“O ano só começa após o Carnaval”
Essa é a frase mais elitista que você vai ouvir esta semana
Todo fim de fevereiro a afirmação reaparece como parte do nosso folclore corporativo. Automática. Disfarçada de quebra gelo. Tratada como traço cultural de todo e qualquer brasileiro.
“O ano só começa depois do Carnaval.”
Para uma parcela do mercado, inclusive da publicidade, ela pode até fazer sentido. Existe a possibilidade concreta de desacelerar. De atravessar fevereiro como uma suspensão simbólica do trabalho. Uma espécie de limbo produtivo socialmente aceito.
Mas essa experiência não é universal. Dentre todas as desigualdades vividas no Brasil, existe também a desigualdade de tempo.
A possibilidade de adiar o começo do ano, ainda que no campo emocional, é um privilégio. Exige margem, estabilidade contratual, reserva financeira ou no mínimo previsibilidade. Exige a segurança de que o custo do adiamento pode ser absorvido.
Venho de uma família de trabalhadores informais, enfermeiros e auxiliares de enfermagem que não param no Natal, no Ano Novo, no Carnaval ou em qualquer feriado prolongado. Para descansar, eles dependem de escala, de sorteio. De sorte.
Para eles, assim como para ambulantes, costureiras, técnicos de som, motoristas de aplicativo e profissionais da hotelaria, fevereiro não é uma pausa. E, muitas vezes, é um pico.
Segundo o IBGE (PNAD Contínua), o Brasil tem cerca de 38% a 40% da população na informalidade. Ou seja, 4 em cada 10 trabalhadores vivendo sem vínculo formal, dependendo do seu próprio movimento para geração de renda e sem folgas garantidas nos feriados. Isso sem contar os que trabalham de forma registrada e ainda assim não recebem folgas em feriados, total estimado em mais 20%.
Perguntar se “o ano só começa depois do Carnaval” para esses grupos provavelmente produziria estranhamento, não identificação.
Trabalhar com publicidade nos concede privilégios, inclusive a possibilidade da folga de Carnaval. Mas não podemos permitir que isso distorça a lente com a qual interpretamos o País.
Quando naturalizamos essa frase como traço cultural, projetamos nossa experiência como se fosse nacional. Transformamos um recorte em regra, já que a linguagem organiza nossa percepção.
E se fevereiro é tratado como início, ignoramos que milhões já estavam no capítulo anterior. Se celebramos um recomeço coletivo, apagamos quem manteve o País funcionando enquanto parte dele descansava. E reconhecer isso não é excesso de crítica. É responsabilidade de quem trabalha com comunicação e se compromete a construir marcas em um país estruturalmente desigual.