Opinião

Destreza mais convincente

Avanço da GenAI melhora desempenho de robôs humanoides, que atraem investimentos de grandes players globais

Alexandre Zaghi Lemos

Editor-chefe do Meio & Mensagem 23 de fevereiro de 2026 - 6h00

Não acontece por acaso o aumento de aparições de robôs humanoides nas redes sociais, nos filmes publicitários, nos enredos de entretenimento e nos eventos corporativos ou festivais abertos ao público. A evolução nas mecânicas da robótica e o avanço da inteligência artificial generativa (GenAI) animam cientistas e empreendedores e criam ambiente ideal para que os robôs melhorem seu poder utilitário, consigam realizar algumas tarefas domésticas com destreza similar à média das pessoas e até espelhem de forma mais convincente os trejeitos humanos. Ou seja, avançam no ainda longo caminho de perderem o aspecto desengonçado que carregam.

Em alguns casos, o resultado ainda é meio tosco, como no comercial “Shake Your Bots Off”, da Svedka Vodka, exibido no intervalo milionário do Super Bowl LX. O filme foi desenvolvido majoritariamente por inteligência artificial e é protagonizado por um casal de robôs dançantes. De acordo com o ranking Ad Meter, do USA Today, tradicional avaliação sobre os comerciais veiculados na final da liga de futebol americano, a mensagem da bebida sueca ocupou apenas a 53ª posição, de um total de 66 filmes exibidos.

Mais sorte tem o influencer brasileiro Lucas Rangel, cujos conteúdos em que interage com robôs atraem visualizações e engajamento. Um deles, que mostra a sua interação e a desenvoltura de um cachorro-robô, foi o mais votado pelo público na disputada eleição do Vídeo do Ano, no TikTok Awards 2025, entregue em dezembro. Rangel é um dos principais divulgadores dos produtos da chinesa Unitree Robotics, uma das gigantes que injetam altos investimentos para a adoção comercial dos robôs humanoides com funcionalidades para tarefas do cotidiano, vislumbrando o consumo de massa no futuro.

É uma corrida que atrai outros grandes players, como as estadunidenses Tesla e Boston Dynamics, a britânica Google DeepMind e a também chinesa Fourier Intelligence. O país asiático larga na frente e conta com amplo apoio governamental e investidores privados destinando US$ 5 bilhões à atividade no ano passado, montante que representa a soma dos cinco anos anteriores — o rápido salto alerta, em contrapartida, para uma possível “bolha dos robôs”, com cerca de 150 empresas chinesas disputando esse mercado e produtos vistos como repetitivos.

É mais complexo para os robôs humanoides alcançarem no convívio doméstico — onde aspectos como imprevisibilidade e falta de equilíbrio ainda representam riscos — o mesmo nível de confiabilidade do que, por exemplo, os robôs industriais atingiram nas fábricas de automóveis, ambientes mais controlados, nos quais a automação substituiu majoritariamente o trabalho humano.

Reportagem da jornalista Taís Farias, publicada nas páginas 18 e 19, mostra como a GenAI injetou potencial no desempenho e acelerou a curva de aprendizagem dos robôs, animando as perspectivas bilionárias do setor que almeja atingir escala comercial — a Morgan Stanley estima que o mercado global de robôs humanoides atinja US$ 5 trilhões anuais até 2050.

Embora ainda precisem aumentar muito sua autonomia, pelo visto na NRF, em janeiro, e pela expectativa gerada com a programação já divulgada do SXSW, que acontece no mês que vem, os robôs se transformaram em uma das pautas de maior atenção para lideranças da indústria de comunicação, marketing e mídia. São crescentes suas utilizações em ações de experiência de marcas, soluções para diminuir atritos nas jornadas de consumo e criação de ambientes nos quais representem a possibilidade de humanização escalável com barateamento de custos.

Ainda é uma incógnita se os robôs irão mesmo revolucionar nossas vidas e atingirão estágios em que possam tomar decisões econômicas e, até mesmo, influenciar a opinião pública. Enquanto isso não acontece em larga escala, vemos se materializando algo que existia somente no imaginário coletivo, alimentado pela ficção científica.