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Opinião

As palavras têm DNA

Como o que descreve os acontecimentos não nos mortifica, não nos entristece, não nos assusta por ver para onde nossa humanidade caminha?


20 de junho de 2022 - 16h30

(Crédito: Maksym Drozd/Shutterstock)

No mar infinito de assuntos e estímulos, o que nos rouba a atenção? No que temos interesse genuinamente? Alguns truques estão sempre sendo testados: humor, emoção, superação, choro, riso, dor, rancor, medo. E para tudo isso usamos os mesmos códigos, as palavras.

As palavras são nossas salvadoras e detratoras. Elas certamente têm poderes mágicos, mas temos percepções diferentes delas em cada época porque um código específico de palavras nos conecta ou não, dependendo de um monte de fatores, inclusive do tempo. A mistura, o caldeirão de palavras que cria poções de ideias funciona mais ou menos dependendo do momento em que estamos como humanidade.

Há poções ainda desconhecidas que resolveriam muitas coisas, muitos dilemas, mas ainda não sabemos suas combinações certas. E, mesmo que acertemos uma combinação, ela pode simplesmente não funcionar naquele momento.

E para complicar a criação das poções, acredito que as palavras carregam nelas o seu próprio DNA, a mistura das palavras que as formaram. É como se, a cada geração, as palavras ganhassem mais significado, impregnando e alterando o seu DNA.

Tenho uma pequena história que ilustra isso.

Temos um famoso bolo aqui no Brasil que em várias regiões é chamado de nega maluca. É só um bolo de chocolate, mas aí é que está: a palavra tem DNA, e essas duas palavras juntas têm carga genética de uma história horrorosa. Por volta de 1840, uma escravizada acidentalmente derrubou cacau em pó na massa do bolo. Ela não sabia falar português, e como ninguém entendia o que ela dizia, era chamada de nega maluca. Não tem como continuar chamando um bolo de chocolate assim, com palavras que evocam tanta dor, estereótipo, opressão.

Para alguns de nós, decifrar o código genético dessas palavras nos leva imediatamente a não querer nunca mais usar o que agora se entende como uma expressão, e dar ao nosso querido bolo essa carga triste e sofrida, porque o efeito dessa poção é o sentido de outra palavra mágica do código de uma era: empatia.

E como essa palavra nos conecta? Como para alguns ela é a chave que nos faz mudar de rumo e para outros ela significa seguir em frente no matter what?

Como não sentir empatia com o que aconteceu com o Dom e o Bruno? Como achar que eles se aventuraram?

Como as palavras que descrevem os acontecimentos não nos mortificam, não nos entristecem, não nos assustam por ver para onde nossa humanidade caminha?

Escrever é essa valsa linda que segue com palavras, seus DNAs, a pontuação que nos leva em todas as direções, nos para, nos espanta, nos questiona, nos continua… porém, para onde isso tudo nos leva senão para dentro do nosso leitor pessoal desses códigos mágicos? Será que usando repetidamente não só a palavra empatia, mas todos os sentidos dela, abriremos a caixinha de leitura de alguns para que eles leiam com nossos olhos? Será que isso é possível? Se for, será que é uma boa ideia?

Para o meu leitor de código, a empatia carrega histórias de dor e sofrimento máximos, para que gerem em quem vê a projeção do outro em si uma forma de perceber de algum jeito a dor de terceiros em nós mesmos, em todos os homens e mulheres que choraram, gritaram e sentiram que aquele era um momento de desespero. Dessa vez o texto dessa coluna vai transcender o papel da mulher para nos ver como humanidade empática — os acontecimentos clamam por isso.

Sigo aqui desejando que essa palavra, a empatia, possa fazer parte de um código universal de entendimento. Uma palavra para ser dita em esperanto, que aliás carrega um DNA desde que foi criada, em 1887: o da esperança.

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