2017, um ano de inflexão
A ampla exposição de problemas crônicos — corrupção, assédio, desigualdade — nos permite entrar no próximo ano com mais consciência para fazer as escolhas certas
Desejo que 2018 seja melhor que 2017. Não que 2017 tenha sido ruim em si, mas foi um ano estranho. Para começar, é um ano primo. O próximo só 2027.
Foi também um ano sem Copa ou Olimpíada — não que as últimas experiências desses eventos no Brasil tenham sido incríveis. Os eventos foram um sucesso, mas as suas consequências — no caso da Copa já dentro de campo — continuam trazendo surpresas ruins ao Brasil e aos brasileiros.
Este foi o ano em que as redes sociais passaram do protagonismo da vida pessoal para o da vida pública. É verdade que o grande evento foi a eleição de Trump, ainda em 2016. Mas toda a história por trás disso foi descoberta em 2017. Olha a cobra! É mentira… Este foi o ano do fake news também. Na verdade, essa é uma “fake news”, porque o ano do fake news foi mesmo 2016. Mas este foi o ano de se debater como acabar (ou limitar) as notícias falsas. Obviamente, esse é um assunto ligado aos novos donos do poder da comunicação — Google e Facebook. Empresas que assumiram o protagonismo global (com exceção da China) em todas as formas de comunicação. Ainda precisam, porém, arcar com a responsabilidade que vem com o grande poder.
Foi o ano da descrença total e absoluta em relação à política e aos políticos no Brasil — embora tenha sido o ano da virada na economia. Algo dificilmente previsto e ainda não totalmente entendido.
No mercado de comunicação, o ano também foi fora da curva, porém de uma forma negativa. O intocável Festival de Cannes quase ruiu. Foi obrigado a diminuir e se reinventar para sobreviver.
O poderio das grandes holdings está sendo testado — as suas ações sofreram quedas recordes este ano. As aquisições continuaram, mas em um ritmo diferente. A empresa que mais comprou agências não foi a WPP, o Omnicom ou a Publicis, mas a Accenture.
Muitos dos grandes anunciantes também estão sendo desafiados — por start-ups, investidores ativistas e consumidores conscientes. Se tamanho já foi documento, hoje agilidade e inovação são as moedas que mais têm valor.
Falando em moedas: nem o dólar, nem o euro e muito menos o real. O grande destaque foi o bitcoin. Muitos economistas e poderosos chefões de grandes bancos bradam contra a moeda, mas a sua valorização já chega a quase 1.000%.
Para coroar um ano que não estava indo tão bem, o último trimestre trouxe revelações perturbadoras de assédios em diversas áreas. Primeiro foi Hollywood, que resolveu desmascarar seus ídolos e patrões — Kevin Spacey e Harvey Weinstein foram execrados e demitidos, este último de sua própria empresa. Depois, tivemos a política norte-americana e, no nosso mercado, a pesquisa divulgada na Conferência do Grupo de Planejamento, que expôs uma realidade dramática e inaceitável na publicidade brasileira.
Apesar de tudo isso, estou otimista para 2018. É verdade que saímos de 2017 carregados, com muitos problemas em diversas frentes. De outra perspectiva, a ampla exposição de problemas crônicos — corrupção, assédio, desigualdade — nos permite entrar no próximo ano com mais consciência para fazer as escolhas certas. Afinal, o começo da solução de um problema é a sua identificação.
Se a quantidade de notícias ruins foi grande, também tivemos eventos muito interessantes, os quais possibilitam grandes saltos de qualidade em diferentes direções. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ideia do futuro e já está entre nós. O número de pessoas conectadas nunca foi tão grande, permitindo maior acesso à informação e educação.
No Brasil, as pessoas estão mais politizadas — mesmo que ainda de forma extremada, de um lado ou de outro. Mas isso promove o debate e aumenta a cobrança a nossos representantes.
E o nosso mercado de comunicação começou a enxergar mais claramente os seus problemas — seja de transparência, de qualidade do trabalho ou das relações comerciais. A tendência é a de que novos líderes surjam com novas mentalidades.
Espero que, olhando para trás, daqui a alguns anos, possamos pensar em 2017 como um ano de inflexão. Menor em relevância, certamente, do que 1776, 1789, 1848 e 1945, mas, ainda assim, como um marco marcante para o começo de uma nova era de prosperidade com mais respeito individual e melhores relações entre as pessoas e as nações. Esse é o meu desejo.