Opinião

Os novos padrões estabelecidos pelo ECA Digital

Decreto redesenha a publicidade nas plataformas e impõe nova lógica ao marketing de performance

Leandro Maraccini Claro

VP de Mercado, Growth & Comunicação da Vitru Educação 20 de março de 2026 - 14h00

 

O avanço do chamado “ECA Digital”, que amplia a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online, inaugura uma mudança relevante e estrutural na forma como a publicidade é feita em plataformas como Instagram, TikTok, Kwai e YouTube.

Mais do que uma regulação pontual, o novo marco impõe limites claros ao uso de dados comportamentais e ao emprego de técnicas de persuasão voltadas ao público jovem. Na prática, atinge um dos pilares que sustentaram o crescimento do marketing digital na última década: a combinação entre hiper segmentação e estímulos emocionais de conversão.

O texto restringe o uso de informações que possam explorar fragilidades cognitivas ou emocionais de menores, além de limitar mecanismos que criem senso artificial de urgência ou utilizem recompensas para prolongar o tempo de permanência nas plataformas. Estratégias de reengajamento, como notificações e mensagens desenhadas para trazer o usuário de volta, também entram na zona de atenção.

O impacto mais imediato aparece no modelo de mídia orientado à performance, especialmente em categorias com forte presença de público jovem. A limitação do uso de dados tende a reduzir a precisão das campanhas, pressionando indicadores como custo de aquisição e escala. Ao mesmo tempo, a exigência de verificação etária mais robusta deve reduzir o volume de audiência disponível, tornando o inventário mais restrito e, possivelmente, mais caro.

Há ainda um efeito relevante sobre as próprias plataformas. Meta, ByteDance e Google passam a assumir um papel mais ativo na moderação de práticas publicitárias e no desenho das experiências digitais, o que deve acelerar ajustes em algoritmos, formatos e políticas comerciais.

Para o mercado, o movimento sinaliza uma inflexão. O modelo baseado em dados abundantes, automação e otimização contínua começa a conviver com limites mais claros, especialmente quando envolve públicos vulneráveis.

Nesse contexto, cresce o peso de estratégias apoiadas em marca, conteúdo e comunidade. A dependência exclusiva de mídia paga e de conversão imediata tende a perder eficiência relativa, abrindo espaço para abordagens mais equilibradas entre branding e performance, com foco na construção de valor ao longo do tempo.

Para as marcas, não se trata apenas de adequar campanhas, mas de rever a forma de se relacionar com o público jovem. Isso implica reduzir o uso de gatilhos artificiais, investir em conteúdo que faça sentido e fortalecer ativos próprios de audiência. Em um ambiente mais regulado, a vantagem competitiva tende a migrar para quem consegue gerar conexão genuína, e não apenas capturar atenção.

No fim, a lógica é simples: a régua subiu. E ela não mede apenas conversão, mede confiança.

Na era do ECA Digital, não vence quem pressiona para converter; vence quem conquista para permanecer.