A beleza de descobrir talentos antes do mercado
É menos recrutamento e mais garimpo, que, como se sabe, exige duas coisas: paciência e sensibilidade, além de tempo, mas um tempo que volta de diferentes formas
Costumo dizer que dois dos meus principais papéis na agência são relativamente simples de definir, embora difíceis de executar. O primeiro é garantir uma boa entrega para os clientes. Esse sempre precisa vir em primeiro lugar. O segundo é identificar talentos. Porque, no fim, é isso que garante a entrega.
Grande parte do meu trabalho é um exercício permanente de headhunting: observar o mercado, acompanhar quem está fazendo um bom trabalho e tentar identificar quem ainda fará.
Existe um tipo específico de talento que só bons olheiros conseguem reconhecer: aquele que ainda não brilhou, mas vai brilhar.
Identificar um talento que já está fazendo um bom trabalho é relativamente simples. Ele já vem testado e aprovado pelo mercado. Geralmente está em uma boa agência e já colocou projetos relevantes na rua.
Nesse caso, o desafio não é identificar. O desafio é atrair.
A dinâmica vira um jogo de sedução. O profissional precisa comprar o seu projeto, se identificar com a sua cultura e perceber que aquela mudança o fará avançar algumas casas no tabuleiro da carreira, seja em salário, em cargo ou em oportunidade.
Mas existe um segundo tipo de talento que, para mim, é ainda mais interessante: o talento que ainda está escondido.
Às vezes, porque trabalha em uma agência pouco criativa. Às vezes, porque ainda não teve a oportunidade certa. Às vezes, simplesmente porque ainda não encontrou o ambiente onde possa realmente florescer.
Tenho muito orgulho de um talento que descobri há alguns anos, ao assistir à apresentação da fundadora de uma pequena empresa de pesquisa e planejamento especializada em estudos de gênero. Ao final da apresentação, ela comentou que escrevia em um blog pessoal.
Tive a curiosidade de entrar nesse blog e descobri muito mais do que ela havia mostrado na apresentação. Eu a contratei como redatora da agência para criar para Natura.
Depois a promovi a diretora de criação. Hoje ela é uma das mais famosas ECDs do mercado.
Ela nunca havia sequer imaginado trabalhar em criação em uma agência de propaganda. Provavelmente uma agência tradicional não contrataria alguém vindo de uma empresa de pesquisa e planejamento especializada em estudos de gênero para uma vaga de criação. Mas eu não sou uma agência tradicional.
Identificar esse tipo de profissional exige outro tipo de olhar. É menos recrutamento e mais garimpo. E garimpo, como se sabe, exige duas coisas: paciência e sensibilidade.
Você provavelmente perguntará: e o tempo? Sim, é sobre tempo. Contratar bem exige dedicação e curiosidade. Exige encontrar brechas na agenda para cafés e conversas. Mas é um tempo que volta depois. Em dobro, em triplo e em dinheiro.
Quando dá certo, é um ganha-ganha evidente. O profissional ganha acesso a um ambiente que permite crescer e fazer trabalhos melhores. E a agência ganha algo extremamente valioso: um talento antes que ele fique caro para o mercado.
Mas talvez a maior vantagem seja outra. Quando você encontra alguém nesse momento da carreira, você não está apenas contratando um profissional. Você está ajudando a formar esse talento. E formar talentos é uma das coisas mais estratégicas que uma agência pode fazer. Porque ele já cresce com a cultura da agência.
Ter uma cultura clara hoje em dia diferencia muito uma agência em um mercado no qual nem todas dão valor a isso. Vide o que as grandes holdings estão fazendo com suas marcas e culturas.
Uma agência com cultura clara atrai clientes. E quer saber o que mais? Atrai talentos.