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Opinião

O futuro do perfeito é no pretérito

Devemos olhar com mais generosidade para nós mesmas e para as mulheres ao nosso redor, para que pouco a pouco, o imperfeito se torne mais-que-perfeito


14 de março de 2022 - 6h15

(Crédito: Shutterstock)

Olá, sou a Sil Curiati, uma perfeccionista em recuperação. Não tenho sido perfeita nos últimos quatro anos, com muito orgulho. 

Por muito tempo fui daquelas que sofrem mais com as perdas do que celebram as vitórias. Não bastasse isso, ainda poderia passar semanas ruminando erros, revivendo histórias na minha cabeça, repensando atitudes, palavras, decisões. Se você é como eu, sabe que às vezes escrever um simples e-mail pode custar horas de sanidade e causar calafrios mesmo depois de enviado. Angústia e ansiedade estão sempre presentes. 

Em seu livro “How to be an Imperfectionist”, Stephen Guise diz que se o perfeccionismo fosse um iceberg, a pequena ponta visível seria o desejo por excelência e, a parte submersa (90% do iceberg), seria o medo de falhar. Ou seja, todos os sentimentos terríveis que nos assombram não estão relacionados à perfeição em si, mas ao medo de que nossas falhas sejam expostas. 

Vivemos em uma cultura que fala muito sobre inovação, sobre errar rápido, movimentar-se sem medo. Mas o fato de as corporações ainda recompensarem seus colaboradores por vitórias e sucessos não nos deixa à vontade para discutir erros, criar post-mortems e, de fato, aprender com eles (o que invariavelmente levaria à inovação). 

Em um papo que participei com a inspiradora Sara Blakely, fundadora da marca Spanx, ela celebrou a sorte de ter sido criada por um pai que, toda noite na hora do jantar, perguntava aos filhos “o que deu errado hoje?”. Ele sempre tinha uma história, e sentia-se frustrado quando os filhos não tinham nada para compartilhar. Se nada deu errado, provavelmente eles não estavam arriscando ou tentando fazer algo diferente e interessante, e isso não poderia ser bom para seu futuro. 

O pai de Sara estava certo. Uma pesquisa feita pela Kellogg School of Management, Northwestern University, constatou que, em um período de dez anos, pessoas que falharam cedo em suas carreiras atingiram maior sucesso do que aquelas que venceram mais cedo na vida.  

Mas é triste constatar que nós, mulheres, sofremos muito mais desse mal do que a grande maioria dos homens. 

Algumas razões para isso são: 

Preocupação com a reputação: historicamente nós precisamos, muito mais que os homens, aprender a tomar cuidado com a imagem que construímos e com tudo aquilo que pode destruí-la. Somos mais estigmatizadas, mais rotuladas e mais criticadas, em geral. Homens que tomam decisões sem consultar o time raramente são questionados. Mulheres são tachadas de impulsivas, mandonas, inseguras. Daí o hábito de ver e rever toda e qualquer decisão acaba levando ao vício do perfeccionismo. 

Multitarefa: um talento maravilhoso e tão feminino, mas que exige tanto de nós. Somos as nossas maiores críticas, e não suportamos ver nada meio-feito, mal-feito, esquecido. Elogiamos as nossas colegas por essa capacidade e não nos damos conta de que, com o elogio, vai uma carga de pressão para que tudo, absolutamente tudo, saia perfeito. 

Autocrítica exacerbada: outro traço tão nosso. Vários fatores corroboram, sendo o principal deles, na minha opinião, a idealização da imagem feminina. Desde muito cedo meninas são enquadradas em um modelo. Esperam que a gente se vista de uma certa maneira, que se sente com as pernas daquela forma, use um tal tom de voz, um tipo de penteado, uma maquiagem adequada. As revistas e os filmes nos vendem estereótipos e aprendemos que determinadas características levam a algo aceitável enquanto outras, podem nos arruinar. Nos tornamos mestres em nos comparar com a colega ao lado e com a modelo da capa, e quando não chegamos lá, nos punimos. Desconfiamos da nossa capacidade, culpamos nossas escolhas, e passamos a duvidar de qualquer decisão que precisemos tomar. 

Sim, o perfeccionismo pode ser uma rua sem saída, mas reconhecê-lo é o primeiro passo para mudar de rota. 

Tal-Ben Shahar, ao escrever “The Pursuit of Perfect”, defende que um estilo de vida otimista é mais adaptável e dinâmico, ainda permitindo o estabelecimento de metas ambiciosas mas sem a rigidez dos compromissos com a perfeição. Não é fácil mudar de hábitos, mas os exercícios abaixo podem ajudar. 

1 – Estabeleça áreas em sua vida onde não deixará o perfeccionismo entrar. Nestas, você será ótima, não perfeita 

2 – Foque no MVP (em português, Produto Mínimo Viável). Quais as necessidades mínimas para que aquele projeto seja percebido como completo? Daria para investir em aspectos “bons o suficiente” em vez de perfeitos? E isso te libertaria? 

3 – Permita-se cometer erros, de propósito. Grandes invenções do mundo e belíssimas obras de arte surgiram de erros. Faça uma busca e você ficará surpresa!

4 – Abrace aquilo que te faz bem. Ter uma casa impecável é mais gratificante que passar mais tempo com seus filhos ou fazendo carinho no seu bichinho? Virar noites para entregar um projeto é melhor que dormir mais que 5 horas? As escolhas são suas, não há certo ou errado, e elas serão ótimas, não perfeitas.

Como colunista da plataforma Women to Watch, minha sugestão é que olhemos com mais generosidade para nós mesmas e para as mulheres ao nosso redor, para que pouco a pouco, o imperfeito se torne mais-que-perfeito. Tenho certeza de que a perfeccionista em nós irá se satisfazer. 

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