Opinião

Como não ser engolido pela IA?

Aceitando ser inócuo resistir ao seu avanço, indústria precisa investir em soluções para que a própria tecnologia ajude a sanar problemas que provoca, desde a extinção de postos de trabalho até o custo emocional

Alexandre Zaghi Lemos

Editor-chefe do Meio & Mensagem 23 de março de 2026 - 11h32

Ao reconhecer que não é sustentável empreender movimentos de resistência ao rápido avanço da inteligência artificial (IA), profissionais, marcas e empresas tentam entender, entre sustos e solavancos, as transformações inexoráveis e nem sempre confortáveis que terão de fazer em suas vidas e negócios para que o atropelamento não seja fatal.

No SXSW, que encerrou sua edição 2026 na semana passada, em Austin, nos Estados Unidos, muitas sessões questionaram se a tecnologia será capaz de ajudar a solucionar os problemas que provoca, como o de geração de energia para o seu funcionamento, o de cortes em postos de trabalho e o do custo emocional intrínseco a questões como a apatia cognitiva e a desconexão social.

Uma das presenças mais aguardadas do festival, a futurista Amy Webb radicalizou no reconhecimento de que perdas são inevitáveis: decorou a sala de conferência como se fosse um funeral para matar seu aguardado relatório anual de tendências emergentes, o Tech Trends Report, publicado há 19 anos. Foi um ato simbólico de aceitação: as mudanças na tecnologia, economia, política e sociedade acontecem tão aceleradamente que um relatório estático não pode mais acompanhar a realidade e se torna obsoleto instantaneamente. Diante do enfraquecimento da concepção de megatendências lineares, a ideia é substituí-las pela busca por convergências capazes de cruzar múltiplas sugestões para o futuro, considerando forças externas e catalisadoras e, por que não, também as incertezas que ocasionam — movimentos que se cruzam e interagem entre si.

Em diversos outros momentos do SXSW, ficou evidente a crescente preocupação com os efeitos da IA e das redes sociais na autenticidade, no pensamento crítico e na saúde social. Uma das questões colocadas foi: “Será possível humanizar a IA antes que a tecnologia desumanize a sociedade?” Preocupa, especialmente, a monetização de conexões com máquinas que podem substituir interações humanas reais — o que gira a roda do mercado da solidão, na qual há um círculo vicioso em que a ilusão leva à desmotivação, que alimenta a perda da autonomia humana. Em contrapartida, o evento incentivou a valorização de características com a intuição e a ousadia.

Para a comunicação, o marketing e a mídia, os desafios não são menos complexos. Alguns dos caminhos extraídos de apresentações e debates do SXSW apontam para necessidades como a de enfrentamento à devoção aos algoritmos, incentivada pelo mercado nos últimos anos, que acabou por nivelar pela mesmice e assemelhação; e o investimento em mecanismos de buscas ativas capazes de estimular a curiosidade, destravar a atrofia cerebral e driblar a dependência que gera alienação. Também afligem as dúvidas sobre se a demanda por novas especialidades, a capacidade de desenvolver habilidades e a abertura de funções até então inexistentes serão suficientes para contrabalancear os cortes de empregos estabelecidos, já acelerados em determinados segmentos, e atrair talentos.

Nas páginas 34 a 39, estão publicados textos que consolidam a curadoria feita no SXSW pela equipe de jornalistas de Meio & Mensagem. Mas a cobertura multiplataforma não termina por aqui, segue nas próximas edições semanais, com análises dos ecos do festival. O conteúdo completo está no site especial meioemensagem.com.br/sxsw, onde há acesso livre ao noticiário e ao blog coletivo Conexão Austin, com participação de mais de cem profissionais brasileiros. Nas redes sociais, estão disponíveis os vídeos com bastidores do festival, principais ativações, falas das estrelas do evento e observações de convidados.

Tão fragmentada como a atenção das pessoas e a busca ainda desorganizada por soluções para problemas gerados pela evolução da tecnologia, a edição 2026 do SXSW cumpriu seu papel provocador de estimular reflexões e injetar ânimo em lideranças do mercado, que precisarão de coragem para enfrentarem as jornadas de rompimentos e readaptações.