz com essa agenda?”. Respondi: “Não, mas estou acostumada”. Depois de mais uma dezena de perguntas, ele escreveu uma receita médica com duas frases apenas:

1. Impossibilidade de viajar por motivos de saúde; e 2. Marcar segunda-feira pela manhã algo que você ame fazer.

Fui pagar a consulta e lembro até hoje o exorbitante valor de R$ 850 (projete isso há mais de dez anos). Foi o melhor investimento que já fiz. Declarei fim à ponte aérea e resolvi aprender a jogar tênis. Em poucos dias, o sábado e o domingo ganharam um novo sabor e aquela angústia que vinha na hora do Fantástico deu lugar a uma ansiedade feliz e quase adolescente para encontrar as quadras e as amigas no dia seguinte. O céu, o sol (pode ser frio e chuva também) mudaram o sentido da semana. E quando alguém pergunta se posso agendar algo segunda, quarta ou sexta antes das 9h, logo digo que não, estou ocupada, porque nada é mais sagrado que o meu tempo, que o meu tênis logo cedo.

Aos poucos aprendi que não preciso inventar desculpas e dizer que tenho reunião na escola ou que vou ao médico. Estou ocupada e não saio por aí dizendo qual é a cor da minha escova de dentes, bem como os compromissos pessoais que tenho. Isso só interessa a mim, e minhas escolhas não podem me gerar culpa.

Estar presente é um dos maiores desafios dos dias de hoje. Corpo e alma se perdem um do outro facilmente, e só uma agenda bem preparada pode encaixar as peças com propriedade.

Se só você entende o valor de cada peça, só você dá as regras e aceita as mudanças nesse jogo da vida. Não empreste sua escova de dentes!

**Crédito da imagem no topo: Reprodução

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