Opinião

Comunicação: a próxima vantagem competitiva é cultural

Marcas que assumem papel ativo na construção do imaginário coletivo conquistam a nova fronteira da competitividade

Sérgio Lopes

Sócio-diretor da Conteúdos Diversos 26 de fevereiro de 2026 - 14h00

E se a sua marca estiver ajudando a definir o que o mundo aprende a chamar de sucesso? Não apenas vendendo produtos, mas moldando silenciosamente o que as pessoas passam a desejar, admirar e considerar normal.

Durante décadas, vantagem competitiva foi sinônimo de escala, eficiência, distribuição e inovação tecnológica. Depois veio a diferenciação por experiência. Em seguida, por propósito.

Agora, uma nova camada se impõe, menos tangível, mas potencialmente mais decisiva: cultura.

Não no sentido superficial de “estar alinhado ao espírito do tempo”, mas no sentido estrutural de compreender que marcas não disputam apenas mercado. Disputam imaginário. Disputam o que será considerado desejável. Disputam a definição de sucesso.

A comunicação é hoje a principal infraestrutura de construção de desejo na sociedade contemporânea. Ela não apenas informa; organiza referências, legitima comportamentos, consolida aspirações. Traduz estratégia em narrativa e narrativa em normalidade.

E o que se torna normal raramente é questionado.

Por décadas, ajudamos a consolidar uma ideia específica de prosperidade, crescer sempre, trocar sempre, expandir sempre. Fizemos isso menos por imposição e mais por repetição. Repetimos imagens, histórias e métricas até que prosperar se tornasse quase sinônimo de acumular.

Mas prosperar é um conceito cultural. E conceitos culturais evoluem.

Num cenário de crise climática, pressão regulatória, revisão de cadeias produtivas e mudanças geracionais, a pergunta estratégica deixa de ser “como comunicar sustentabilidade?” e passa a ser mais estrutural: que futuro estamos ajudando a tornar plausível?

Toda comunicação torna um futuro mais possível que outro.

Quando associamos inovação apenas à aceleração, tornamos a velocidade inevitável. Quando vinculamos sucesso a excesso, normalizamos o consumo expansivo. Quando tratamos impacto socioambiental como detalhe, ensinamos que ele é periférico.

Criar não é neutro. Comunicar também não.

Existe uma pergunta simples e desconfortável que poderia inaugurar mais reuniões estratégicas: se todas as empresas do seu setor operassem exatamente como a sua, o resultado coletivo seria mais sustentável?

Ela desloca o foco da performance individual para o efeito sistêmico e revela algo essencial: comunicação não é apenas ferramenta de posicionamento. É instrumento de legitimação de modelos.

Marcas que entenderem isso sairão na frente. Não porque parecerão mais responsáveis, mas porque compreenderão que desejo é construção cultural e que quem participa dessa construção influencia os critérios pelos quais o mercado será avaliado no futuro.

A vantagem cultural nasce quando a marca não apenas responde a tendências, mas ajuda a redefinir o que é considerado progresso.

Isso não significa abandonar competitividade. Significa sofisticá-la.

Em vez de disputar apenas preferência, disputa-se significado. Em vez de comunicar atributos isolados, comunica-se visão de mundo. Em vez de reagir à agenda socioambiental, integra-se essa agenda como componente estrutural da narrativa de valor.

Há diferença entre representar uma transição e contribuir para que ela aconteça. A primeira atua no campo simbólico imediato. A segunda influencia decisões de longo prazo, inclusive internas.

Porque comunicação não molda apenas consumidores. Molda cultura organizacional, prioridades de investimento e métricas de sucesso.

Quando narrativa externa e prática interna se alinham sob a pergunta “que futuro queremos tornar plausível?”, algo muda. Sustentabilidade deixa de ser discurso defensivo e passa a ser critério estratégico. Impacto deixa de ser risco reputacional e torna-se variável competitiva.

Esse é o ponto em que cultura se torna vantagem.

As novas gerações já sinalizam revisão de valores: mais interesse por experiência do que por posse, mais atenção a propósito do que a status, mais sensibilidade a coerência do que a slogans. Investidores analisam riscos climáticos. Conselhos discutem exposição sistêmica. Reguladores elevam exigências.

O ambiente mudou.

Mas a disputa central continua simbólica: o que significa prosperar agora?

Se prosperar seguir sendo narrado como expansão ilimitada, a tensão entre discurso e realidade aumentará. Se incorporar qualidade de vida, vínculos, equilíbrio e responsabilidade como indicadores de sucesso, abre-se um novo campo de competitividade.

Marcas que ajudarem a redefinir prosperidade não estarão apenas comunicando sustentabilidade. Contribuirão para atualizar o próprio imaginário econômico.

E imaginário econômico é ativo estratégico.

A comunicação já provou sua capacidade de transformar categorias em cultura, criar hábitos e estabelecer referências geracionais. Se foi capaz de normalizar padrões de consumo intensivo, é igualmente capaz de sofisticar o desejo e ampliar o repertório do que entendemos como realização.

Isso exige maturidade estratégica: reconhecer que cada campanha, cada posicionamento, cada escolha narrativa participa da construção do cenário em que a própria marca terá que operar amanhã.

A pergunta deixa de ser apenas “como vender mais?” e passa a incluir outra dimensão: que tipo de mercado estamos ajudando a consolidar?

Porque cultura não é cenário. É infraestrutura invisível.

E quem ajuda a construí-la influencia as regras do jogo.

A próxima vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia ou no orçamento de mídia. Estará na capacidade de leitura cultural e na coragem de participar conscientemente da redefinição do que consideramos sucesso.

Não para parecer sustentável.

Mas para tornar sustentável o próprio conceito de prosperar.